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Violência contra a mulher


Correr ajuda mulheres a interromper o ciclo de violência, diz promotora

Mulheres participam de corrida - Getty Images
Mulheres participam de corrida Imagem: Getty Images

De Universa

20/08/2019 04h00

Incentivar mulheres que sofrem violência a saírem da situação em que se encontram praticando esporte e, ao mesmo tempo, dar visibilidade à causa dessas mulheres são os objetivos da Corrida Movimento pela Mulher. O evento chega à terceira edição no próximo domingo (25/8), na região do parque Ibirapuera, em São Paulo.

Os participantes (pessoas de todos os gêneros são bem-vindas) podem optar por percursos de 5 km ou 10 km, ou ainda pela caminhada recreativa de 5 km. As inscrições custam R$ 85 e devem ser feitas até o dia 21/8. Parte da renda é revertida para ONGs dedicadas à causa das mulheres.

Idealizadora da corrida, a promotora de Justiça Gabriela Manssur, referência na defesa de mulheres vítimas de violência, dona do blog Justiça de Saia e maratonista, aplica sua teoria na prática. "A corrida me ajuda a superar a violência que indiretamente acaba me atingindo. Porque, ao lidar com a violência contra a mulher todos os dias, você acaba sofrendo essa violência também."

Universa - Como a corrida está relacionada à causa da luta contra a violência contra a mulher?

Gabriela Manssur - Quando a mulher descobre a corrida, o esporte, a dança, isso dá muita força para ela superar e interromper o ciclo de violência. A gente fala: 'Denuncia'. Mas e aí? Como a mulher vai ficar firme? Ela enfrenta uma batalha no atendimento, na falta de orientação psicológica e jurídica, se sente culpada. Quando a mulher sofre violência, ela adoece física e emocionalmente. O esporte vem para trazer uma força maior para a mulher. Além disso, na corrida, ela faz amizades, encontra um ambiente social de acolhimento, um grupo que a incentiva a treinar, a participar de corridas.

Pode citar alguma mulher que se beneficiou diretamente da corrida?

A Neide Santos, que comanda o projeto Vida Corrida, sofreu violência, passou por situações difíceis e desenvolveu a corrida, dentro da comunidade do Capão Redondo, um dos bairros mais violentos de São Paulo, como uma forma de tirar as mulheres da violência, empoderar essas mulheres, tirar as crianças das drogas... Conseguiu, com a corrida, modificar a realidade do entorno dela. Ela diz uma coisa muito interessante: as mulheres começam a correr, e aí querem estudar, trabalhar, sair dos relacionamentos abusivos. Correr empodera, mostra que ela pode mais do que achava que podia.

Qual o papel da corrida na sua rotina?

Eu corro há mais de 20 anos, e a corrida foi sempre uma forma de fortalecimento para mim. Transfiro o que aprendo no esporte --a superar obstáculos, ultrapassar limites, ter força de vontade-- para a minha vida profissional. A corrida me ajuda a superar essa violência que indiretamente acaba me atingindo. Porque, ao lidar com a violência contra a mulher todos os dias, você acaba sofrendo essa violência também.

Homens também são bem-vindos?

Sim, essa não é uma corrida para mulheres, mas para a causa delas. A questão da violência contra a mulher não é uma questão feminina, mas uma em que elas são vítimas. É um problema dos homens também. Até porque quem agride é homem. Então, eles têm que estar conscientes, apoiar, ouvir, ver, participar, mudar comportamentos, mostrar que apoiam as mulheres que lutam contra a violência e que são contra os homens que praticam violência contra a mulher.

As mulheres também podem, eventualmente, passar por uma situação de assédio ou violência enquanto praticam corrida. O que você aconselha nesse caso?

Muitas mulheres que correm falam sobre essa questão. Mas não faço nenhuma recomendação porque, a partir do momento que você recomenda que não se corra à noite, você está naturalizando a violência. O lugar da mulher é onde ela quiser. Se você enfrentou um problema, denuncie. Todo mundo sabe que, no país que a gente vive, é preciso tomar cuidados. Mas é a mesma cautela que a gente toma no dia a dia. Sempre digo que não é a gente que tem que mudar, mas são os homens que devem mudar o jeito deles se comportarem em relação à liberdade da mulher.

Corrida Movimento pela Mulher
Quem pode participar: atletas de elite ou amadores
Quando: 25 de agosto, a partir das 6h40
Onde: região do parque Ibirapuera, em São Paulo (SP)
Inscrições: R$ 85, podem ser feitas pelo site Ticket Agora até 21/8