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Estudante carioca denuncia estupro dentro de empresa de formaturas no Rio

Nina relata estupro por funcionário de empresa - Arquivo pessoal
Nina relata estupro por funcionário de empresa Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

11/03/2019 09h28

A adolescente Nina*, de 17 anos, escolheu o Dia Internacional da Mulher, na última sexta-feira (8), para relatar um estupro que sofrera há nove meses. "É um dia importante para fazer isso", justificou, por mensagem divulgada nas redes. Por ser menor de idade, a Universa não revelará sua identidade.

O crime, conta ela em quatro posts, aconteceu em 26 de maio de 2018, durante uma reunião que uma empresa de formaturas e festas preparou para sua turma, do CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica), no Rio de Janeiro. O encontro aconteceu na sede dessa empresa, a Aloha Formandos, no Centro da cidade.

Nina fala que havia bebida alcoólica no ambiente, apesar de a maioria dos cerca de 20 alunos presentes ser menor de idade. Ela tinha 16. Por esse motivo, escreve, todos tiveram que entregar seus celulares na entrada do evento para que não houvesse registros do encontro. Oferecer bebida alcoólica para menores é crime.

Em seu relato, Nina afirma não se recordar da quantidade de bebida que ingeriu, mas lembra que um dos funcionários da empresa a levou até uma sala, onde ocorreu o estupro, por cerca de 10 minutos. Por telefone, e ao lado de seu pai, ela reafirmou o crime à Universa.

Nina* print 1 - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

Nina* print 2 - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Trechos do post que a estudante Nina publicou nas redes sociais sobre o ocorrido
Imagem: Reprodução/Facebook

"Tirou minha roupa e me apoiou numa mesa onde penetrou, sem preservativo, seu pênis em minha vagina, enquanto eu não tinha forças para ter noção do que estava realmente acontecendo e para reagir. Mais um homem que trabalhava lá entrou na sala perguntando se poderia participar e aí eu disse que queria sair dali. Eles negaram e falaram para eu não ficar com medo. Falei de novo e consegui sair. O ato machucou minha vagina, que sangrou mesmo eu não sendo mais virgem. Minhas pernas ficaram roxas e meu pescoço ficou dolorido, além de ter destruído minha mente e por pouco não destruiu minha vida", escreveu ela.

Colegas não acreditaram no início

A estudante conta que pensou em tirar a própria vida, mas resolveu falar tudo o que ocorreu para os pais assim que chegou em casa. A família então seguiu para a Delegacia da Mulher do Centro. A ocorrência foi registrada nos primeiros minutos do dia 27 de maio, dia seguinte à festa.

Seu pai, o publicitário Alexandre Ávila, conta que levou a filha para o IML (Instituto Médico Legal), onde foi feito o exame de corpo de delito, e para o hospital maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda, onde recebeu o coquetel anti-HIV.

Nina conta que tem depressão e ansiedade, e que esses quadros se agravaram após o ato e fizeram-na tomar mais de quatro remédios por dia. Passou semanas vomitando e perdeu aulas. Emagreceu 5 quilos. Sofreria ainda outra violência, relata ela: a comissão de formatura, presente no evento, não acreditou no crime:

"Chamavam de maluca mesmo eu dizendo que me senti violentada e não queria que nada daquilo tivesse acontecido. Me expulsaram da comissão porque, segundo eles, eu não tinha capacidade física e psicológica para arcar com as responsabilidades. Falavam que o estuprador estava sofrendo muito porque eu denunciei uma mentira. Posteriormente, toda a comissão viu seu erro e pediu perdão. Aceitei de coração e muitos me deram e dão apoio".

Acusado divulga vídeo

O nome do acusado não foi citado por Nina em seus posts, assim como o da empresa, mas vários internautas entregaram ambas as identidades. Algumas mensagens dão conta, inclusive, de que é comum a empresa oferecer bebida alcoólica em suas festas. A Aloha Formandos, no entanto, se pronunciou em suas redes.

Em uma conta no Instagram, o homem citado como autor do estupro também postou um vídeo se defendendo. Nas imagens, ele, que se identifica como Bruno, aparece beijando Nina. Ela está com o celular na mão e parece retribuir. Depois ela entra no elevador e ele segue por outro caminho. Na manhã desta segunda (11), os posts foram apagados.

O homem ainda publicou prints de mensagens trocadas entre os dois após o ato. Nelas, há uma conversa sobre a idade deles e o fato de terem transado sem camisinha. A estudante pergunta se deve tomar pílula do dia seguinte e o acusado responde que é para ela relaxar.

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Acusado posta mensagem trocada com Nina
Imagem: Reprodução/Instagram

Nesses prints, porém, não aparece o nome ou telefone dos envolvidos, apenas os textos. Mas, por mensagem de áudio, o pai da adolescente confirma a conversa.

"Ela trocou mensagem com ele, com vergonha. Ela fala que trocou, mas fica na dúvida das coisas. Por quê? Bebida. Quando passou o efeito, a ficha caiu toda. A minha filha não negou que bebeu", justificou o publicitário.

Nina também se justificou.

"Hoje eu sei que homem nenhum pode me tocar sem consentimento, nem se eu estiver nua. Hoje eu sei que a culpa não é minha. Eu estava bêbada. Que força eu tinha? Eu só queria curtir sozinha, não imaginava que no final da noite eu estaria dando parte de um estupro em uma delegacia", finaliza ela.

O outro lado

Bruno não atendeu ao pedido de entrevista feito pela reportagem, mas nega o crime numa mensagem postada em suas redes. Ele publicou um vídeo de câmeras de segurança e diz que as imagens comprovariam que Nina estava "contente e muito carinhosa com aquele que acusa de tê-la estuprado minutos antes da filmagem". Ele começa o texto dizendo que naquela noite "esteve com uma mulher", se referindo à adolescente que tinha 16 anos à época.

Acusado de estupro se defende nas redes sociais - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Acusado de estupro se defende nas redes sociais
Imagem: Reprodução/Instagram

"Além de beijos, abraços e afagos, a suposta vítima sorri para o espelho do elevador anotando meu contato, inclusive me enviando mensagens posteriormente", escreveu. "Julguem se alguém se equilibraria na ponta dos pés para beijar aquele que teria acabado de cometer uma violência contra si e se as mensagens trocadas realmente refletem o alegado", finaliza seu post. No vídeo, a adolescente aparecia cambaleante com o acusado. Entre a noite de domingo e a manhã desta segunda, o perfil em que se defendia foi deletado do Instagram.

A reportagem ligou para a Delegacia da Mulher, onde o caso foi registrado, mas o inspetor Luis Antônio da Costa Vaz Curvo, responsável pela investigação, informou que só poderia falar sobre o tema com as partes envolvidas. O CEFET e a empresa também foram procuradas e não retornaram até o fechamento desta edição.

Comissão de formatura do CEFET defende Nina - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Comissão de formatura do CEFET defende Nina
Imagem: Reprodução/Twitter

Em nota divulgada neste domingo, a comissão de formatura do CEFET pede desculpas à Nina pelo primeiro posicionamento, de não ter acreditado na estudante.

Os estudantes confirmam também o consumo de bebida alcoólica no local. Na nota divulgada, ainda acusam a empresa de oferecer festas e viagens gratuitas para que a comissão mantivesse o contrato com a empresa e realizasse sua formatura.