Felipe Zmoginski

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Carrões, delivery 'na rua': China pós-covid está mais tech e menos global

Estou de volta à China pela primeira vez desde o final de 2019. Visitei o país em novembro daquele ano. Um mês depois foi descoberto o "coronavírus" e o resto... todos sabem a história. Entre as economias do G-20, a China foi o país que adotou as políticas mais rigorosas de controle da pandemia, o que, ao menos no início, foi um sucesso para depois tornar-se um problema.

Entre 2020 e 2021, enquanto países do Ocidente enfrentavam médias diárias de mil, 2 mil mortes, a China anotava casos esporádicos de infecção. Uma das consequências do esforço epidemiológico foi o crescimento da dívida pública do país. Estudos locais mostram que os testes de antígeno quase diários para uma população superior a 1 bilhão de pessoas teve impacto sensível sobre o nível de endividamento de diversas províncias do país, como Xangai.

A parte mais problemática da política de "covid zero", que é defendida pela maior parte da população local, foi sua duração. Para ajustar-se ao calendário político local, a "Zero Covid Policy" estendeu-se para um período que talvez já não fizesse mais sentido, já que as pessoas tinham sido vacinadas e havia conhecimento médico sobre como melhor tratar a enfermidade.

País ficou mais voltado para si

Um dos efeitos das restrições, foi a saída de estrangeiros do país.

A China, que progressivamente vinha se tornando uma região "mais global" e, eventualmente, adotando hábitos comuns no Ocidente, tornou-se mais fechada e voltada para si.

Serviços privados que antes contemplavam o mercado internacional em seus planos, o chamado "Go Global", recuaram. Até na sinalização de rua e na interface dos aplicativos locais, há menos legendas em inglês.

Os efeitos do isolamento, como de praxe no resto do mundo, aceleraram a digitalização da economia.

Hoje, 52% do varejo local ocorre em canais online e apenas 48%, em locais offline, proporção sem paralelo no mundo.

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A indústria de pagamentos, que já era 80% digital, agora supera os 90% de digitalização, com quase a totalidade das pequenas transações no país ocorrendo via apps como AliPay e WeChat.

Fato novo foi a entrada do Reminbi digital (eRMB), um caso raro de moeda cripto operada por bancos estatais e com lastro assegurado pelo Banco Central da China. Em Pequim, a aceitação do eRMB é quase tão ampla quanto a dos serviços pioneiros como Alipay.

A expansão do eRMB é relevante pois confirma o poder do Estado em operar em um segmento antes desbravado por inovadores da iniciativa privada. Mais, acredita-se que a transação de moeda soberana eletrônica poderá ter impacto no comércio internacional no futuro, o que na prática pode permitir que os países que fazem comércio com a China transacionem valores em eRMB, sem passar pelo dólar americano ou pelo sistema SWIFT internacional.

Placa em balcão de loja destaca o Reminbi digital
Placa em balcão de loja destaca o Reminbi digital Imagem: Felipe Zmoginski

Nas ruas, a qualidade do ar e o nível de ruído são sensivelmente diferentes do período pré-covid. O principal responsável pela mudança foi o avanço do número de veículos elétricos nas ruas. Em Pequim, 43% da frota é movida a energia elétrica.

Os carros com motorização a gasolina usam placa azul, enquanto os que têm apenas bateria recebem emplacamento verde, o que lhes confere alguns privilégios para circular em áreas restritas e estacionar. Na prática, uma forma de incentivo não-tributário à eletrificação da frota.

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No conjunto do país, 21% de toda a frota de veículos, a maior do mundo, já é elétrica. Para efeito de comparação, um estudo do Fundo Monetário Mundial (FMI) projeta que, no mundo, só se atingirá o patamar de um quinto de veículos movidos por baterias em 2040.

Shopping center não é mais lugar de compras

Nos shopping centers, as diferenças do país pré e pós pandemia são ainda mais visíveis.

Nos centros de compras, na verdade, quase nada se compra. Os espaços das lojas de varejo dão lugar a academias de ginástica, centros de massagem e amplos "show room" de lançamentos de carros e de imóveis.

Até a praça de alimentação se transformou. Com o aumento da entrega de comida por delivery, a sensação que se tem nestas praças é que há mais entregadores de serviços como Ele.me e Meituan, os correspondentes ao iFood no mercado local, que famílias ou indivíduos procurando comida.

Já nas torres de escritórios, menos lotadas com o avanço do trabalho-remoto, criaram-se prateleiras nas áreas comuns em que os entregadores deixam encomendas e pacotes de comida. O método é eficiente por eliminar a necessidade de chamar o cliente ou fazer cadastro na recepção para entrega de comida. E, claro, só funciona porque, mesmo quando expostas na rua, estas prateleiras não sofrem com furtos —há câmeras de vigilância por os todos locais.

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Produtos entregues por serviço de delivery são deixados em espaços externos dos prédios
Produtos entregues por serviço de delivery são deixados em espaços externos dos prédios Imagem: Felipe Zmoginski

A vigilância, aliás, parece ser um dos fatores que também se alterou na China pós-covid. Embora já fosse rígido em 2019, o controle sobre atividades públicas parece estar mais estreito, com uso mais intensivo de reconhecimento facial e de validação por QR Code ou RG com chip. Simples deslocamentos no metrô são controlados por um sistema público de informação que registra onde você validou seu bilhete e em que catraca desceu.

Apesar dos anos difíceis de pandemia e da desaceleração da economia local, a sensação de prosperidade em expansão é muito clara.

Ao menos em Pequim, o trânsito parece um desfile de carrões saídos do Salão do Automóvel e a população circulante, mesmo nos bairros dos anéis mais distantes (periferia local), exibe em mãos smartphones de último modelo e roupas de grifes locais e internacionais. Legítimas, registre-se.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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