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Mães e filhos

"Engravidei na primeira noite": como é ter um filho em uma relação casual

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Ana Bardella

De Universa

10/03/2020 04h00

Se a gravidez já mexe com o emocional de uma mulher quando é planejada, nas ocasiões em que acontece de surpresa o desafio pode ser maior ainda. Sem nunca ter vivido um compromisso afetivo com o outro, cabe a mulher às decisões com relação ao futuro da criança. Algumas optam por interromper a gravidez, outras não chegam a contar para o pai do bebê e dão prosseguimento à família sozinhas.

Entre as que escolhem contar (ou precisam fazer isso por questões financeiras), as possibilidades também são diversas: desenvolver uma conexão com o parceiro; continuar solteira, mas em acordo com ele; ou até se decepcionar com suas atitudes.

A seguir, três mulheres contam suas histórias.

"Fizemos uma parceria"

Já conhecia o pai do meu filho há alguns anos, pois temos amigos em comum. Mas nossa relação sempre foi superficial: nas vezes em que nos encontrávamos, flertávamos e nada mais. Até que um dia ele me convidou para sair. Viemos para minha casa, transamos e usamos preservativo. Mas quando a relação acabou, um acidente: a camisinha ficou "presa" dentro de mim e o que estava dentro dela vazou. Quando percebemos, fui tomar um banho e voltei. Ficou uma situação constrangedora, mas nenhum de nós tocou no assunto.

Entendi que a decisão cabia a mim e optei por não tomar uma pílula do dia seguinte. Havia parado de tomar anticoncepcional há pouco tempo e pensei que as chances de engravidar eram pequenas, porque tenho ovários policísticos e sei que isso pode atrapalhar o processo. Além disso, se engravidasse, não seria um problema. Tenho 33 anos, uma vida financeira estável e o desejo de ser mãe. Já estava cogitando, por exemplo, fazer uma inseminação artificial.

Saímos mais duas vezes, tomando cuidado para que a situação não acontecesse novamente. Na terceira semana, a possibilidade de ter engravidado naquela noite não saía da minha cabeça, então comprei um teste de farmácia mesmo antes de a menstruação atrasar. Quando vi o resultado positivo permaneci em choque, sem conseguir fazer nada, por duas horas. Não foi um sentimento ruim, mas uma sensação de 'realmente está acontecendo'.

Tentei chamá-lo para um jantar em casa para falarmos sobre o assunto, mas ele se esquivou. Começou a dar os sinais típicos de quem está saindo com outras pessoas e não quer se envolver. Percebendo isso, escrevi um texto grande explicando a situação, expondo o meu desejo antigo de ser mãe e enviei. Quando recebeu, ele estava na casa dos pais e veio imediatamente até onde moro para conversarmos.

A reação, é claro, foi de susto. Mas ele nunca me pressionou para tomar qualquer tipo de decisão que fosse contra a minha vontade, sempre me respeitou. Isso é algo que todos os homens deveriam fazer - apesar de, na prática, não funcionar assim. Até ficamos juntos mais uma vez, porém nossas divergências são grandes e não foi possível sustentar a relação. No começo, isso foi doloroso de se aceitar. Gestantes mudam de opinião rapidamente. Na minha carência, cheguei a pensar que o melhor para nós era que permanecêssemos juntos.

Hoje estou com cinco meses e já temos uma relação bem mais clara. Eu, por exemplo, voltei a usar aplicativos de relacionamento - apesar de nem todos os homens com quem saí aceitarem bem a gravidez. Percebo que ele também está mais acostumado com a ideia, por isso estabelecemos uma cooperação. Brinco que vivo uma 'maternidade pós-moderna', sou mãe solo em parceria. Dividimos os custos, moramos perto um do outro e pretendemos ter a guarda compartilhada do nosso filho. Hoje, apesar das dificuldades, avalio que tive a sorte de tudo acontecer com alguém bacana. Sei que, para muitas mulheres, a situação é bem diferente.

Marina Fagundes, 33 anos, servidora pública

"Nunca conseguimos ser amigos"

Quando tudo aconteceu eu tinha 19 anos e cursava Letras na USP. Tenho uma deficiência física chamada artogripose, que deixa as articulações mais rígidas e causa perda da força muscular. Tinha acabado de fazer uma operação complicada no pé. Passei algum tempo no hospital e vi pessoas falecendo. Tudo isso me fez refletir sobre a vida, me fez ter uma vontade maior de experimentar o mundo, principalmente porque sou uma pessoa tímida.

Nesse período, me obriguei a ter relações sexuais. Tinha curiosidade, achava que era o momento. Mas fiz isso de uma forma estabanada. Um dia fui a um samba com uma amiga. Conheci um rapaz que estava com o primo, ele foi gentil comigo. Na hora de pagar, me atrapalhei e acabei usando o dinheiro com o qual pegaria o táxi para minha casa. Naquela época, não era possível pagar com cartão. Então, ele me ofereceu uma carona de moto.

Acabamos na casa de uma amiga. Eu me considerava uma mulher forte, achava que nunca iria transar sem camisinha. Mas, na verdade, fiquei com vergonha de tê-lo chamado para lá e senti como se tivéssemos a obrigação de transar. Nenhum dos dois tinha preservativo - eu havia tirado um da minha carteira depois de a minha mãe ter achado e brigado comigo. Mesmo assim, aconteceu. Eu não estava com vontade, só queria que acabasse logo, então não foi bom. Lembro que tomei uma pílula do dia seguinte, ainda preocupada com o risco de ter contraído alguma doença.

Cheguei a encontrá-lo novamente no mesmo lugar, mas só nos cumprimentamos. Depois de algumas semanas, descobri a gravidez. Fiquei aterrorizada, pensei em abortar. Minha família também soube da situação e me ofereceu apoio, independentemente da minha escolha.

Consegui o contato dele e expus o que estava acontecendo. Sua reação na época foi a pior possível: disse que eu deveria interromper a gravidez, mas não me ofereceu nenhum tipo de ajuda. Mais tarde, descobri que ele tinha um relacionamento. Ou seja, tinha traído a namorada comigo.

No último momento, mudei de ideia e decidi prosseguir com a gravidez. Nessa época, morava no alojamento da faculdade e passei por muitas dificuldades. As assistentes sociais, por exemplo, não queriam liberar uma vaga para meu bebê na creche, pois achavam que deveria deixá-lo com meus pais para que eles cuidassem. Apesar disso, recebi apoio de mulheres mais velhas que já eram mães e tive uma troca de experiências muito rica com elas.

Nos primeiros meses, tentei dialogar com o pai do meu filho. Acreditava no poder da conversa para a resolução dos problemas. Quando o bebê nasceu, ele foi até a maternidade e o registrou, provavelmente por influência do primo. Depois, nossos contatos eram por telefone. Ele dizia que não poderia ir visitá-lo e foi sumindo.

Depois de 6 meses decidi lutar pelos direitos do meu filho. Ele fugia dos oficiais de justiça e não pagava a pensão. Chegou a ser preso duas vezes por causa disso. É uma briga que não acabou e que me causa extremo cansaço.

Hoje em dia meu filho está com 13 anos e procuro ter um diálogo aberto com ele, respeitando seus limites como pré-adolescente. Queria ter tido mais tempo e menos cansaço para viver a maternidade, mas creio que fiz o que precisava ser feito da maneira como foi possível fazer. Fico feliz em saber que os jovens de hoje já falam mais sobre consentimento e liberdade para dizer não, porque na época em que engravidei, isso não era debatido.

Vanessa Yara Gonçalves, 35 anos, produtora de conteúdo

"Fomos morar juntos sem nos conhecer"

Conheci o Patrick, pai da minha filha, no Tinder. Na época, tinha terminado um relacionamento há pouquíssimo tempo e não estava buscando me envolver sério com alguém. Ele também não queria namorar. Minha rotina era puxada, por isso não tinha muito tempo de sair. Nós conversávamos virtualmente, mas quando ele me chamava, eu não ia. Até que um dia topei. Na segunda vez que saímos, fui até a casa dele e ficamos juntos pela primeira vez.

Eu achava que não estava no período fértil. Havia parado de tomar a pílula anticoncepcional há pouco tempo e, pelo que acompanhava pela tabelinha, não poderia engravidar. Além disso, fizemos o chamado "coito interrompido", então achei que não teria problemas.

Continuamos conversando, mas sem nos encontrar pessoalmente. A confirmação de que estava grávida veio somente depois de 15 dias de atraso da minha menstruação. Já havia falado sobre a possibilidade de isso acontecer para ele, aterrorizada, mandei uma foto do resultado do teste de farmácia positivo.

Nos encontramos para conversar e ele estava muito feliz com a notícia. Eu, pelo contrário, nunca tive o sonho de ser mãe. Achava que não queria. Então, quando ele começou a me propor um relacionamento sério, pedindo para que nós ficássemos juntos, eu me assustei. Achei que ele era louco de dizer algo assim, pois nós nos encontramos poucas vezes.

Confesso que achei que ele me pediria um exame de DNA, algo do tipo. Porém, ele só ficou animado. Logo no início da gravidez, comecei a ter infecções recorrentes e que me davam muitas dores. Ele se propôs a dormir comigo alguns dias, para me levar ao hospital caso fosse necessário. Com isso, começamos a namorar. Foi uma situação estranha, porque, no início, não tínhamos tanto sentimento.

Como ele insistiu que construiríamos o sentimento juntos e que valeria a pena tentar pelo bem do bebê, aceitei. Logo passamos a morar juntos. Agora estou no oitavo mês de gestação da nossa filha e nossa relação mudou muito. Brigamos várias vezes. Eu já quis expulsá-lo de casa [risos], mas ele nunca foi. Hoje, temos muito sentimento um pelo outro, continuamos juntos e acredito que nossa relação tenha muito futuro pela frente.

Naiara Biscaia, 24 anos, autônoma

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