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Mayumi Sato

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Morei na rua, mas o poledance me salvou": conheça a história da Juliana

"Morei na rua, mas o poledance me salvou"_1 - Michael Nascimento/Divulgação
"Morei na rua, mas o poledance me salvou"_1 Imagem: Michael Nascimento/Divulgação
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Mayumi Sato Mayumi de Andrade e Silva Sato

Mayumi Sato é meio de exatas, meio de humanas. Pesquisadora e diretora de marketing do Sexlog quer ressignificar a relação das pessoas com o sexo e, para isso, acredita que é preciso colocar a mão na massa, o que inclui decodificar o comportamento humano. Ao longo dos anos, estudando e trabalhando com o mercado adulto, passou a fazer parte de uma rede de mulheres interessadas e ativistas no assunto, por isso sabe que não está "não estamos" só. Idealizadora do cínicas (www.cinicas.com.br) e feminista sex-positive.

Mayumi de Andrade e Silva Sato

Colunista do UOL

19/09/2021 04h00

Juliana Muniz é uma mulher com o semblante forte, fala firme e jeito doce. Carrega um ar de quem passou por muito e, no caminho, foi criando uma camada que ora é força, ora é lágrima. Sempre com um sorriso no rosto e obstinação persistente no olhar.

A história da Juliana é a história de muitas Julianas. Mulheres com as quais nos deparamos no dia a dia e não imaginamos o que tiveram que enfrentar. Mulheres que, como ela, conheceram o fundo do poço e só escaparam de lá graças a outras mulheres, no caso da Juliana, a filha - hoje com 16 anos - de quem ela fala com amor e gratidão.

Muito nova, Juliana sofreu episódios de abuso dentro de casa e não foi acolhida por quem deveria protegê-la. Adolescente, aos 16 anos, fugiu da violência e foi morar na rua.

"Cheguei a dormir só com um lençol no quintal de casas vazias e na calçada. Quando dava, dormia de favor na casa de conhecidos, me alimentava com o que sobrava dos outros, tomava banho na cachoeira. Eu não tinha nada. Entrei em depressão e me afundei nas drogas."

A sorte, ela diz, foi ter engravidado. A chegada da filha fez com que aceitasse voltar para a casa da mãe, pelo bem da criança. Mas a violência e os abusos voltaram a acontecer e ela teve uma grande recaída.

Sem estrutura familiar, emocional e educação formal, a alternativa foi trabalhar na noite, primeiro para sustentar o vício e, depois, para superá-lo e se reerguer. Conheceu mulheres que tiravam a roupa, faziam striptease e pole dance. E foi aí que tudo começou a mudar:

"A noite não é boa, ela é dura e sofrida. Mas, do buraco que eu já tinha estado, não dava pra descer mais, só dava pra subir. Foi trabalhando na noite que conheci mulheres incríveis, cheias de história e que trabalhavam em boates também. No poledance, elas nem sempre tiravam a roupa, às vezes só dançavam e eu percebia que em alguns momentos finalmente conseguiam relaxar e a mente delas ia para outro lugar. Era maravilhoso vê-las dançando e eu também quis aprender."

"Morei na rua, mas o poledance me salvou"_4 - Thaís Quintiliano/Divulgação - Thaís Quintiliano/Divulgação
Juliana hoje tem 10 anos de experiência, com 9 títulos nacionais e internacionais
Imagem: Thaís Quintiliano/Divulgação

Juliana começou a treinar e, um dia, criou coragem para subir num palco. Naquele momento, decidiu que era a isso que se dedicaria. Conheceu um estúdio onde se profissionalizou e, um ano depois, competiu e ganhou o terceiro lugar em um campeonato internacional de poledance.

De lá para cá, Juliana continuou se capacitando, dando aulas e hoje tem 10 anos de experiência com 9 títulos nacionais e internacionais, mas ela diz que o que a motiva é, através do pole, colaborar com a autoestima das mulheres que procuram o seu estúdio.

"Tudo o que vivi e aprendi nos meus piores anos, uso para ajudar na autoestima e na sensualidade das mulheres para elas mesmas, não para os outros. Esse é um trabalho que a gente faz juntas, de dentro pra fora. O pole não é terapia, mas ajuda muito! Tenho alunas que passaram por relações abusivas, outras que querem se conhecer melhor e ainda aquelas que querem apenas se divertir... Elas chegam e ficam porque sabem que são acolhidas."

Para fortalecer ainda mais a influência do pole dance na vida das mulheres, ela está organizando o 1o Inter Pole ABCD, cujo tema é "Valentes: mulheres que mudam o mundo". A ideia do evento, que acontece em dezembro, é promover a união com outras escolas, treinadoras e praticantes de pole da região.

"Nascer mulher deveria ser uma dádiva, mas ainda é uma sentença. Quero que as participantes venham celebrar com as suas famílias e durante o evento vamos contar histórias de mulheres que mudaram o mundo e fizeram muito por nós também!" Diz Juliana, consciente de que hoje ela também faz parte da lista de mulheres que nos inspiram e merecem ter suas histórias contadas e compartilhadas.

Se você quiser acompanhar mais da história da Juliana, o estúdio de poledance e o campeonato que está por vir, siga o Studio Downtown nas redes sociais.

Mayumi Sato