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Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quais os sinais de que relação com o crush irá além do digital?

StockSnap/ Pixabay
Imagem: StockSnap/ Pixabay
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

09/04/2021 04h00

Em tempos de amores digitais e encontros mediados torna-se uma questão saber como exatamente se produz intimidade. Muitas pessoas voltam de encontro, para os quais foram de coração aberto, decepcionadas porque a conversa flui, mas não contagia. Outros tantos se preocupam demasiadamente com o preenchimento de expectativas, dotes e qualidades, em si e no outro.

Saber o que exatamente conta na aproximação entre duas pessoas é essencial para as novas inteligências artificiais assim como para entender o fracasso relativo de plataformas de encontros em produzir intimidade e relações de longo prazo.

Neste contexto uma pesquisa da State University de Nova York produziu dados surpreendentes [1]. Seu objetivo era apenas entender se a proximidade (closeness) entre pessoas poderia ser manipulada ou experimentalmente produzida.

Eles testaram três fatores que supostamente influenciam a criação da "conexão" com o outro:

  1. Ausência de discordância atitudinal;
  2. Expectativa declarada de que "o outro vai gostar de você" e;
  3. realização de uma tarefa comum orientada para aproximar pessoas (perguntas para serem respondidas conjuntamente pelo par).

Tendo por hipótese que a proximidade depende de experiências em que há compartilhamento e ação coordenada, os pesquisadores desenharam uma situação de 45 minutos de conversa, selecionando pares de homens e mulheres ou de duas mulheres, segundo o estilo de apego pré-diagnosticado.

A teoria do apego é um suplemento à psicanálise, proposta por John Bowlby (1907-1990), a partir da experiência com crianças inglesas, separadas de seus pais, durante a Segunda Guerra Mundial, bem como com órfãos e refugiados do leste europeu.

Bowlby separou quatro formas de ligação primária com o outro, geralmente mães ou cuidadores:

  • Apego seguro (caracterizado pela capacidade de se separar, explorar o mundo e voltar para a "base segura"),
  • Apego preocupado,
  • Apego evitativo e
  • Apego demissivo (marcado pela insegurança legada pelo abandono).

Pensando nisso a pesquisa sobre intimidade pareou pessoas com o mesmo tipo de apego. Na mesma direção agruparam pessoas introvertidas e extrovertidas, sempre segundo o princípio de que o semelhante atrai o semelhante, que o mesmo tipo de "gestão da relação com o outro" cria proximidade.

A experiência trouxe um resultado surpreendente.

Apesar de não ser o objetivo da pesquisa, muitas relações amorosas se formaram, inclusive um casamento. Mais que isso, 90% deste efeito não depende de acordo de valores, semelhança de apegos, introversão ou incentivos de que "vai dar certo", mas do tipo de conversa, gerada por perguntas específicas, a serem respondidas pelo par, ao modo de uma "tarefa".

A formação desta mistura entre lealdade, compromisso e dependência parece estar presente, de modo decisivo, na maneira como conversamos, ou seja, as palavras são o elemento chave da intimidade e isso dificilmente pode ser contornado pelas qualidades específicas das pessoas.

Moral da história: uma conversa aprofundada, no começo de uma relação, é superior a todas as outras variáveis de enlace, incluindo neuroticismo, felicidade, habilidade de comunicação, autoestima, confiança disposicional, estilo de tratamento de conflitos, vinculação comunitária e gênero.

Isso se explica por certas regulações internas criadas pelo procedimento.

Por exemplo, introvertidos geralmente estão atrás de extrovertidos quando se trata de vinculação preliminar, mas quando você cria com tarefa o enfrentamento de certas questões comuns, a introversão utiliza tais tarefas para se colocar em pé de igualdade com a extroversão.

Pessoas com apego inseguro apoiam-se na estruturação da situação para aumentar sua confiança. Resulta disso que 30% dos participantes declararam que o nível de intimidade produzido pelo experimento é semelhante ao "maior encontrado na vida". Sinal dos tempos, que acusam níveis crescentes de sentimento de solidão.

A qualidade da conversa foi produzida por uma tecnologia discursiva específica. Havia dois grupos de perguntas-chaves, divididas entre "Procedimento de Geração de Proximidade" (Task Slips Closeness-Generating Procedure) de um lado e "Conversa Fortuita" (Small Talk) do outro. Cada grupo contava com 34 perguntas de cada tipo com crescente estimulação potencial de intimidade.

Você mesmo pode verificar se sua conversa está mais para "jogar fora" ou para "trazer para dentro" a partir de uma seleção de perguntas de cada grupo:

Conversa Íntima

  1. Quem, no mundo, você convidaria para jantar?
  2. Você pensa o que vai dizer antes de ligar para alguém?
  3. Se você fosse viver até os 90 anos, o que você ia preferir, nos últimos 60 anos? Permanecer com a cabeça ou com o corpo de 30?
  4. Pelo quê você é grato na vida?
  5. Que habilidade você escolheria ter ao acordar amanhã?
  6. Por que você não faz o que sonha?
  7. Qual sua pior lembrança?
  8. Qual o papel do amor em sua vida?
  9. Como é sua relação com a sua mãe?
  10. Se você se tornasse amigo íntimo desta pessoa que você está conhecendo agora, o que o outro precisa saber sobre você?
  11. Quando você chorou na frente de outra pessoa pela última vez?
  12. Se sua vida acabasse agora do que você se arrependeria?

Conversa Mole

  1. Quando foi a última vez que você andou por aí, sem nada para fazer?
  2. Se você mudasse de cidade, do que você sentiria falta?
  3. Qual seria o sabor de um sorvete novo que você gostaria de inventar?
  4. Descreva um animal de estimação querido?
  5. Que presentes você gosta de receber no aniversário?
  6. Você é notívago ou matutino?
  7. Qual seu ator favorito?
  8. Qual é seu feriado preferido?
  9. Que lugar do mundo você gostaria de visitar?
  10. Você costuma montar árvores de Natal? Por quê?
  11. Você acha que canhotos são mais inteligentes que destros?
  12. Você lembra de um acontecimento engraçado quando você estava, na escola, por exemplo, nas aulas de teatro ou música?

Perceba que a coluna da "Conversa Mole" gira em torno do que você gosta, das suas preferências e afinidades, ao passo que a coluna da conversa íntima coloca questões sobre o que você quer na vida ... ou como ela poderia ser se você fosse outro.

Note que no caso da conversa boba falamos sobre quem você é, seus hábitos e características, ao passo que na conversa íntima falamos sobre quem queremos nos tornar.

Na conversa mole falamos sobre o que temos, na conversa íntima elaboramos o que nos falta. A primeira enfatiza o passado e o que você já sabe sobre si, a segunda ataca o que você ainda terá que descobrir (aqui está o convite indireto para que o outro te acompanhante nesta jornada).

Verifique como a conversa "fácil" aproxima-se do que podemos chamar de positividade, veja como ela pode se tornar tóxica e vazia, ao passo que a conversa íntima nos convida a olhar para aspectos como sofrimento, morte, decepções e conflitos, que muitos considerariam péssimas escolhas para tratar em um jantar. Nelas as perguntas implicam em encruzilhadas.

Se você escolhe A, perde B e assim confrontamos escolhas realmente importantes que temos pela frente. Já as perguntas da conversa mole comportam variedades igualmente razoáveis ou possíveis de escolha, opiniões que não trazem grandes consequências para quem as enuncia.

REFERÊNCIA

[1] Aron A, Melinat E, Aron EN, Vallone RD, Bator RJ. The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings. Personality and Social Psychology Bulletin. 1997;23(4):363-377.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL