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Pedro Antunes

Olivia Rodrigo é mais rock and roll que muito marmanjo de bandana

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

30/06/2021 13h02

Sem tempo?

  • Olivia Rodrigo lançou a versão ao vivo de Sour, o álbum de estreia dela, na noite de ontem (29).
  • O vídeo apresenta a jornada inteira (e intensa) da artista ao longo do disco, enquanto conta uma história melancólica de redenção.
  • Com músicas como Brutal e Good 4 U, ela levou o rock de volta às plataformas. Agora, Olivia Rodrigo é rock and roll?
  • Elton John, Ozzy Osbourne e Courtney Love falam sobre o que é ser rock and roll e mostram que, sim.
  • Olivia Rodrigo é rock and roll. Só não é para roqueiros.

O título não é uma provocação. É, sim, uma constatação. E não sou só eu, colunista, que estou dizendo.

Olivia Rodrigo, com seus 18 anos completados em fevereiro, publicou a versão "ao vivo" do álbum de estreia, o melancólico "SOUR", sucesso nas paradas de 2021.

Com quase 28 minutos, o vídeo é um petardo doloroso e incendiário, mas ainda teen, como é de se esperar de uma produção cujo tema é "o baile de formatura que não pude ter".

"Sour Prom" é uma quebra de estereótipos de uma noite de formatura, bastante comum nos Estados Unidos. Estes padrões ou narrativas adolescentes típicas do cinema e TV estão tão despedaçados quanto o coração que Olivia canta no álbum. A história toda leva a cantora da perda de alguém à redenção solitária, em uma jornada de amadurecimento que deixa um amargo gosto na boca.

Como Rodrigo, eu não tive um baile de formatura. Mas tive o coração quebrado algumas vezes até ter 18 anos (e outras tantas até ter os atuais 34). Por isso, de alguma maneira, Olivia Rodrigo dialoga comigo. Diferentemente de rocks considerados clássicos, tipo Guns N' Roses.

Depois de ter os 15 anos de idade, ouvir "Rocket Queen", que é uma música de sonoridade arisca e impecável sobre essa mulher, a tal "rainha", não se comunica comigo do mesmo jeito. A vontade de ouvi-la desapareceu junto com aquelas espinhas que me atazanaram até o fim da puberdade.

Mas o ponto deste texto não é atacar (muito) Axl Rose e companhia. É dizer que, goste ou não, Olivia Rodrigo é roqueira. Pode não ser a roqueira que nos acostumamos a ver, mas ela o é.

Reuni frases de ícones do rock and roll tradicional para mostrar como Olivia, suas letras movidas à energia da desilusão amorosa e a sonoridade de guitarras distorcidas e bateria apressada se encaixam no termo.

"Rock and roll é uma atitude, não um formato musical restrito. É uma forma de fazer e abordas as coisas. Escrever pode ser rock and roll, um filme pode ser rock and roll. Rock é a forma de viver a vida"
Lester Bangs

Lester é um dos mais importantes jornalistas de música da história, considerado o maior crítico de rock e tudo mais, que escreveu para revistas como Creem e Rolling Stone. Bem chique.

Segundo ele, rock é mais que o formato de baixo, guitarra, bateria e voz e a batida 4/4. Não é só velocidade e distorção, é a forma de lidar e viver com a vida.

Olivia Rodrigo é uma "atriz da Disney" e digo isso com aspas sem qualquer tom pejorativo, apenas para colocá-la em uma categoria de jovens artistas do pop que vieram deste lugar específico. De Britney Spears e Christina Aguilera a Demi Lovato e Miley Cyrus.

Em "SOUR", Olivia Rodrigo usa a "palavra com F", algo inimaginável para quem ainda tem contrato com a Casa do Mickey. Isso já é revolucionário, mas você pode pensar que é pouco.

Rodrigo não é o rock que se espera, nem a "rainha do baile" que se supõe. Ela é uma menina com defeitos, amarguras e sem medo de cantá-los junto das suas decepções por perder alguém. Em um mundo de filtros de Instagram, isso é excelente.

"Gosto de rock and roll porque para mim isso significa liberdade"
Ozzy Osbourne, no livro "Sabbath Bloody Sabbath"

Quer mais liberdade de criar um álbum que tenha influências de Taylor Swift, Kacey Musgraves, Alanis Morissette e Hayley Williams, vocalista do Paramore?

Rodrigo representa uma geração na qual a liberdade não é conquistada. Essa liberdade existe dentro de cada um, é fluída, de uma forma que as pessoas de 30 e poucos anos não entendem direito. Não há cabrestos ou amarras, uma música pode ter uma batida de trap, uma guitarra de distorcida do grunge e fazer sentido mesmo assim.

"Não sou uma mulher. Sou uma força da natureza"
Courtney Love, na biografia "The Queen of Noise"

Rodrigo não é uma mulher, é realmente também uma força da natureza digital. No Spotify, "SOUR" quebrou o recorde de maior lançamento de uma artista feminina na história da plataforma. Foram 385 milhões de streams na primeira semana.

Obviamente, Olivia emplacou todas as 11 músicas do disco na parada de músicas mais tocadas na plataforma.

E ainda viu a música "Good 4 U", muito melhor do que o melodrama de "Drivers Licence", estrear no topo do Billboard Hot 100. O site Slate, a partir desta marca, escreveu um artigo sobre como a música é o primeiro rock no topo da parada mais quente do mundo em anos.

A reportagem mostra que o punk pop de Rodrigo é o retorno do "rock" ao topo das paradas desde o surgimento da banda Fun (lembra deles?) em 2012 ou até de Nickelback, em 2002. Se você não considerar nenhum desses exemplos realmente roqueiros, o recorde da artista é ainda maior.

"Rock and roll é uma explosão nuclear nem uma realidade mundana na qual ninguém pode ser magnífico"
Kim Fowley, ex-empresário das the Runaways, em 2005

E é isso, principalmente, que Olivia Rodrigo significa. Ela é uma bomba atômica em uma realidade plastificada de uma geração Z que acha as letras de Guns N' Roses sexistas, vê o Metallica como uma banda de vovôs (com todo respeito aos avôs e avós deste Brasil, e ao Metallica, também) e vive conectada virtualmente em um mundo tiktokzado que a turma nascida nos anos 80 não tem a menor chance de entender.

Uma geração cuja faixa etária entrou em contato com as guitarras por meio das músicas de abertura de séries do Disney Channel e Nickelodeon, sabe? E para qual Blink-182 e Green Day são as bandas "essenciais".

"Onde está o meu sonho adolescente?", diz Olivia em "Brutal". Saca só esse petardo:

"And I'm so sick of 17
Where's my fucking teenage dream?
If someone tells me one more time
"Enjoy your youth, " I'm gonna cry
And I don't stick up for myself
I'm anxious and nothing can help
And I wish I'd done this before
And I wish people liked me more"

Lembra a discussão que rolou na web sobre o que é gringe, millenials versus geração Z e tudo mais?

Olivia Rodrigo está aqui para nos lembrar que ser jovem não é tão fácil e florido quanto a gente lembra. E também questiona quem diga o contrário.

Ser jovem é difícil pra cacete, ainda mais em uma sociedade ultra conectada, de relações descartáveis e de fragilidades emocionais amparadas por pílulas tarja preta.

E ela é, sim, rock and roll. Só não é para roqueiros (no sentido conservador da palavra).