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Por que a mulher é a tirana nos relacionamentos e o cara, o "pau mandado"?

Os rótulos que colocam nas mulheres nem sempre fazem sentido - iStock
Os rótulos que colocam nas mulheres nem sempre fazem sentido Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

05/08/2019 04h00

Se você não passa por isso, certamente deve conhecer pessoas nessa situação: nos casais em que a mulher tem personalidade forte e é direta e objetiva com o par, principalmente em relação às tarefas domésticas e aos cuidados com os filhos, volta e meia o cara é ridicularizado por amigos ou familiares e chamado de "pau mandado". E à mulher, claro, são destinados os papéis de mandona, megera, cobra, bruxa, enfim, de vilã da história.

Segundo a psicóloga Mara Lúcia Madureira, especializada em terapia cognitivo-comportamental, de São José do Rio Preto (SP), é comum a existência de uma figura dominante na maior parte das relações. Em princípio, essa liderança relacional transcorre de maneira natural e sem grandes ruídos à convivência. São aqueles casos, por exemplo, em que um tem mais atitude do que o outro para resolver as minúcias do dia a dia, decidir o que vão fazer no fim de semana ou organizar as contas da casa.

"Até bem pouco tempo atrás, a cultura machista exigia que o homem assumisse essa função. Porém, as transformações sociais e das formas de trabalho alteraram o modelo patriarcal estabelecido e mantido por longa data. E essas mudanças, ainda hoje, causam estranheza para muitos conservadores, que não se conformam como fato de a mulher assumir esse tipo de comando.

Aqueles que resistem às evoluções tentam ridicularizar o homem e hostilizar sua parceira, num esforço inútil para preservar o antigo padrão".

Trata-se de um caminho que, mesmo ainda não seguido por muitos, não tem volta. E, conforme Mara, a percepção de que as coisas não serão mais como foram no passado aumenta a insegurança de homens desadaptados que não sabem dividir o comando e lutam para manter o domínio da relação como forma de prestígio. "É um ponto de vista comum também entre as mulheres desprovidas de liderança e apegadas ao modelo ultrapassado da figura masculina como guia de suas existências. A ridicularização é a forma de protesto contra as novas estruturas relacionais, uma tentativa de prorrogar o já conhecido", diz a especialista.

O macho tradicional

Não são poucos os homens que ainda se preocupam muito com sua imagem de "macho" perante o círculo social. "Eles não gostam de admitir que amam uma mulher, que preferem estar ao lado dela em muitas situações antes compartilhadas com os amigos e que uma relação séria produz mudanças no comportamento", comenta Rejane Sbrissa, psicóloga clínica de São Paulo (SP). Daí, quando veem algum colega feliz com a namorada ou a esposa, projetam seus medos e anseios nesse relacionamento, detonando-o ou ridicularizando-o.

Na opinião de Rejane, o homem que divide tarefas de igual para igual, que respeita o papel da mulher na sociedade e no mercado de trabalho, que faz questão de exercer a paternidade e sabe que criar e educar uma criança não são atribuições exclusivamente femininas, não tem nada de "pau mandado". "Não se trata de submissão", diz.

De acordo com Joselene L. Alvim, psicóloga clínica de Presidente Prudente (SP) e especialista em Neuropsicologia pelo setor de Neurologia do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), com as mudanças do papel feminino e sua inserção em todos os contextos, e não apenas na esfera doméstica como antes, a mulher passou a reivindicar seus direitos e desejos, ou seja, passou a se colocar.

Isso é traduzido, para muitos, como autoritarismo e ainda assusta alguns homens que têm em mente a ideia da mulher submissa".

"Assim, ver um amigo que atende aquilo que a parceira solicita é visto por tais pessoas como submissão, ou seja, uma inversão de papéis, mesmo que ultrapassados, e não como igualdade de direitos", explica, destacando que a divisão de papéis não significa submissão, apesar de machistas verem dessa forma. "A submissão em si é algo patológico, pois implica em reprimir os desejos, tornando a relação dependente do outro", completa.

O cara é o menos incomodado

Mara observa que o cara que se relaciona com uma figura feminina dominante, em geral, é o menos incomodado na história. "Ele está com ela porque assim deseja. Muitos até preferem uma mulher que tome as rédeas da situação a ser ele o responsável por tomar decisões. E devemos ter em mente que os espectadores são elementos externos, observadores, não são protagonistas do convívio", afirma. Essas pessoas não compreendem que a vida alheia não precisa ou não aceita suas opiniões. "Se o par funciona bem, não importa o que os outros pensam ou falam sobre a dinâmica do casal. Os incomodados que se estabeleçam com pares dispostos a formar um modelo predominantemente machista", completa a psicóloga.

Para Joselene, se entre o casal a divisão de tarefas não é vista como submissão, não há razão para se importar com a reação das pessoas em volta. "Porém, compreender o quanto o papel social da mulher como submissa e objeto ainda está impregnado na mente de muitas pessoas, auxilia-os a entender os outros", diz.

Questionar comentários jocosos e piadinhas é uma forma de levar à reflexão, conforme a psicóloga clínica Raquel Mello, do Rio de Janeiro (RJ). "Pergunte: será que ser 'pau mandado' é respeitar quem está ao seu lado, é partilhar objetivos, dar um exemplo de igualdade e respeito para os filhos?", pergunta.

Casais nessa situação podem e devem levar os demais a refletir sobre as relações, de modo geral, e não simplesmente permitir que coloquem preconceitos em relação à sua vida".

É válido lembrar que exercer o papel dominante na relação não significa ultrapassar os limites do respeito. Falar firme e assumir a liderança relacional são coisas distintas de tratamento abusivo. "As mulheres precisam atentar-se para não se reproduzir o modelo inverso daquilo que sempre abominaram nas relações machistas e não se transformarem, de fato, em uma tirana tosca com seu parceiro", pontua Mara.