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Mães e filhos

"Tenho 58 anos e aceitei gestar meu neto e realizar o sonho da minha filha"

José Neto
Imagem: José Neto

Ana Bardella

De Universa

19/02/2020 04h00

Parece história de novela, e é — mas é também uma história que extrapolou a ficção. Em "Amor de Mãe", Thelma (Adriana Esteves) pretende ser "barriga solidária" e gestar o próprio neto, já que a nora Camila (Jessica Ellen) perdeu o útero e não pode mais engravidar. Na trama, os óvulos de Camila foram coletados em laboratório, fecundados pelo esperma do marido Danilo (Chay Suede) e, depois, implantados no útero de Thelma.

Longe das telas, uma família de Uberlândia (MG) passa por uma situação semelhante. Há 11 anos, quando tinha 22, Thais Marina Soares foi diagnosticada com um câncer raro no útero. Quando descobriu a doença, além de sessões de químio e radioterapia, precisou também fazer uma cirurgia para a retirada do órgão. Os médicos optaram, no entanto, por manter o restante do sistema reprodutivo.

Três anos depois, Thais se casou e sentiu o desejo de ser mãe. "De primeira, não cogitei a possibilidade de um filho biológico. Só pensava em adotar. Mas o tempo foi passando e eu e meu esposo ficamos desanimados com as burocracias e o tempo de espera da fila de adoção, por isso começamos a pensar em outras alternativas", conta.

No Brasil, existem regras para a barriga solidária. A legislação determina que as doadoras temporárias de útero devem pertencer à família de um dos parceiros em um parentesco consanguíneo até o quarto grau. Ou seja, na prática, apenas mães, irmãs, avós, tias ou primas diretas de uma das partes do casal estão aptas para a gestação solidária.

Devido à configuração familiar de Thais, a única que poderia, naquele momento, levar adiante a gestação era sua mãe, Tereza Aparecida Soares, que, na época, estava com 56 anos. A seguir, a avó, uma dona de casa que está com 58 anos e na trigésima terceira semana da gestação do seu neto, conta sua história:

Rubens, Tereza e Thais -  -
Rubens, Tereza e Thais

O câncer precoce

"Sou casada há 34 anos e tenho duas filhas. Com 22 anos, Thais, uma delas, descobriu que estava com um tipo raro de câncer no útero, conhecido como 'carcinoma de pequenas células'. Mas o diagnóstico demorou a chegar: como o tumor estava em um local de difícil acesso, foram meses fazendo exames até receber a confirmação.

Quando finalmente encontraram a origem da doença, Thais precisou passar por um tratamento agressivo. Primeiro, uma cirurgia para a retirada do útero. Depois, sessões de quimioterapia em doses altas e radioterapia. Nesse período, ela ficou internada e precisou receber diversas transfusões de sangue.

Alguns médicos chegaram a me dizer coisas desanimadoras sobre o futuro dela, mas não acreditei nelas nem por um segundo.

Nunca perdi as esperanças.

A vida pós-tratamento

Na época em que descobriu o câncer, Thais fazia faculdade de Enfermagem e namorava havia três anos. Por causa dos tratamentos, atrasou a conclusão do curso em um ano, mas se formou e começou e logo começou a trabalhar. Ela e o namorado continuaram juntos, cada vez mais próximos. Três anos depois da sua formatura, os dois se casaram.

Uma vez, durante uma consulta de Thais, tocamos no assunto da barriga solidária com um médico da cidade. Na época, eu estava com 52 anos. Não havíamos decidido nada ainda, falamos disso por curiosidade. Mas ele foi enfático: disse que eu não poderia engravidar naquela idade, principalmente por sofrer de pressão alta.

O desejo de ser mãe

Dois anos depois de se casar, Thais sentiu o desejo de ser mãe. Considerando que esta era a opção mais viável, fez todos os procedimentos burocráticos para entrar na fila de adoção — na qual está até hoje, uma vez que não desistiu da ideia de adotar uma criança. Mas, conforme o tempo foi passando, ela e o marido ficaram desanimados e começaram a considerar também outras opções.

Sabendo disso, uma amiga dela recomendou que passássemos em uma clínica de fertilização. Foi então que eu entrei na história: ela e o marido vieram até minha casa, conversamos brevemente e eles me perguntaram o que eu achava da ideia de engravidar para que os dois pudessem ter um filho. Eu estava com 56 anos, mas topei na mesma hora. Não tive medo de nada.

Quando contei para o meu marido, ele estranhou e se preocupou um pouco, mas disse que me apoiaria na decisão.

Então fomos a uma clínica de fertilização em Ribeirão Preto (SP). Lá, constatei que estava com as taxas de colesterol altas e que precisaria controlar a pressão antes de pensar em engravidar. Mas estava determinada: segui todas as recomendações da médica e perdi 12 quilos. Com isso, fui liberada para a gestação do meu futuro neto.

Sonho realizado

Não foi de primeira, mas consegui engravidar. A felicidade foi geral: a família inteira ficou radiante. Atualmente, estou na trigésima terceira semana e não tive nenhuma intercorrência na gravidez.

Minha cesariana foi jogada um pouco mais para frente, justamente pela forma saudável como meu corpo está conduzindo a gestação. Sinto que desta vez está sendo até mais fácil do que das outras duas.

Mesmo grávida, continuo com a vida normal. Vou à missa, ao supermercado e não ligo quando alguém fica me encarando.

As pessoas perguntam pouco, mas olham bastante. Se alguém puxa papo, eu logo aviso que não é meu.

Não sou uma pessoa ansiosa: quero conhecer o rosto do meu neto, mas entendo que tudo tem seu tempo. O que sei é que, quando ele nascer, teremos uma relação comum. Sou daquelas avós que querem apenas ser avós. A maternidade será toda da minha filha."

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