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Por que mulheres sofrem mais de ansiedade?

Estudo afirma que mulheres sofrem duas vezes mais com ansiedade do que homens - Getty Images/iStockphoto
Estudo afirma que mulheres sofrem duas vezes mais com ansiedade do que homens Imagem: Getty Images/iStockphoto

Jacqueline Elise

Da Universa

20/07/2019 04h00

"Odeio comer perto de pessoas, porque minha família sempre me pressionou para me alimentar melhor e fez muita piada por eu ser pequena e magra. Comida me deixa ansiosa, em geral. Minha mãe também vive fazendo escândalo para me deixar sair de casa em qualquer situação; pra ela, tudo é perigoso. Isso me faz ficar olhando pra trás o tempo todo, e sempre acho que estou sendo seguida". O relato é da estudante Júlia*, 20, que foi diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada aos 16.

Ela afirma que as crises pioram durante a TPM. Seus sintomas são de irritação, aperto no peito, crises de choro, pensamento acelerado e falta de ar, como se ela fosse morrer a qualquer momento. Júlia não está sozinha: segundo a Associação Americana de Ansiedade e Depressão, mulheres são duas vezes mais propensas a desenvolver transtornos de ansiedade do que os homens e, apesar dos hormônios terem um papel importante nisso, questões sociais acentuam o problema.

O que os hormônios femininos fazem?

Lívia Beraldo de Lima Basseres, psiquiatra pela Universidade de São Paulo, afirma que o sistema nervoso central processa as emoções de forma diferente.

"Os hormônios femininos estão relacionados tanto com a ansiedade quanto com a depressão. O estrogênio [hormônio responsável pelo desenvolvimento de características femininas], por exemplo, atua no sistema nervoso central. E, durante a TPM, há uma circulação maior desses hormônios, o que acaba sendo um gatilho para os transtornos", explica a médica. "Além disso, mulheres são mais sensíveis aos baixos níveis de hormônios que organizam a resposta do cérebro ao estresse", completa.

"A testosterona, hormônio que os homens têm em quantidades superiores em relação às mulheres, é um importante controlador da ansiedade", diz Marcus Yu Bin Pai, fisiatra e médico pesquisador do Grupo de Dor do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Fatores sociais também interferem

Lívia afirma que outra causa para uma incidência maior de ansiedade em mulheres "é o machismo".

"Gatilhos para a ansiedade são muito pessoais. Mas as diversas funções e carga extra que a mulher desempenha são fatores a se considerar. Elas continuam ganhando menos, acumulam papéis, são muito cobradas para dar conta deles e ser excepcional em todas as esferas de sua vida: boa mãe, filha, trabalhadora e esposa.

É o que aconteceu com a advogada Núbia*, 30. Casada e com um filho de dois anos, ela passou a ter crises de ansiedade por, em suas palavras, "se cobrar demais". "Eu fico o tempo todo na paranoia que vou ser demitida, que meu marido vai me achar 'relaxada' por não dar atenção a ele e que sou uma mãe relapsa. A vida toda me cobrei para ser excelente em tudo, porque minha família fazia isso comigo. Se eu não fosse perfeita, era tratada com desprezo".

E a fama de "histéricas", ainda, acompanha mulheres que sofrem do transtorno, segundo os especialistas. "A gente ainda vive em um mundo que diminui o sofrimento da mulher. Qualquer reclamação e ela é tachada de exagerada. Isso deslegitima o sofrimento", diz Lívia.

Tratamento

De acordo com o médico, as mulheres, além de sofrerem mais desses transtornos são também quem mais procura por tratamento para melhorar. "Homens não costumam consultar médicos muito facilmente e têm mais o costume da automedicação."

O tratamento para essas questões costuma ser a associação de remédios, prescritos por um psiquiatra, e consultas psicológicas.

Fatores fisiológicos, psicológicos e sociais, segundo Bin Pai, devem ser considerados na hora do tratamento porque o cruzamento deles é que forma o diagnóstico e a evolução ou não das doenças. "É preciso considerar os efeitos adversos dos remédios e a forma de abordar os gatilhos da ansiedade com o psicólogo do paciente", diz ele.

"Algumas medicações aumentam o apetite, então é importante saber a relação da mulher com o peso dela. Também pode ter alterações de libido, e, por isso, é precisa acompanhar as possíveis alterações da paciente", diz Lívia.

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