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"Bolsonaro debocha da nossa ferida", diz jornalista torturada pela ditadura

Dilea Frate é jornalista e foi presa pela ditadura militar em 1975 - Arquivo Pessoal
Dilea Frate é jornalista e foi presa pela ditadura militar em 1975 Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

De Universa

06/08/2019 04h00Atualizada em 06/08/2019 12h34

"Não quero falar de tortura porque esse presidente vai dizer que é 'mimimi'. A gente tem que falar do que está acontecendo agora. Ele [o presidente Jair Bolsonaro] debocha da nossa cara, da nossa ferida". A conversa com a jornalista Dilea Frate, que tinha o intuito de relembrar a dor de ser torturada durante a ditadura militar (1964 -1985), mudou de rumo a pedido dela, que se diz indignada com as ações do atual governo. Contudo, no decorrer da prosa, não deu para fugir do assunto.

Aos 66 anos, com sete livros publicados, um histórico de peso no jornalismo brasileiro que envolve a TV Globo e o jornal O Estado de São Paulo, Dilea, hoje, trabalha com animação com foco no público infantil. Seu primeiro curta-metragem, inclusive, foi produzido por um edital da Ancine --que, ela garante, está sendo alvo de censura. Dilea não era militante, mas apoiava movimentos contrários à ditadura nos anos 1970. Ela foi presa enquanto a filha, de cinco meses, dormia no berço.

Leia a seguir o relato de Dilea sobre o período em que foi presa e torturada e por que ela acha que o país não conseguiu fechar essa ferida.

"Fui uma das últimas pessoas a serem ouvidas pelo Ministério Público e pela Comissão da Verdade, acredita? Prestei depoimento em setembro do ano passado, um mês antes das eleições. A pior coisa de tudo isso é que essa história não acabou, ela está muito viva. Saber que não posso seguir minha vida porque essas coisas não foram deixadas para trás é desesperador.

É mentira que a Comissão da Verdade conseguiu concluir seus trabalhos. Inclusive, essas novas nomeações feitas pelo Bolsonaro são péssimas. São pessoas desqualificadas em todos os sentidos para ocupar cargos públicos, ainda mais um cargo como esse. Tudo o que ele faz e diz está virando um deboche. Ele debocha da nossa cara, da nossa ferida. Eu fui presa e torturada com uma filha de cinco meses para criar, após ser demitida de uma empresa em que eu trabalhava com carteira assinada.

Nunca fui militante, como a Dilma foi, por exemplo. Eu era uma simpatizante dos movimentos contrários à ditadura. E o mais engraçado é que eu nunca imaginei que pudesse ser presa. No dia em que isso aconteceu, cheguei em casa da USP [Universidade de São Paulo], onde eu estudava jornalismo, e vi aquela Veraneio parada do outro lado da rua. Eu morava com meu então marido, Paulo Markun, que também era jornalista.

Quando vi o carro da polícia, achei que ele seria levado para ser interrogado. Peguei um telefone de orelhão e liguei para a minha cunhada. Disse que eu achava que algo iria acontecer e pedi que ela fosse até minha casa para ficar comigo. Foi só entrar em casa que os policiais me jogaram no carro, junto do Markun. No quarto, minha filha de cinco meses dormia no berço. Por sorte, eles não a encontraram. Eu não disse nada, não disse que tinha um bebê, por medo do que poderia acontecer com ela. Agora, imagina se eu não tivesse avisado à minha cunhada?

A tortura é horrível, claro. Fiquei presa por uma semana e minha cabeça se esqueceu de muitas coisas que aconteceram -acho que como um conforto. Mas, de uma coisa eu me lembro muito bem: no dia 17 de outubro, eu estava levando choques e apanhando no Dops [Departamento de Ordem Política e Social, um dos centros de repressão do regime] quando, num impulso de raiva, tirei o capuz --o que era sentença de morte na época--, encarei o torturador, um homem de 60 e tantos anos, e falei: 'O senhor não tem mãe, não tem filha, nem religião? Eu vou batizar minha filha daqui a dois dias. Você é desumano'.

Dois dias depois, estava na cela com mais 14 pessoas e, de repente, um policial jogou a roupa com a qual eu tinha sido presa em cima de mim. Pediu que eu me trocasse. Quando ordenou que eu e meu marido entrássemos no carro, fiquei apavorada. Achei que seríamos mortos. Adivinha para onde eles nos levaram? Para o batizado da minha filha que, inclusive, aconteceu no dia do meu aniversário.

Óbvio que a ideia era ver se o evento realmente aconteceria ou se eu estava blefando. Eu nem acreditei que pude batizá-la. Depois, meu pai sugeriu que todos fôssemos almoçar na casa dele para celebrar meu aniversário. Os policiais comeram a lasanha da minha mãe e encheram a cara do melhor uísque que meu pai tinha em casa. No fim do dia, eles nos levaram de volta para o Dops --mas, antes, passamos num posto de gasolina e compramos dezenas de maços de cigarro.

Tive sorte que minha mãe não quis cancelar o batizado. Se ela o tivesse feito, talvez eles nos tivessem matado. Minha tia conta que quando ela disse à minha mãe que eu havia sido presa, ela estava batendo o bolo do meu aniversário. Minha tia ficou brava porque ela não quis parar de bater o bolo e dar a devida atenção à notícia. Mas a resposta dela foi: 'Minha filha vai estar aqui. Se eu parar de bater o bolo, ele vai ficar ruim e ela não vai comer'. Doido, né?

E aí, eu chego em 2019 tendo que ouvir do presidente uma barbaridade sobre o pai do presidente da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]. O Bolsonaro tinha de ser processado em todas as instâncias possíveis pelo que disse. O Felipe [Santa Cruz] está sendo bonzinho em dizer que o desculparia se o presidente se redimisse [Felipe disse, em entrevista ao Fantástico, que perdoaria Bolsonaro por ter dito que sabe o que aconteceu com seu pai, morto pela ditadura]. Eu não aceitaria essas desculpas de jeito nenhum. Eu não quero desculpas, eu quero respostas.

Mas, sabe, garota, isso é uma cortina de fumaça para o estrago que o Bolsonaro está fazendo no Brasil. Todas essas vendas que ele está fazendo. Onde já se viu vender a Embraer e a BR Distribuidora? Nossos patrimônios, conquistados com o dinheiro da gente, estão sendo queimados. Isso, sim, é grave demais.

A gente está vendo a Ancine sendo censurada. É uma censura clara e absurda. Foi graças à Ancine que eu produzi meu primeiro curta-metragem e, sem ela, não teria acontecido. Fazer cinema era coisa de gente rica, não assalariada. Imagina, o curso de cinema era em período integral. Como trabalha? Não dá.

Meu sonho era fazer cinema. Mas, como não era possível, migrei para o jornalismo. Fui estagiária em O Estado de S. Paulo, mas demitida quando me formei porque meu marido era repórter lá. Mandaram a gente decidir quem ficaria com a vaga. Diziam que casal não era permitido dentro do jornal, olha só. Óbvio que abdiquei, né? Daí decidi que migraria para a vida acadêmica, conheci o Vlado [Vladimir Herzog, morto pela ditadura em outubro de 1975]. Só que fui expulsa da USP (Universidade de São Paulo) quando presa.

Depois, voltei para o Estadão, fui para a Globo e migrei com o Jô [Soares] para o SBT. Eu que idealizei todo o talk show dele, o "Onze e Meia". No primeiro programa, eu olhei para ele e disse: 'Danou-se. Vai ser um sucesso '. E foi. Agora, trabalho com animações, já escrevi sete livros voltados ao público infantil. Inclusive, dia 16 de agosto faz 31 anos do "Onze e Meia". Pronto, mais um ganho para a sua matéria."

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