PUBLICIDADE
Topo

Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como surge um stalker que passa do amor ao assédio e perseguição na web

Noelle Otto/ Pexels
Imagem: Noelle Otto/ Pexels
Conteúdo exclusivo para assinantes
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

16/04/2021 04h00

"Stalker" é um filme soviético dirigido por Andrei Tarkovski em 1979. Ele retrata um futuro indefinido no qual existe uma área restrita chamada de "Zona", no interior da qual existe um lugar chamado "A Sala", no interior da qual os desejos humanos se realizam.

Stalker é uma espécie de guia ou de acompanhante para "O Professor" e para "O Escritor", que pretendem chegar na Sala com objetivos distintos: impedir que o lugar caia em mãos maléficas e ganhar o prêmio Nobel pela explicação científica do que ali se passa.

Ao final descobrimos que Stalker refere-se ao seu irmão que quando alcança A Sala descobre que seu desejo não era bem o que ele imaginava, o que o conduz ao suicídio subsequente.

Filmado sete anos antes do desastre de Chernobyl, ele anteciparia os recentes chernoboys, alcunha dada a garotos que exalam radiotividade tóxica em seus relacionamentos.

"Stalker" é um filme que nos alerta contra aqueles que sabem demais sobre o que desejam, inclusive professores e defensores morais do bem supremo (geralmente amparados na eliminação do mal eventualmente disponível para ser perseguido).

O irmão de Stalker é Porcupine, ou seja, o porco-espinho, alusão provável ao dilema de Schopenhauer segundo o qual os seres humanos estão permanentemente às voltas com o fato de que se ficam longe demais uns dos outros morrem de frio e se ficam perto demais dos outros morrem espetados por seus espinhos.

A versão digital do paradoxo nos faz oscilar entre o sentimento de solidão, cercada por outros porcos-espinhos digitais, e a asfixia, pela intrusão permanente do outro e suas opiniões, comentários e críticas, em nossas vidas.

Este mês foi sancionada a lei brasileira que criminaliza a prática do stalkeamento, punindo com prisão de um a três anos quem perseguir obsessivamente o outro interferindo em sua liberdade ou privacidade.

No caso da web, ou ciberstalking, isso inclui divulgar informações pessoais, como nome e endereço completo; invadir aparelhos eletrônicos para acessar contas pessoais, preencher a caixa de entrada dos emails com spam, enviar vírus ou outros programas nocivos aos computadores de suas vítimas. A pena dobra se a ofensa ocorrer contra mulheres, crianças ou idosos.

No quinto país com maior número de feminicídios do mundo até mesmo a Bia, a operadora digital do Bradesco, recebe mais de 95 mil mensagens ofensivas por ano, que agora são respondidas, pela inteligência artificial com frases como:

  • "Essas palavras não podem ser usadas comigo e com mais ninguém" e;
  • "Para você pode ser uma brincadeira. Para mim, foi violento".

O stalker ordinário é um filho do Big Brother. Ele concentra sua vida na vida dos outros (aliás "A Vida dos Outros" é outro filme comunista, sobre espionagem na antiga Alemanha Oriental) de tal maneira que ela ganha o mistério e a curiosidade que não se tem com a própria vida, sentida como irrelevante e inadequada demais.

Por isso, o stalker se identifica com sua vítima de tal maneira que ele entende sua proximidade e sua intrusividade como uma espécie de "direito", pois se trata na verdade de investigar a si mesmo através do outro.

Stalkers dividem-se entre haters e lovers, sendo os mais perigosos os ex-lovers e ex-hatters. O sentimento erotomaníaco de posse combina as duas coisas na impossibilidade de entender que o outro não quer mais, não gosta mais ou não suporta mais. É o caso do ex-marido ou do ex-namorado que se compraz em assinalar sua presença, causando mais medo e intimidação, como se o único motivo para se separar de alguém fosse a mais absoluta indiferença.

Muitos se surpreendem com os excessos masculinos com o sentimento de propriedade, poucos estão interessados em entender como se cria um "proprietarista".

A receita para a produção artificial de um stalker começa por um amor inicial que ensina que o amante é uma espécie de extensão do amado, um órgão fora do corpo, ao modo de um gêmeo que nos persegue e que nos completa como uma sombra.

Depois disso acrescente uma experiência continuada de menos-valia e de choque civilizacional, no qual durante a escolarização o sujeito se sentirá traído, incompreendido e injustiçado pois todo o amor que lhe fora prometido eternamente não se confirma quando ele sai daquele pequeno circuito familiar.

Uma versão alternativa, menos "feliz" no primeiro capítulo, formará aqui a ideia fixa de que um dia virá um grande amor que vai reparar e apagar para sempre o déficit amoroso que se experimentou na largada. Daí quando a pessoa encontra um amor que mostra suas rachaduras não exclusivistas, que denuncia que amar alguém não corresponde a possuir alguém, a lógica da propriedade surge como correção espontânea de rota.

Isso conta frequentemente com o fato de que amor e ódio formam uma superfície unilateral, no interior da qual passamos de um lado para outro sem nos darmos conta, ao modo de uma banda de Moebius. Daí que as manifestações de ódio e de repúdio sejam sentidas pelo stalker, como confirmações de afeto.

O stalker faz parte do que Freud e Rank chamavam de figuras do duplo, das quais Narciso é o exemplo paradigmático.

Lembremos que Narciso era filho de Cefísio, um rei tão belo e tão arrogante que não deixava nenhuma pretendente chegar perto de si. Com o tempo acostumou-se a apenas repudiar e odiar aquele por quem se sentia amado ou odiado.

Tomado tragicamente pela posição de quem é superior a todos, e por isso mesmo deve permanecer sozinho e apartado dos outros, Cefísio estupra a ninfa Liríope, que dará assim origem a Narciso.

Vemos assim que os narcisistas stalkeadores sofrem com um amor baseado em uma distância impossível e intolerável [1].

Esta mistura de professor, que tudo quer saber sobre seu objeto, para ser agraciado com o Nobel, e de escritor, que quer destruir aquilo pelo qual tanto se interessa, faz de Stalker aquele que finge ser um acompanhante solícito, mas apenas e tão somente para se aproximar do desejo do Outro, que afinal rege seu destino.

Observar a vida dos outros, sem que os outros saibam é uma variante do stalkeamento: "você não vê que eu estou te vendo". Tal fórmula produz um efeito imaginário de poder.

Depois disso vem a fase em que o fato de que "você vê que eu te vejo e não gosta disso" é substituído por "prefiro que você me odeie a que me seja indiferente".

Finalmente, no momento mais perigoso, esta indiferença se torna agressividade e ódio porque todos os esforços "amorosos" não são retribuídos, o que autoriza, imaginariamente a produção de danos na vítima.

Por isso é muito importante ser claro e direto com stalkeadores iniciantes: não estou interessada, não estou a fim, acabou, não me procure mais, estou amando outra pessoa. Essas são formas de impedir que a vergonha e às vezes a polidez ou "boa educação" não se tornem pretextos futuros para ser invadido.

Tudo isso pode acontecer porque criamos uma "Zona" tóxica onde a pesquisa de nossos desejos se apega demais a um desejo transformado em demanda, mas apenas no espaço entre quatro paredes, ou de uma tela de acesso a uma "Sala".

REFERÊNCIA

[1] Brandão, J. (1986) Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL