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Advogada faz denúncia após ter fotos falsas de nudez compartilhadas na rede

Thatiana Poncino do Nascimento conta que sofreu ataque nas redes sociais pela segunda vez - Reprodução
Thatiana Poncino do Nascimento conta que sofreu ataque nas redes sociais pela segunda vez Imagem: Reprodução

Alexandre Santos

Colaboração para Universa, em Salvador

07/10/2019 20h25Atualizada em 10/10/2019 17h45

A Polícia Civil da Bahia instaurou um inquérito para tentar identificar os responsáveis por espalhar em páginas da internet e nas redes sociais fotomontagens com conteúdo de nudez atribuídas a uma advogada de Itabuna (BA), a 400 km de Salvador. O MP (Ministério Público) estadual informou que também investiga o caso.

Thatiana Poncino do Nascimento diz ter registrado um boletim de ocorrência na quarta-feira (2), embora afirme ser a segunda vez que sofra ataque cibernético. Ela conta já ter sido alvo do mesmo tipo de ação entre 2015 e 2016, época em que não procurou as autoridades por não acreditar que os possíveis criminosos pudessem ser descobertos e punidos.

"Na primeira vez, não tinha esperança de encontrar o responsável. Não tinha a investigação que se tem hoje. Eu também teria que reviver a situação. Mesmo não sendo eu, me senti como sendo aquela pessoa. Era vergonhoso pra mim", desabafou em entrevista ao programa "Encontro com Fátima Bernardes", na manhã de hoje.

Universa tentou falar com Thatiana, mas não obteve respostas até a publicação desta reportagem. A advogada, no entanto, divulgou um texto no qual descreve como "constrangedora" a situação por que vem passando. "Situação que entristece, que machuca e que me faz refletir diariamente sobre a maldade humana! Mais uma vez estão circulando na internet fotos de mulheres anônimas nuas juntamente com fotos das minhas redes sociais", escreveu.

Ela explica que as imagens são as mesmas disseminadas anteriormente, e foram adulteradas a partir de fotos retiradas de seu perfil no aplicativo.

"O responsável pela montagem cortou a cabeça de mulheres despidas e as enviou juntamente com fotos minhas aqui do Instagram, no intuito de induzir aqueles que as recebem a acreditar que sou eu nas imagens de nudez. Não, não sou eu nessas fotos! Nunca fotografei sem roupa, não pretendo e não vejo problema nenhum em quem gosta desses registros, só não é o meu caso. Eu convido você leitor, por um minuto, a se colocar em meu lugar, a se imaginar sendo vítima dessa conduta criminosa", afirma ela no texto.

Impotente e devastada

Thatiana afirma que o episódio a fez sentir-se impotente. "Se imagine querendo dizer ao mundo que ali não é você, querendo se justificar, desvincular sua imagem daquelas fotos, sem conseguir! A propagação de conteúdo pela internet é veloz e feroz! E aí só te resta engolir a amarga sensação de impotência e suportar a angústia de uma indigestão irremediável, enquanto assiste seu nome e imagem serem usados indevidamente. Você acha que está isento de passar por tal situação? Não está!", acrescentou.

A advogada diz que, nas duas ocasiões em que as imagens fakes foram propagadas, passou a recebê-las na própria caixa de mensagens.
Ao ler o conteúdo do que era enviado até mesmo de outros países, diz ter ficado devastada com o linchamento virtual. "Minhas redes sociais foram invadidas. A maioria eram mensagens ofensivas. Foi um linchamento virtual. Fiquei devastada", prossegue.

"Recebi milhares (sem exagero) de mensagens de toda a parte do Brasil, do Chile, Argentina, Bolívia, México...sim, isso foi muito longe! Mensagens das mais bem intencionadas às mais grotescas. Boa ou ruim, cada msg [sic] lida, me fazia reviver toda a situação e era como uma facada em meu peito. Sou mulher, mãe, esposa, advogada e não está sendo fácil ser vítima de atos tão repugnantes, dói! Mas ainda assim, escolheria mil vezes sentir essa dor, do que ser a causadora dela."

Autoridades apuram denúncia de difamação

Em nota encaminhada para Universa, a assessoria da Polícia Civil informou que a Deam (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher) de Teixeira de Freitas instaurou um inquérito para apurar a denúncia de difamação por meios eletrônicos via redes sociais. "Após o registro, realizado na quarta-feira (2), a delegada Kátia Cielber Garcia já ouviu a vítima e recolheu arquivos digitais para serem analisados e complementarem as investigações, que tem o apoio do Grupo Especializado de Repressão aos Crimes por Meios Eletrônicos (GME)", diz no comunicado.

Também em nota enviada à reportagem, o MP baiano afirma que os fatos comunicados e documentos apresentados pela advogada Thatiana Poncino estão sendo analisados pelo Nucciber (Núcleo de Crimes Cibernéticos) do órgão. As investigações, contudo, correm sob sigilo.

"Segundo o promotor de Justiça Moacir Silva do Nascimento Júnior, coordenador do Núcleo de Crimes Cibernéticos (Nucciber) do Ministério Público do Estado da Bahia, estão sendo analisados os fatos comunicados e os documentos apresentados à Promotoria de Teixeira de Freitas pela advogada Thatiana Poncino no último dia 26 de setembro. Ele explicou que, nesse tipo de crime, as investigações correm em sigilo para não prejudicar o resultado das diligências e não causar outros danos às vítimas", afirma.

A Comissão da Mulher da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em Itabuna —onde Thatiana atua na área criminal— emitiu nota em que diz repudiar a veiculação de conteúdo criminoso.

Leia a nota na íntegra:

"A Ordem dos Advogados do Brasil Subseção de Itabuna-BA, através da sua Comissão da Mulher, na data de hoje, 26 de Setembro de 2019, vem a público, dirigir-se à advocacia e à sociedade brasileira, para mais uma vez MANIFESTAR REPÚDIO contra a veiculação criminosa do nome da ADVOGADA THATIANA PONCINO DO NASCIMENTO e imagens 'FAKES' que circulam em sites da internet, grupos de WhatsApp, Instagram e Facebook.

O responsável pela montagem e veiculação do conteúdo criminoso, ardilosamente, cortou o rosto das mulheres que aparecem despidas nas imagens e as enviou juntamente com fotos das redes sociais da advogada, no intuito de induzir àquele que as recebe a acreditar que essas mulheres e a advogada são a mesma pessoa.

Repisa-se que não se trata da advogada Thatiana Poncino nas imagens de nudez e que a conduta daquele que realizou a referida montagem, é crime tipificado no artigo 216-B, parágrafo único do Código Penal. Responde criminalmente também, aquele que repassa essas imagens por qualquer meio.

A OAB Subseção de Itabuna e a Comissão da Mulher já estão tomando todas as providências cabíveis para punir os responsáveis pela montagem e pela propagação do conteúdo.

É inadmissível que esse ato criminoso fique sem a devida investigação e impune! Thatiana Poncino é uma advogada conhecida por sua idoneidade e reputação ilibada, profissional íntegra, que atua com muita responsabilidade, respeitando os valores éticos e morais.
Portanto, pedimos encarecidamente que ajudem a combater essa violência contra a mulher, mãe e profissional.

Finalizam e assinam a referida nota de repúdio a presidente da Comissão da Mulher, Andréa Peixoto e o presidente da Subseção, Edmilton Carneiro."

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