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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Amor, Sublime Amor': Steven Spielberg entrega o filmaço que estava devendo

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

09/12/2021 04h00

Se me permite a heresia, vamos a ela: essa nova versão de "Amor, Sublime Amor", assinada por Steven Spielberg, é superior ao musical lançado por Robert Wise em 1961. Não entenda mal! O clássico com Natalie Wood e Richard Beymer segue como uma das mais brilhantes adaptações de Shakespeare e de um musical da Broadway. Spielberg, porém, teve o tempo a seu lado.

Claramente inspirado em "Romeu e Julieta", "Amor, Sublime Amor" foi concebido por Leonard Bernstein, Stephen Sondheim e Jerome Robbins como uma cápsula do tempo, um reflexo da Nova York efervescente nos anos 1950, na América do pós-guerra, reconstruída por imigrantes, com jovens buscando descobrir seu espaço no mundo. Nesse cenário, a história de amor sublinha questões sobre tensão racial, luta de classe, delinquência juvenil e, talvez, uma fagulha de esperança para o futuro.

Alguns temas do musical original, como o conflito entre duas gangues rivais, os Jets (formada por imigrantes irlandeses) e os Sharks (o punho da comunidade de Porto Rico), ganham volume sob a luz do século 21. O tempo, implacável, derrubou muitas barreiras, mas também fez do mundo um lugar mais intolerante, com os abismos sociais - racismo, transfobia, profunda desigualdade econômica - grifados sem o pudor que a primeira versão, e sua adaptação para o cinema, exigia.

west casal baile - 20th Century Studios - 20th Century Studios
Ansel Elgort e Rachel Zegler vivem um amor proibido em 'Amor, Sublime Amor'
Imagem: 20th Century Studios

Spielberg, com vitalidade pelos poros, encarou a produção de "Amor, Sublime Amor" como um desafio. Ele ampliou o respeito à representatividade e pluralidade de seus personagens. Manteve a trilha original intocada e sem modernidades - ou seja, nada de canções inéditas para concorrer ao Oscar. Abraçou diálogos em inglês e espanhol sem legendar o segundo, preservando o equilíbrio narrativo em seu elenco.

Mais importante, ele prova que continua com o olhar apuradíssimo para escolher seu elenco. Ansel Elgort é Tony, fundador dos Jets que, depois de um ano na cadeia, reforma sua visão de mundo e sua intolerância com quem ele enxerga como invasor de sua terra.

É esse olhar que o faz se apaixonar por Maria, defendida com brilho pela estreante Rachel Zegler, bela, talentosa, adorável e com fogo queimando por trás de seus olhos, disposta a romper barreiras impostas por sua origem porto-riquenha.

É nos coadjuvantes, porém, que "Amor, Sublime Amor" excede. Primeiro Mike Faist, que interpreta Riff, líder dos Jets que exala raiva, frustração e violência, predicados que disparam as viradas na trama. Sua contraparte é David Alvarez, que no papel de Bernardo, irmão de Maria e líder dos Sharks, também deixa que sua fúria sobrepuje a razão.

Mas o filme indubitavelmente pertence a Ariana DeBose. Nessa tragédia encenada em uma Nova York em meio a uma reforma que deixará pobres mais pobres e ricos mais ricos, ela é dinamite como Anita. Namorada de Bernardo. Amiga de Maria. A única que pode enxergar cada ponto de ebulição nesse recorte do West Side e, dependendo de sua decisão, apagar o fogo ou acender o pavio.

Em um musical já vibrante com cores, música e paixão desenfreada, Anita é o elemento mais livre, mais arrebatador e mais hipnotizante. É também a protagonista dos momentos dramáticos mais decisivos da história. Do lado de cá, compramos seus conflitos sem pestanejar porque Ariana DeBose é uma força da natureza.

Não é ao acaso que ela defende Anita, papel que deu o Oscar a Rita Moreno na versão de 1961. A atriz foi convidada por Spielberg não só para coroar seu trabalho com respeito e credibilidade, mas também para ajudar a guiar os rumos da produção nos bastidores. Uma lenda que mostra-se inestimável.

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Rita Moreno, a guardiã da chama de 'Amor, Sublime Amor'
Imagem: 20th Century Studios

Na frente das câmeras Rita dá vida a Valentina, que acolhe e acredita em uma mudança real em Tony. Ela é uma das contribuições do roteirista Tony Kushner (que trabalhou com Spielberg em "Munique" e em "Lincoln") para dar mais movimento e diversidade à história.

Em seu texto, cenas mudaram de locação, personagens ganharam motivação mais palpável - em especial Tony, que ganha um caminho de redenção mais sólido - e a cidade de Nova York, com seus espigões e lojas chiques convivendo com a pobreza que assola a classe trabalhadora, aumenta seu protagonismo.

À frente de tudo está Steven Spielberg. Um dos cineastas mais brilhantes da história, a verdade é que há anos ele não encontrava um projeto tão alinhado com os temas que lhe são mais pessoais, em especial o retrato de uma família amarrando os pedaços para não se despedaçar.

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Jets e Sharks aumentam a tensão em 'Amor, Sublime Amor'
Imagem: 20th Century Studios

O novo século trouxe algumas obras geniais, em especial "Prenda-me Se For Capaz". De lá para cá, ele criou pérolas como "Guerra dos Mundos", "As Aventura de Tintin", "Ponte de Espiões" e até "Jogador Número Um".

Faltava a todos eles, no entanto, a fagulha que faz dele um cineasta tão especial e tão talentoso. Ao encarar seu primeiro musical, Spielberg reaprendeu uma linguagem que ele mesmo ajudou a escrever e injetou uma qualidade fantástica em uma história já imortal.

O texto de "Amor, Sublime Amor", claro, pode parecer antiquado, pertencendo a uma outra época e outra arte. Mas é a ousadia em manter uma certa ingenuidade, de sentimentos tão simples e tão verdadeiros, que coloca o novo filme em outro patamar.

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Steven Spielberg checa as coisas no set de 'Amor, Sublime Amor'
Imagem: 20th Century Studios

Claro, existe a questão do tempo. Robert Wise era um gênio, um diretor igualmente eclético que, em sua época, criou obras-primas absolutas no cinema como "O Dia Em Que a Terra Parou", "Desafio do Além" e, claro, "A Noviça Rebelde". Seu "Amor, Sublime Amor" resiste ao avanço do tempo de uma maneira que só cabe aos verdadeiros clássicos.

Spielberg, por sua vez, além do talento igualmente arrebatador traz toda evolução tecnológica que amplia o escopo de sua obra. O musical, então, vê sua câmera voar entre os escombros de uma Nova York sendo derrubada para sua reconstrução, planar por entre adolescentes apaixonados entregues à dança, capturar a luz que banha Tony e Maria como se abençoasse sua união, ao mesmo tempo que antevê a resolução de suas ações. É a história certa retornando no momento perfeito em um filme vibrante, emocionante, mágico. E, se existem motivos para que exista a tal magia do cinema, um deles certamente atende por "Amor, Sublime Amor".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL