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Ter "pele boa" está se tornando o novo "ser magra", diz Julia Petit

Julia Petit, 47, começou a trabalhar como criadora de conteúdo há 13 anos e, atualmente, é cofundadora da Sallve, marca de dermocosméticos - Divulgação
Julia Petit, 47, começou a trabalhar como criadora de conteúdo há 13 anos e, atualmente, é cofundadora da Sallve, marca de dermocosméticos Imagem: Divulgação

Natália Eiras

De Universa

19/09/2019 04h00

"Lindos poros, péssima influência", diz a descrição do Instagram de Julia Petit, 47. A empresária começou a criar conteúdo sobre moda e beleza há 13 anos, quando "tudo isso aí era mato" e o conceito de marketing de influência ainda não estava maduro. "A gente só publicava umas coisas lá no blog e estava tudo bem", diz ela, rindo, em entrevista para Universa sobre poros, pele e mais.

Ela era a cabeça e a alma do Petiscos, site de estilo de vida, onde falava sobre tendências de moda da passarela e dicas de beleza. Em 2017, mesmo sendo referência no assunto, Julia publicou um texto e um vídeo dizendo que iria "fugir" e, por isso, o Petiscos fecharia. "Parei o site para pensar na vida, no que eu iria fazer a seguir", diz. O período sabático terminou no fim do ano passado com o anúncio de lançamento da Sallve, marca de dermocosméticos que virou sensação nas redes sociais antes mesmo de lançar seu hidratante antioxidante, limpador facial e esfoliante enzimático. É que Julia assumiu o posto de cofundadora e diretora criativa da marca.

Com o "hallyu", a onda de influência da cultura coreana que inundou o ocidente, veio também a febre do cuidado com a pele. A Sallve, cujas embalagens são coloridas, em tons pastéis, e imagens de divulgação tem modelos moderninhas de "cara limpa", surfou essa onda e virou "queridinha" das influenciadoras -mesmo Julia Petit não gostando desse conceito. "Não podemos transformar o skincare em uma neura como foi a maquiagem", fala.

A ex-influenciadora e atual empresária defende o cuidado da pele como um momento de contemplação e não de terapia .Ela também fala sobre os termos que o mercado de beleza deveria tirar do vocabulário e como "vender" cuidado com a pele sem oprimir. Leia os principais trechos a seguir:

Você lançou uma marca de beleza. Deixou de ser uma influenciadora?
Eu continuo tendo clientes que querem fazer coisas comigo. Não deixaria de fazer isso. Tenho marcas de amigas que ajudo, mas são coisas muito próximas e projetos que gosto muito. Já cumpri a minha função, ensinei bastante sobre marketing de influência. Essa parte da minha carreira está cumprida. Não vou deixar de trabalhar com outras marcas, mas desde que se encaixe de fato com quem sou.

Estar na marca não compromete sua imparcialidade na hora de falar de produtos para seus seguidores?
Oi, gente, eu sou a dona da Sallve, né? Então vou falar da minha marca. As pessoas podem achar que eu puxo a sardinha para o meu produto, mas o conteúdo da Sallve é muito importante para a gente. Usamos a abordagem educativa para que essa pessoa possa consumir de forma consciente, seja a nossa ou qualquer outra marca. Então existe o momento de vender os produtos e existe o momento de informar as pessoas. Não podemos misturar tudo isso.

Autocuidado é uma palavra que está "na moda" e muita gente tem dito que cuidar da pele, passar um hidratante ou fazer uma máscara pode ser uma forma profunda de cuidar de si. Você concorda?
Chamar skincare de autocuidado chega a ser falta de respeito. Skincare é cuidar de sua pele. Autocuidado é algo mais profundo, é olhar para sua saúde mental em uma época que as pessoas estão com tantos problemas diferentes em relação a isso. As marcas e pessoas não podem usar esse subterfúgio de dizer que cuidar da pele é cuidar também de saúde mental.

Por que as pessoas costumam confundir esses termos?
É divertido estar na frente do espelho e colocar uma máscara, pode ser um momento de autoconhecimento. Assim como a maquiagem, que é uma coisa lúdica, em que você brinca com a sua aparência e, conforme o tempo passa, você se conhece. Mas não podemos tratar isso como autocuidado. Tratar a pele faz a gente se olhar com atenção, com mais paciência, por isso existe essa confusão.

Cuidar da pele também pode ser um ato político?
O mundo virou um lugar muito louco, e o cuidado da pele virou uma ferramenta para ficar consigo mesmo por um tempo. Seja para passar um hidratante de manhã ou lavar o rosto. São microssegundos de paz escapistas. E o cuidado da pele tem uma coisa de se tocar, então é muito emocional. Em um momento tão duro, com tantas coisas acontecendo, é uma pequena fuga e um tempo de intimidade com você.

Existe um limite saudável? Cuidar da pele também pode ser tornar uma neura?
Não podemos transformar o skincare no que era a maquiagem. Ficar acumulando um monte de produtos como doidas sem saber, de fato, o que está fazendo efeito. Produtos de cuidado com a pele são mais caros, em geral, então não adianta acumular.

"Não podemos deixar que o skincare se torne maquiagem", fala a empresária  - Tiago Gass
"Não podemos deixar que o skincare se torne maquiagem", fala a empresária
Imagem: Tiago Gass

O "ter a pele boa" é o novo "fique magra"?
Pode ser. Na Ásia, a pele boa, clara, sem manchas, sem poros, te coloca em uma categoria melhor na sociedade. O que me preocupa é essa transposição para cá. Assim como a maquiagem pode virar algo muito opressivo, de não se aceitar como é e se tornar outra pessoa, o skincare também pode ter isso e ser ainda pior. Porque a sua pele é a sua pele. A Jana [Rosa,influenciadora] fala que a pele bonita não é a perfeita, mas a bem cuidada. Do ponto de vista de saúde, não da perfeição, porque ninguém é perfeito. As pessoas já estão muito oprimidas por seus próprios hábitos, não podemos oprimir mais ainda com a pele, que é uma coisa que nasce com ela, que não dá para mudar.

A Sallve já era muito comentada mesmo antes de ter produto no mercado. Por que tomaram essa decisão de criar a marca sem ter o produto?
A gente lançou a marca "ao contrário" porque queríamos falar com as pessoas e ver o que de fato elas precisavam. Queríamos ter um canal de conversa espontânea, criar um ambiente para que elas confiassem e explicassem o que precisavam. Não queríamos entrar no mercado com oito produtos e impor isso para as pessoas.

Mas você não acha que criar um produto tão "instagramável" pode não ter o efeito contrário, fazer com que as pessoas pensem que elas "precisam" ter o produto em seus banheiros?
Muito pelo contrário, as pessoas não precisam de nada. A não ser respirar, comer e dormir. A gente tem que trabalhar com as pessoas a ideia de que não existe pele ruim, pele errada, pele feia. Existe a pele que pode ficar mais saudável, não melhor. Não provocar a consumir, mas ensinar com tranquilidade. A gente de maneira nenhuma, jamais, vai usar linguagem provocativa ou de inadequação. Porque elas já fazem isso sem precisar da nossa ajuda. Na época do Petisco, já tínhamos um glossário enorme com expressões que não poderíamos usar.

Autocuidado é uma delas?
Sim, é uma delas. Não usamos nada relacionado a pele perfeita, pele boa.

Clareamento de pele a gente também não fala, porque tem uma carga muito violenta para pessoas negras. Também evitamos dizer que somos uma marca de beleza, mas uma marca de cuidados com a pele.

Qual o tipo de neurose que as consumidoras costumam ter que te preocupa?
Uma das coisas que mais aparecem em pesquisa são as pessoas dizendo que querem que os poros desapareçam. É uma neurose muito preocupante. Passamos o tempo inteiro vendo foto com [efeito] blur, aí quando você se olha no espelho, também quer aquele blur. Você vai ter poros a vida inteira, amiga, faz parte da desintoxicação do seu corpo. São pequenas coisas que vão enlouquecendo as pessoas.

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