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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os 10 melhores filmes de 2021

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

07/01/2022 04h00

2021 foi um ano complicado. Não só para o cinema, mas também para o cinema. A sombra da pandemia começou a se dissipar com o começo da vacinação (por sinal, não deixa de vacinar, principalmente as crianças!) e as pessoas lentamente buscaram um semblante de normalidade.

Nesse cenário, o cinema sobreviveu. Sem a ajuda de aparelhos, mas ainda longe de retomar totalmente o fôlego. Ainda assim, houve espaço para beleza, para tensão, para descoberta, para euforia. A arte traz o alento que a alma tanto precisa nesses tempos de caos, e se tem algo que o mundo precisa desesperadamente é de vislumbrar um fim para tanta provação.

A seleção abaixo me acompanhou em diversos momentos nos últimos doze meses, obras que ajudaram a desligar momentaneamente do cotidiano para repousar, duas horinhas por vez, em sonhos transformados em imagem e som. Não há nada melhor!

Regras, minhas regras: são produções de 2021 que eu tive chance de assistir antes do fim do ano, mesmo que algumas ainda não tenham chegado no cinema por aqui. Fazer listas é um barato, e descobrir que o cinema segue vivo e vibrante, melhor ainda!

10. A CRÔNICA FRANCESA
(The French Dispatch, Wes Anderson)

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'A Crônica Francesa'
Imagem: 20th Century Studios

Wes Anderson segue com sua obsessão com simetria, histórias incomuns e personagens extravagantes. "A Crônica Francesa" é uma homenagem apaixonada ao jornalismo - ao menos a um jornalismo romantizado - e à nobre arte de criar revistas. Para emoldurar a história do jornal criado na França por um editor americano, Anderson dispôs mais uma vez de um elenco que entra no jogo, encabeçado por Bill Murray. É um filme ligeiro, divertido, emocionante e sempre delicioso.

9. O BECO DO PESADELO
(Nightmare Alley, Guillermo Del Toro)

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'O Beco do Pesadelo'
Imagem: 20th Century Studios

Depois de explorar os cantos da fantasia e da ficção científica em pérolas como "O Labirinto do Fauno", "Círculo de Fogo" e "A Forma da Água", Guillermo Del Toro comete aqui um filme em que o terror não vem de monstros abissais ou de criaturas colossais, e sim dos espaços mais sombrios da alma humana. "O Beco do Pesadelo" é um filme noir moderno, que amarra as convenções do gênero no apuro visual e narrativo do diretor, em uma história de viajantes misteriosos, femme fatales, sexo e crime. E sangue. Muito sangue.

8. TICK, TICK... BOOM!
(Lin-Manuel Miranda)

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'Tick, Tick... Boom!'
Imagem: Netflix

O onipresente Lin-Manuel Miranda finalmente estreia na direção com a biografia de Jonathan Larson, o autor que busca reconhecimento artístico na Broadway ao criar um musical moderno e fora dos padrões. Vibrante e emocionante na mesma escala, "Tick, Tick... Boom!" tem como maior trunfo o trabalho irretocável de Andrew Garfield como Larson. Ele traz não só a frustração e a pressão de estar quase lá, como também nos conduz com clareza quando o drama se converte em um musical de encher os olhos. Invariavelmente, também, de lágrimas.

7. HOMEM-ARANHA: SEM VOLTA PARA CASA
(Spider-Man: No Way Home, Jon Watts)

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'Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa'
Imagem: Sony

O melhor blockbuster é aquele que conta com a cumplicidade da platéia para complementar o espetáculo. O terceiro filme com Tom Holland no papel do herói mais sensacional da Marvel traz exatamente isso: é uma aventura que entrega ao público o espetáculo e a conexão emocional prometida, sem nunca esquecer que a história sendo contada é o mais importante. Uma história que encerra esse capítulo na vida cinematográfica do Homem-Aranha, abrindo caminhos que, do lado de cá, mal podemos esperar para acompanhar.

6. A FILHA PERDIDA
(The Lost Daughter, Maggie Gyllenhaal)

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'A Filha Perdida'
Imagem: Netflix

A atriz Maggie Gyllenhaal escolheu um material complexo para sua estreia na direção. Mostra-se, contudo, uma realizadora de sensibilidade e firmeza exemplares na adaptação do livro de Elena Ferrante. Em "A Filha Perdida", Olivia Colman é uma professora de literatura de férias na Grécia, que vê seu espaço pessoal invadido por uma família estridente e espaçosa. Um olhar para a jovem mãe (Dakota Johnson) que pena com a filha pequena dispara uma série de flashbacks, revelando que a maternidade pode ser, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma prisão.

5. O ÚLTIMO DUELO
(The Last Duel, Ridley Scott)

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'O Último Duelo'
Imagem: 20th Century Studios

Ridley Scott viu todo o oba oba sobre seu trabalho em 2021 direcionado à "Casa Gucci". O filme com Lady Gaga, no entanto, mal amarra as botas deste drama histórico que expõe, de forma dolorosa, o papel da mulher enquanto propriedade ou objeto masculino. Na França do século 14, dois nobres (Matt Damon e Adam Driver) duelam até a morte, quando o segundo é acusado de estuprar a mulher do primeiro. Um filme pesado, plasticamente irresistível e dominado pela presença poderosa de Jodie Comer: com ela, você acredita que a história pode mudar.

4. SUMMER OF SOUL
(Ahmir "Questlove" Thompson)

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'Summer of Soul'
Imagem: Searchlight

Por seis semanas no verão de 1969, Nova York recebeu o Festival da Cultura do Harlem, uma celebração da cultura negra, com shows épicos de gente do calibre de Stevie Wonder, Nina Simone e Sly and the Family Stone. Ainda assim, o material era objeto de lenda, e manteve-se encaixotado num porão por cinco décadas até sua redescoberta.

Em sua estreia na direção, o músico Ahmir "Questlove" Thompson, da banda The Roots, coordenou a edição e restauração de 40 horas de material que resultaram em um resgate histórico da efervescência cultural e mudança social que o país experimentava. "Summer of Soul" reúne as imagens do evento com entrevistas atuais com músicos e com pessoas que foram ao Festival, sublinhando o poder da música e a força da herança negra que reverberam até hoje no tecido social e cultural americano.

3. DUNA
(Dune, Denis Villeneuve)

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'Duna'
Imagem: Warner

"Impressionante e frustrante na mesma medida." Foi o pensamento que me veio à mente quando assisti a "Duna", adaptação do romance de ficção científica de Frank Herbert, conduzida por Denis Villeneuve. O cuidado com o material é absurdo e arrebatador. A saga de Paul Atreides, herdeiro de um clã espacial que torna-se catalisador de um conflito no árido planeta Arrakis, surge em escala monumental, com uma construção de mundo que mal cabe na tela.

Esse cuidado de produção envolve a jornada do herói primordial. A chegada de uma força militar superior, para extrair recursos naturais de um mundo habitado por um povo que se recusa a dobrar, espelha conflitos geopolíticos contemporâneos, fazendo de "Duna", além de um filmaço arrebatador, um espelho incômodo para nós mesmos. A frustração deve ser sanada ano que vem, quando a segunda parte do épico deve finalmente chegar aos cinemas.

2. AMOR, SUBLIME AMOR
(West Side Story, Steven Spielberg)

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'Amor, Sublime Amor'
Imagem: 20th Century Studios

É revigorante assistir a Steven Spielberg, com a carreira que tem, com seu lugar na história do cinema, assumir um projeto como "Amor, Sublime Amor" e se redescobrir como realizador. Em sua versão do musical de Leonard Bernstein, Stephen Sondheim e Arthur Laurents, adaptado para o cinema anteriormente no clássico de Robert Wise em 1961, o diretor filtra a história de amor em uma Nova York no pós Guerra em uma visão contemporânea sobre lealdade, ignorância, amizade e violência.

"Amor, Sublime Amor" revela um microcosmo de imigrantes sufocado pelo racismo, pelo abismo social e pelo medo de não se encaixar no novo mundo - todos rendidos ao romance de Tony (Ansel Elgort) e Maria (Rachel Zegler). Vibrante, assustador, envolvente, tenso e absolutamente sensacional, o filme de Spielberg é um triunfo que - heresia! - supera seu antecessor e reafirma o poder transformador do cinema. E a música! Ah, a música...

1. ATAQUE DOS CÃES
(The Power of the Dog, Jane Campion)

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'Ataque dos Cães'
Imagem: Netflix

Que beleza que é este "Ataque dos Cães". A diretora Jane Campion, revelada décadas atrás pelo sensível "O Piano", adapta com firmeza o romance de Thomas Savage. Tarefa difícil, isolar um sentimento, uma personalidade encapsulada por uma armadura aparentemente intransponível.

É essa armadura que define Phil Burbank (Benedict Cumberbatch, sublime em seu melhor papel), um caubói rude e desagradável, preso ao passado de um estilo de vida que lentamente derrete ante o mundo moderno. Ele também agarra-se a memórias e desejos sufocados, que são expostos com a chegada de Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem que confronta sua intensidade com sedução irrefreável.

"Ataque dos Cães" é um filme de camadas, revelando conexões feitas por ódio e inveja, por humilhação e desprezo, pela força do sangue e pela fúria do desejo sublimado. A sexualidade é, ao mesmo tempo, uma arma e um escudo, desfeitos em violência quando entram em choque. Um filme poderoso, de entrelinhas reveladoras e interpretações poderosas (Kisrten Dunst, Jesse Plemons). Um filme absurdamente belo de todas as formas, o melhor que o cinema entregou em 2021.