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Ela ganha a vida como terapeuta de abraço: "Já passei 5 horas abraçando"

Amanda e Natalie: num ônibus, abraçando pessoas - Arquivo Pessoal
Amanda e Natalie: num ônibus, abraçando pessoas Imagem: Arquivo Pessoal

Felippe Canale

Colaboração para Universa

08/08/2019 04h00

Esta não é mais uma história convencional de "Como larguei tudo e fui morar do outro lado do mundo", apesar da Amanda Sanches, 32 anos, ter feito exatamente isso quando se mudou sozinha do Brasil para a Austrália, há cinco anos.

Nascida na zona leste da cidade de São Paulo, após ter trabalhado durante oito anos numa mesma empresa de T.I. (Tecnologia da Informação), ela resolveu pedir demissão e colocar em prática um plano para dar um novo rumo na sua vida. "Eu nunca quis acordar, trabalhar em algo que não acredito, pagar as contas, voltar a dormir, acordar e passar o resto da minha vida nesta repetição maluca que nos faz parecermos mais máquinas do que seres humanos. Eu precisava me sentir viva de verdade, influenciando de maneira positiva a mim mesma e também as pessoas ao meu redor".

Lá, descobriu uma nova profissão, a de terapeuta do abraço, que basicamente consiste em oferecer abraços, carinho e atenção para os seus pacientes enquanto eles apenas relaxam ou contam sobre as suas vidas. Após fazer um curso de especialização oferecido no país, há quase dois anos o dia a dia da Amanda tem sido oferecer abraços e ouvidos para os seus pacientes. Cada sessão de 45 minutos custa 80 dólares e os clientes, geralmente, estão em busca de afeto e contato humano.

Atualmente a Amanda mora em Sydney junto com Natalie, 29 anos, sua namorada australiana que trabalha como babá e artista de resina. O casal se conheceu há três anos em um aplicativo de relacionamento. Dias depois, resolveram viajar juntas em uma van que cruzaria o país. O período desta aventura durou dois meses e serviu como um test-drive para o relacionamento. Na volta da viagem, decidiram morar juntas.

Amanda e Natalie, no ônibus em que vão morar: elas vão circular pela Austrália - Arquivo Pessoal
Amanda e Natalie, no ônibus em que vão morar: elas vão circular pela Austrália
Imagem: Arquivo Pessoal

Hoje, perceberam que não precisam mais de uma casa fixa. Compraram um ônibus e estão reformando o veículo para torná-lo sua nova casa sobre rodas. A intenção é fugir do aluguel e viver de maneira minimalista, sem o acúmulo de bens materiais. Veja a história da brasileira que mudou de vida:

Mudança de Vida

"Eu estava cansada da vida que eu levava no Brasil. Sim, eu podia dizer que era feliz, tinha um carro, emprego com carteira assinada há 8 anos na mesma empresa, mas mesmo assim me faltava alguma coisa. Aí um dia eu acordei e acabei pedindo demissão, troquei o que todos me diziam ser o certo, pelo duvidoso. O tal do 'larguei tudo e fui recomeçar minha vida do outro lado do mundo', literalmente, na Austrália. Se a gente ficar pensando muito, acabamos não tomando nenhuma decisão. É claro que tudo terá consequências, sejam negativas ou positivas, mas se ficarmos parados, nunca saberemos o que poderia ter acontecido.

Se você quer mudar de vida, a primeira coisa a fazer é tomar uma atitude para colocar em prática o que está se passando dentro da sua cabeça.

Eu sempre gostei muito de afeto e quando me mudei para cá, sem a presença da minha família e de amigos, sentia falta dessa conexão. Descobri a profissão de Terapeuta do Abraço, um trabalho que vem crescendo nos Estados Unidos e também aqui na Austrália. Pensei: 'quero ser paga para receber e oferecer carinho!'. Se você parar para pensar, esta é uma das profissões do futuro, pois todo mundo está se sentindo sozinho. Estamos cada vez mais conectados com o celular, com a tecnologia, mas estamos perdendo a habilidade de nos conectarmos com outros seres humanos. Foi aí que eu fiz um curso, peguei o meu diploma de Terapeuta do Abraço e há quase dois anos sou licenciada para exercer esta profissão em todo o território australiano.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Chuto que 99% dos meus clientes são homens morando aqui em Sydney devido ao trabalho ou estudos, em sua maioria indianos ou do Paquistão. São homens sozinhos, que não têm família ou amigos por aqui, possuem pouco contato social, e acabam se sentindo extremamente solitários ou depressivos. Muitos me contam terem o mesmo foco de vida: trabalhar, juntar dinheiro e ajudar financeiramente as suas famílias. Um cliente começou a chorar no meio da sessão e me confidenciou que há cinco anos não encostava em alguém.

Eu ganho 80 dólares por sessão de 45 minutos e a maioria dos meus clientes me contrata por duas ou três sessões de uma só vez. Já cheguei a abraçar por 5 horas seguidas num único dia. E agora estou indo morar num ônibus: a ideia é percorrer o país como uma terapeuta nômade do abraço. No meu canal no YouTube, ensino a importância do afeto.

Transformando um ônibus na nossa nova casa

Quando conheci Natalie, ela estava prestes a viajar sozinha de carro cruzando dois estados da Austrália, de Sydney até Kangaroo Island, morando em uma van que ela mesma adaptou para ser a sua casa. Viajamos por dois meses em uma mini van e na volta eu a convidei para morar comigo.

A gente vê nossos amigos acumulando dívidas eternas para comprar uma casa e não é isso o que planejamos para nossa vida.

A nossa casinha dentro do ônibus vai ter cozinha, fogão com forno, pia pra lavar louca, geladeira, microondas, quarto com cama de casal, chuveiro com água quente e privada composta, que é tipo essas caixinhas de gato com areia para fazermos as nossas necessidades fisiológicas. Tudo feito por nós. Para cuidarmos da limpeza das roupas e lençóis teremos que ir em uma lavanderia regional e lavar e secar lá mesmo, ou então poderemos instalar uma máquina lava-e-seca no futuro.

Vida nas estradas

É claro que nem tudo serão flores! Quando estivermos rodando pelo país, o nosso círculo social vai ficar reduzido, não teremos amigos pra conversar ou pessoas para interagirmos, então seremos apenas eu e ela nas estradas uma boa parte do tempo. Por outro lado, também iremos conhecer esporadicamente novas pessoas pelos nossos caminhos.

Acho que a experiência vai ser muito enriquecedora porque vamos perceber que para sermos felizes precisamos de muito pouco. Essa tem sido a nossa ideologia de vida, acumular mais experiências do que pertences físicos. Ser mais e ter menos".

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