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Como seria se... o acidente de Chernobyl nunca tivesse sido descoberto?

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

19/05/2020 04h00

Você deve conhecer a história da Usina de Energia Nuclear Vladimir Ilyich Lenin. É o nome oficial da Usina de Chernobyl, protagonista de um desastre de enormes proporções em 26 de abril de 1986. Ela não apenas deixou mortes e contaminação do ambiente, como também trouxe dúvidas sobre a segurança e a viabilidade das usinas nucleares.

A resposta do então governo da União Soviética foi lenta —muito por conta da preocupação com o dano que o acidente poderia causar à imagem do já decadente regime. E as medidas de contenção tomadas não levaram em conta aspectos básicos de segurança. Ainda assim, os efeitos do desastre poderiam ser bem piores do que foram.

O que aconteceu?

Há diversos fatores que contribuíram para a explosão e derretimento do núcleo do reator número 4 da usina. Ela ocorreu durante um teste que visava criar um protocolo que permitiria manter a circulação de água em uma queda de energia elétrica.

Na ocasião, havia sido identificado que o projeto da usina tinha uma potencial falha de segurança. Entre uma pane de energia e o início do funcionamento dos geradores auxiliares, havia um período de cerca de um minuto no qual o processo de resfriamento seria interrompido.

Isso poderia causar, por exemplo, um superaquecimento do núcleo do gerador e um consequente derretimento.

A ideia do teste era usar o movimento residual das turbinas para alimentar o sistema de resfriamento da usina até que os geradores auxiliares funcionassem. E, bem, não foi bem como tudo correu?

Devido a um atraso no cronograma do teste, houve uma troca de turno e ele acabou sendo feito por uma equipe que não estava preparada para tal. Durante o procedimento, os níveis de energia oscilaram de maneira brusca e inesperada.

Essa instabilidade acabou resultando em uma reação em cadeia descontrolada, que gerou um pico de energia, vaporizou a água usada para resfriamento dos reatores e provocou uma explosão de vapor, destruindo boa parte da estrutura do reator e expondo o seu núcleo —que queimava— ao ambiente.

Gerador de dejetos

As medidas mais efetivas, ainda que ao custo de muitas vidas, foram duas: combater o incêndio e resfriar o núcleo derretido. Considerando um cenário onde o incidente seria apenas "varrido para debaixo do tapete", sem ações para controlar a situação, o que teríamos primeiro é uma constante emissão de produtos radioativos na atmosfera.

O incêndio teria continuado até que todo o grafite usado nos reatores —que cumpria a função de moderador de nêutrons no reator— tivesse sido queimado.

Conforme acontecia essa queima, produtos de fissão teriam sido espalhados na atmosfera. Entre eles, é possível citar o Iodo-131, o Plutônio-239, o Estrôncio-90 e o Césio-137, entre outros produtos que são ou quimicamente tóxicos ou muito radioativos.

Europa e Hemisfério Norte em risco

Se a queima a céu aberto por cerca de nove dias foi suficiente para lançar material radioativo na atmosfera a ponto de haver contaminação por Césio-137 na Noruega, a cerca de 2 mil quilômetros de distância, uma situação do tipo prolongada teria um efeito ainda pior. Ainda assim, é improvável que houvesse impacto em todo o mundo.

Isso porque a poeira radioativa tende a ficar menos de um mês no ar. Além disso, há pouca mistura de massas de ar do Hemisfério Norte com as do Hemisfério Sul.

De qualquer forma, a Europa e outras regiões na metade norte do globo provavelmente sofreriam consequências terríveis, como uma contaminação profunda do solo —o que impactaria o cultivo de vegetais e criação de animais— e uma maior incidência de casos de câncer.

Água "suja"

Outra possível consequência seria a ruptura do piso de concreto sobre o qual o gerador se apoiava. Caso isso acontecesse, além de "cuspir" dejetos radioativos para atmosfera, o núcleo do reator também contaminaria o lençol freático da região.

No desastre de 1986, foi detectada radioatividade tanto na água da região —a usina fica próxima ao rio Pripyat— quanto em peixes. No caso da água, a cidade de Kiev e seus então 2,4 milhões de habitantes foram os mais afetados.

Nova explosão...

Antes de contaminar o lençol freático, é bem provável que o núcleo em temperatura elevada causasse uma segunda explosão. Isso porque abaixo dele havia pisos que seriam usados como reservatórios de água em caso de vazamento de vapor e para armazenar água para as bombas de resfriamento de emergência.

Esses "piscinões" continham ainda mais água acumulada do que o normal, resultado da ação de bombeiros na tentativa de resfriar o núcleo. Caso ela se aquecesse a ponto de virar vapor, uma nova explosão, ainda maior do que a primeira, provavelmente ocorreria. Isso resultaria em ainda mais material radioativo lançado na atmosfera.

Felizmente, três engenheiros conseguiram abrir válvulas de drenagem que esvaziaram esses reservatórios.

...mas não nuclear

Uma explosão nuclear, similar à de uma bomba, não ocorreria. Isso porque o enriquecimento do combustível usado naquele reator é muito baixo se comparado ao usado em uma bomba.

Isso evitaria a massa crítica, condição para que ocorra uma reação em cadeia autossustentada e uma consequente explosão nuclear.

Uma enorme área inutilizada

Mesmo com as medidas de contenção, uma área de exclusão com raio de 30 km foi criada ao redor da usina. Além disso, materiais como argila, chumbo e absorvedores de nêutrons, como o boro, foram jogados sobre o núcleo, evitando a emissão de mais sujeira radioativa no ar.

Posteriormente, foi construído um "sarcófago" ao redor do reator para que fosse bloqueada a emissão de radiação ao ambiente. Ainda assim, a região não é considerada totalmente segura —recentemente, um incêndio voltou as atenções novamente para a região— mas a área inutilizada seria maior se medidas de contenção não tivessem sido tomadas.

Fonte: Frederico Genezini, pesquisador da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IPEN/CNEN)