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Mãe de duas vítimas de feminicídio: "Agora só restou uma filha"

Ângela Gomes dos Santos, de 58 anos, mãe de duas vítimas de feminicídio - Arquivo Pessoal
Ângela Gomes dos Santos, de 58 anos, mãe de duas vítimas de feminicídio Imagem: Arquivo Pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

11/12/2019 04h00

A camareira Genaína Gomes dos Santos, 34, pretendia levar os filhos para comprar os presentes de Natal na sexta-feira (6), em Cariacica, região metropolitana de Vitória (ES). Um dia antes, porém, foi morta a facadas, em casa, pelo marido, que não aceitava o pedido de divórcio. Os filhos presenciaram a cena. O homem fugiu e ainda é procurado pela Polícia Civil.

O assassinato de Genaína reacendeu um drama na família. A irmã caçula dela, Saara Gomes dos Santos, morreu em 2005, quando tinha 17 anos. Também por não querer mais continuar com o companheiro, levou pancadas na cabeça e morreu no dia em que comemorava o aniversário de um ano da filha.

"É a segunda filha que enterro. Perdi duas filhas por causa de homem. Agora só restou uma", diz Ângela Gomes dos Santos, 58, mãe das vítimas de feminicídio. "Estou muito triste e não me conformo com tanta covardia." Ângela ainda é mãe de Gerlane, 34, irmã gêmea de Genaína.

A camareira Genaína e o marido, o carregador de feira Antônio Junior Cruz da Silva, estavam casados havia 14 anos. Segundo Ângela, a filha tentava a separação por não aguentar mais os vícios em álcool e drogas do companheiro.

Neto avisou a avó sobre o crime

Na noite de quarta-feira (4), Ângela conta que o genro saiu do trabalho e se dirigiu a um bar no mesmo bairro onde moram. Ele teria pedido para um cunhado pegar alguns pertences pessoais na casa onde morava com Genaína e os filhos para, enfim, iniciar a separação. Porém, no início da madrugada de quinta-feira, decidiu retornar ao imóvel, atacando a esposa com uma facada no pescoço.

"Ele pediu para o cunhado dele retirar as malas de casa e ficou vigiando a menina, esperando uma oportunidade para fazer essa covardia. Ele não queria ir embora. Quando minha filha tocava no assunto, ele mudava ou comprava algo para agradar e dizia que mudaria. Ela não teve nenhuma defesa", diz Ângela.

A camareira Genaína Gomes dos Santos - Arquivo pessoal
A camareira Genaína Gomes dos Santos
Imagem: Arquivo pessoal

Na casa, estavam os quatro filhos do casal, de 2, 8, 11 e 14 anos. O mais velho foi quem avisou a avó sobre o crime.

"Eu pensei que ela estava desmaiada. Chamei o meu marido e ele que viu que não estava mais viva", lamenta a mãe da vítima.

Genaína era considerada uma pessoa bastante alegre que "vivia sorrindo", segundo a mãe. "Amava os filhos, tanto que já iria comprar os presentinhos deles de Natal na sexta-feira."

O carisma da camareira, diz a mãe, era semelhante ao da irmã caçula, Saara.

As semelhanças entre as irmãs, infelizmente, também abrangem as relações conturbadas que tiveram com os companheiros antes de serem mortas.

A perda da primeira filha

De acordo com Ângela, Sarinha, como a vítima era chamada pela família, perdeu a vida depois de dar mais uma chance ao marido, André Inocêncio, também foragido.

"A Sarinha morava comigo. Tive um desentendimento com o marido dela e levei um soco na cara. Eu o mandei embora, mas pedi que ela ficasse comigo. Ele não deixou. Mesmo eu pedindo, minha filha foi com ele. Eu a visitava, mas não entrava na casa porque o marido não deixava", conta Ângela.

A mãe se lembra de ter desconfiado das agressões à filha somente dias antes do assassinato. Saara retornou para a casa de Ângela depois de sofrer violência física do marido, mas passou apenas um dia longe do companheiro.

"Ela chegou uma vez aqui com o pescoço torto. Arregacei as mangas da camisa dela e vi uns arranhões. Ela justificou que caiu perto da geladeira, mas não acreditei. Lembro que isso foi numa terça-feira e ela veio para casa de novo. Mas, na quarta-feira, a Sarinha decidiu retornar para casa dela. Na quinta, morreu pouco antes de a gente comemorar o aniversário da filha dela."

Com a morte das filhas, todos os netos órfãos passaram a morar com os avos maternos, responsáveis por dar o apoio psicológico e financeiro das crianças com os demais familiares. Na casa, apenas o marido de Ângela trabalha. Ele atua como gari em Cariacica.

Para evitar que outras mães passem por situações como a que ela enfrenta atualmente, Ângela faz um apelo para que não deixem de procurar ajuda das autoridades quando virem uma filha ser vítima de qualquer tipo de violência.

"Perdi minhas filhas sem defesa alguma. As mães devem denunciar enquanto há tempo porque as filhas geralmente estão presas aos maridos. Não podemos nos calar."

Violência contra a mulher