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Pedro Antunes

Disco da Pabllo representa mais o Brasil do que o vira-lata caramelo

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

25/06/2021 10h32

Sem tempo?

  • Pabllo anunciou que Batidão Tropical, o novo álbum dela, seria extremamente brasileiro.
  • E a artista não mentiu. Entre músicas inéditas e covers, ela alia o forró dos anos 2000 com pop contemporâneo. Vanguarda pura!
  • É como se a Pabllo e seus produtores estivesse criando o post-pisadinha, sabe? (Sim, eu disse isso, mesmo)
  • Deliciosamente melancólico (ou melancolicamente delicioso), Batidão Tropical faz um puro suco de Brasil.
  • Tem amor, tem desamor, tem tesão, tem solidão. Tudo que você viveu nesta pandemia está retratado, de alguma maneira, neste álbum.

"Batidão Tropical", o novo álbum da Pabllo Vittar, representa mais o Brasil que vira-lata caramelo.

Mais do que boteco com mesas na rua, mais do que corote, mais do que jogar futebol com bola feita de meia, mais do que feijão guardado em pote de sorvete, mais do que descobrir a senha do wi-fi do vizinho, do que salgadinhos fritos de festa de aniversário e mais do que sushi com cream cheese e manga.

Lançado na quinta-feira (25), o novo álbum da artista é uma peça fundamental para conectar gerações do pop. Do som ouvido pela Pabllo quando infância com as texturas da música popular contemporânea.

Tem forró pra cacete aqui. É o gênero que faz esse arremate temporal, enlaça o passado, presente e futuro. Amarra as raízes do musicais de Norte e Nordeste com covers e as três músicas inéditas (as excelentes "Triste Com T", "A Lua" e "Ama Sofre Chora").

"Batidão Tropical" traz o forró retrô já eletrificado dos anos 2000 somado a forró futurista e sintético. Uma ambiguidade adorável.

Músicas de Companhia do Calypso (" nsia" e "Zap Zum" e "Bang Bang") e das bandas Batidão ("Apaixonada"), Ravelly ("Ultra Som") e Kassikó ("Não É Papel de Homem") são repaginadas dentro desta estética transformada.

Sim, Batidão Tropical é post-pisadinha, pós-forró eletrônico lo-fi que fez fama dos Barões da Pisadinha, Zé Vaqueiro, DJ Ivis, entre outros.

(Post-pisadinha. Pois é, fui longe assim.)

Aqui, Pabllo e os produtores avançam na estética que comprimiu os elementos do forró no tecladinho dançante e aliam isso com sonoridades completamente fora da caixinha.

"Ânsia", por exemplo, explode em um orgasmo guitarrístico lá pelo meio da música que roqueiros calvos de 50 anos ou mais só conseguem com uso de Viagra e muito esforço.

A introdução de "Zap Zum" parece ter saído da abertura de um anime por alguns segundos antes da entrada dos sopros mais festivos. Que loucura!

"Ultra Som" é acelerada e eletrônica, como se The Weeknd ouvisse drum'n'bass sob os efeitos de (mais) drogas estimulantes durante viagem pelo Pará.

Amarrando todas as canções, as inéditas e as covers, está um coração partido. "Batidão Tropical" é sofrido do dedão do pé ao último fio de cabelo.

"Ama Sofre Chora", apesar da campanha de marketing de gosto duvidoso (Pabllo anunciou que iria casar nas redes sociais só para promover a canção), é excelente. É daqueles refrãos debochados que só a Pabllo Vittar parece saber fazer: mesmo com todos os coloquialismos do mundo, ela faz os versos como "piranha também chora" soarem cool.

A melhor, contudo, é "Triste com T".

Menos experimental que os covers, a inédita é sofrida e sensual. "Hoje eu tô triste e com tesão", canta Pabllo. Quer que represente mais o brasileiro do que isso?

Tem nostalgia e criatividade fora da caixinha, tem amores despedaçados entremeados por cafajestagem, tem tristeza e tesão numa madrugada só.

"Batidão Tropical" é o mais puro suco de Brasil. Deliciosamente melancólico. Ou melancolicamente dançante.