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Violência contra a mulher

Ela teve 40% do corpo queimado pelo ex e perdeu a perna: "Não desistirei"

Marciane ficou entre a vida e a morte depois de o ex-marido ter ateado fogo no corpo dela - Arquivo Pessoal
Marciane ficou entre a vida e a morte depois de o ex-marido ter ateado fogo no corpo dela Imagem: Arquivo Pessoal

Carolina Prado e Simone Cunha  

Colaboração para Universa

12/03/2019 04h00

A diarista Marciane Pereira dos Santos, 37 anos, ficou entre a vida e a morte depois que, em setembro do ano passado, o ex-marido jogou solvente, diesel e ateou fogo no corpo dela, por não aceitar a separação. O crime provocou na vítima queimaduras de 2º e 3º graus nas regiões da face, do pescoço, do tronco e dos membros. Ela perdeu uma perna.

Após uma internação de cinco meses, ela passou por 18 procedimentos cirúrgicos e, hoje, conta com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, mas já teve alta. Apesar de tudo o que passou, ela está cheia de esperança em sua recuperação e não vê a hora de retomar a vida e o trabalho. 

"Sempre fui muito alegre, o mundo podia estar desabando que eu continuava com um sorriso no rosto. Por isso, tudo o que aconteceu comigo não vai me derrubar. Fiquei triste e com medo, mas tenho expectativa de melhorar e até voltar a andar. Quero muito conseguir uma prótese mecânica para sair com os meus filhos [de 6 e 2 anos] e continuar a minha vida. Tenho muita esperança e quero que haja justiça, pois ele [André Luiz dos Santos, o ex-marido] agiu com covardia. A mágoa estou tentando não ter, pois isso vai me fazer muito mal. Minha família e meus amigos têm mais raiva dele do que eu. Na verdade, gostaria apenas de perguntar para ele por que fez isso comigo, me deixando nessa situação. Mas também agradeço a Deus por continuar com vida. 

Foi uma violência muito rápida e ele não pensou nas consequências. Foi preso, mas eu estou aqui sem conseguir me mexer e totalmente dependente da minha irmã: para ir ao banheiro, tomar banho, comer etc. Se não fosse ela, não sei o que seria da minha vida. 

Quando eu o conheci, ele era dócil. Foi ficando estúpido nas palavras, mas nunca me bateu. Vivemos juntos por oito anos, só que chegou um ponto em que eu não estava mais feliz e quis me separar. Ele não aceitou.

No dia em que tudo aconteceu, quando cheguei em casa com as crianças, ele estava conversando com um amigo e veio atrás de mim para me incomodar. Brigou, xingou, jogou comida no chão e puxou a faca. Para evitar mais confusão, fui à casa da vizinha. Quando voltei, fui surpreendida com o ataque; foi tudo muito rápido e nem consigo lembrar da cena. Só sei que fui socorrida, internada e fiquei em coma induzido. Foram cinco meses no hospital, longe dos meus filhos. 

Quando recuperei a consciência, recebi a notícia de que haviam amputado a minha perna esquerda. Mas quando me vi no espelho pela primeira vez, depois de tudo, fiquei assustada com a realidade do meu rosto, que ficou totalmente desfigurado: os olhos, o nariz e a boca. Também os seios e os braços foram atingidos. Me deu medo, mas tive que encarar, porque não havia outra opção. Muitos no hospital ficaram surpresos com a minha recuperação e a forma como reagi. Mas o atendimento que recebi no hospital e o apoio da família foram muito importantes para a minha recuperação.  

No hospital, um dos momentos mais difíceis foi receber a visita da minha filha, depois de quatro meses longe. Foi muita emoção, não conseguia parar de chorar. Ela não queria se aproximar porque eu estava diferente, desfigurada, mas ela sabia o que havia acontecido, pois presenciou tudo. Naquele momento, queria abraçar minha filha, mas estava com os braços enfaixados. Aliás, queria muito abraçar meus filhos agora mas, com os braços queimados e atrofiados, não consigo. Isso me deixa muito triste.  

Tenho recebido ajuda de algumas pessoas, pois não é fácil para minha irmã manter tudo sozinha. Preciso de muitos cuidados para me recuperar e sei que deve demorar. Mas não vou desistir".  

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