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Minha história


"Relatos na internet me ajudaram a descobrir que tinha depressão"

Wellington Soares

Colaboração para Universa

09/09/2019 04h00

Desmotivação e preguiça. Para a consultora financeira Juliana Bighetti, de 27 anos, essas eram as palavras que melhor definiram seu estado de espírito. A insegurança com o mestrado, a dificuldade de realizar as tarefas de sua pesquisa e a falta de disposição nas tarefas do dia a dia eram sintetizados nessas duas palavras.

Em meados de 2019, esses dois adjetivos foram trocados por um diagnóstico: depressão. "Fui pesquisar sobre o tema e, lendo relatos na internet, percebi que algumas características que eu tinha estavam associadas à depressão", conta Juliana.

Ela diz estar aprendendo a lidar com o transtorno, nos últimos meses. Aceitá-lo e contá-lo para amigos e familiares não foi fácil, mas a noção de que agora está se tratando e que vai ficar tudo bem já tem feito uma grande diferença, diz a consultora.

Parte da aceitação do transtorno e do seu tratamento incluiu divulgar, nas redes sociais, um texto sobre o que está vivendo. "Digo isso porque o 'setembro amarelo' é o mês em que vejo muitos textos e dicas, todas bem intencionadas. O mais importante para mim foi ter visto amigos próximos falando abertamente sobre o assunto", escreveu. A consultora decidiu compartilhar essa história também com Universa.

Um baque e os primeiros sinais

"Em 2017, eu cursava o mestrado em Ciência Política, achando difícil estar ali: a pressão para que você produza e a demanda intelectual são muito grandes. Sentia com frequência a ideia de que era uma impostora e não devia estar ali. Por isso, acabei apenas acatando todas as sugestões que recebia da minha orientadora para minha pesquisa e não defendia nem externalizava minhas ideias, opiniões e desejos. Por volta da metade do mestrado, é necessário fazer a qualificação, um momento em que você apresenta o trabalho que fez até ali a avaliadores. Tomei um caldo: a banca de avaliação criticou muito os resultados que apresentei.

A partir desse momento, senti um impacto gigantesco no meu humor e na minha motivação. Em muitos momentos, arranjava pretexto para não realizar as tarefas do mestrado: passava o dia fazendo qualquer outra coisa, até dando voltas pelo shopping, sem intenção de comprar nada. Deixei de aparecer na USP [Universidade de São Paulo] por um semestre inteiro - antes, eu ia para lá quase todos os dias. Pegava os textos para ler e não conseguia, era como se não prestasse atenção e não conseguisse terminar. Eu sabia que havia algo estranho acontecendo.

Procurei uma psicóloga, retornei à terapia (já tinha feito alguns anos antes). Passei nas consultas por alguns meses e, na virada entre um ano e outro, o gás que normalmente surge na virada de ciclos me fez conseguir juntar forças para concluir o mestrado, mesmo já sabendo que não estava feliz e que não pretendia seguir a vida acadêmica depois de terminá-lo. Com a sensação de que havia melhorado, deixei de lado as sessões com a psicóloga.

Alívio e angústia

Ao entregar a dissertação, pensei que me livraria desse peso. Mas logo novas aflições começaram a surgir: a necessidade de reorientar minha carreira, pois tinha desistido de seguir no meio acadêmico, a ansiedade de lidar com um trabalho novo e várias questões pessoais e de relacionamento passaram a me trazer novamente uma sensação de desesperança generalizada.

Novamente me vi sem energia até para fazer coisas que me traziam alegria. Executava apenas as tarefas que já estavam no modo automático e sentia que estava sempre fazendo menos do que o mínimo. Parei de conhecer pessoas novas e ter novos relacionamentos, e nem sentia falta. Brincava que estava "assexuada". Arranjava pretextos para não sair com os amigos e passava fins de semana inteiros em casa, fazendo absolutamente nada.

Aos poucos, fui me dando conta de que precisava buscar novamente por apoio. No começo de 2019, marquei meu retorno à terapia e consulta com um psiquiatra para lidar com essa desmotivação e essa falta de energia. Comecei a tomar um remédio para ansiedade.

Diagnóstico, tratamento e aceitação

Fui compreendendo melhor o que os sintomas que eu tinha significavam. Por causa do remédio para ansiedade, comecei a pesquisar mais sobre o tema na internet. Topei com alguns relatos de pessoas diagnosticadas com depressão e me impressionei ao lê-los: a falta de disposição, a dificuldade para levantar da cama, tudo o que eu achava que era desmotivação e preguiça eram, para essas pessoas, sinais do transtorno. Discuti sobre o tema com a psicóloga e procurei novamente o psiquiatra. Juntos, concordamos que esse novo diagnóstico fazia sentido e iniciei o tratamento com remédios para ele.

Foi difícil aceitar que estava deprimida. Tive a sensação de que eu havia negligenciado minha própria saúde ao desistir da terapia alguns anos antes. Me perguntei, na terapia, como eu tinha deixado as coisas ficarem tão ruins. Minha psicóloga me ajudou a entender que é assim que as coisas são, que todos nós buscamos ajuda justamente quando estamos mais aflitos.

Aos poucos, fui me abrindo com meus amigos e também ouvindo relatos de pessoas próximas que enfrentavam coisas parecidas. Estou em tratamento e sinto que só a de reconhecer que estou me cuidando me ajuda a me sentir melhor.

No meu processo de descoberta da depressão, eu entendi que quem tem esse transtorno nem sempre sabe e, mesmo os que desconfiam nem sempre buscam tratamento. Eu demorei muito tempo para procurar ajuda por vergonha e falta de entendimento. Ter depressão significava assumir uma derrota e reconhecer que eu tinha falhado comigo mesma. Depressão não pode ser um tabu. Não é uma vergonha, não é um fracasso, não é uma derrota. Pessoalmente, ainda estou fazendo as pazes com o diagnóstico. De resto, seguimos nossa luta diária em que cada pequena vitória conta."