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Luciana Bugni

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ex-BBBs sem máscara: eles sabem que a pandemia não acabou aqui fora?

Os ex-BBBs reunidos: no mundo deles, não há Covid - Reprodução: Instagram
Os ex-BBBs reunidos: no mundo deles, não há Covid Imagem: Reprodução: Instagram
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

04/05/2021 15h44

O Big Brother, que termina nesta terça (4), já começou com a promessa de ser o Big dos Bigs. O negócio funcionou e a edição bateu recordes de votação, de rejeição, de fanatismo e de explosão de números em redes sociais. O formato bombou, ensinou sobre homofobia, racismo e muito mais coisas das surpreendentes rasteiras de nossas emoções.

A única certeza que um participante tem quando ingressa na casa é que ele vai se tornar um ex-BBB, o que aconteceu com mais de uma dezena de pessoas, há dois dias reunidos em hotel do Rio de Janeiro, esperando a grande final.

Dentro da casa, alguém será agraciado com 1,5 milhão de reais. Mas a residência esvaziada hoje merece menos atenção do que o hotel: é lá que Rodolffo e Caio fazem suas brincadeiras juntos e mostram que são amigos até hoje. É lá que Projota e Arthur dão sequência à amizade que começaram na casa. É lá que Sarah revê Gil, seu amigo querido, e abraça a mãe do acadêmico. Tudo isso, sem máscara.

Vida que segue, pandemia que (infelizmente) segue

Eu não tenho muito o que fazer nas horas livres há mais de um ano - tudo que mais gosto de fazer está fora da minha casa, então dediquei os últimos meses a acompanhar a vida de desconhecidos num reality show. Quando eles saíram de lá, passei a segui-los no Instagram, curiosa para saber como levariam a carreira de ex-BBB.

Posso afirmar: todo mundo encontrou muita gente, recebeu visitas, viajou, curtiu a vida e os hotéis até agora. É o grande final de um trabalho cuidadoso de entretenimento, crucial para quem sai sem 1 milhão no bolso, mas mais que isso em seguidores do Instagram. É natural que dê vontade de se abraçar.

A questão é que a gente não pode abraçar as pessoas, porque estamos em uma pandemia. Se ela não existia na casa do BBB, está infelizmente muito viva aqui fora.

Não é possível deixar de se chocar com a falta de cuidados de um ex-BBB com o vírus do qual eles fugiram por três meses em uma quarentena voluntária e televisionada.

Nem pensar que todos ficaram 15 dias dentro de um hotel fazendo um isolamento para entrarem na casa livres de qualquer vestígio do virus, lá no longínquo janeiro. Tudo responsável, seguro e caro. Faz sentido. Um contaminado colocaria em risco os outros 20 confinados — o prejuízo financeiro disso junto aos patrocinadores é incalculável.

O que mudou agora?

caio não tira a máscara - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Caio tira a máscara para abraçar Gil: um influencer precisa ter ainda mais cuidado
Imagem: Reprodução Instagram

Cada vez que Caio encontra alguém, ele tira a máscara para ser mais afetivo. É muito gostoso mesmo encontrar amigos. Imagina uma situação de euforia dessas, em que você vê no mundo real pessoas com quem morou e tem a oportunidade de apresentar à família.

Quem me dera. Mas também, Deus me livre, porque o pessoal está cumprindo uma agenda complicada, pega avião quase todo dia, lida com o assédio do público e depois se encontra num quarto de hotel, se abraça sem máscara e fica ali compartilhando o mesmo ar condicionado. Perigoso.

O Brasil perde centenas de milhares de vidas graças essa afetuosidade incontrolável.

Na final num mundo livre do Covid-19

Projota, Pocah, Karol Conká e Rodolffo vão se apresentar na casa nessa noite. Lá dentro, os três finalistas não têm ideia de como está o mundo aqui fora: perdemos mais vidas no tempo em que eles passaram confinados do que no ano passado inteirinho.

A vacinação para pessoas na casa dos 30 anos está longe de ser uma realidade e é justamente a falta de cuidados com o isolamento que pode criar ambiente propício para mais variantes, dessa vez resistentes à vacina.

Queria estar num quarto de hotel com meus amigos, tocando violão e rindo e vendo chegar gente querida. Mas como tenho acesso às notícias, fico em casa. Nas raras saída às ruas, uso máscaras.

Queria também que os comentários que vão pipocar aqui embaixo estivessem certos e eu fosse só uma jornalista chata pregando o isolamento para se proteger de uma pandemia que nem existe mais.

Mais de 400 mil vidas perdidas dizem que não. A crise e a fome aumentam, o desemprego sobe, o governo segue fazendo pouco ou nada por nós.

O BBB termina hoje com a foto de amigos que se reencontram num quarto de hotel, felizes. A pandemia ainda vai durar muito tempo — também por causa de comportamentos como esse, influenciados por pessoas que tem milhões de seguidores fanáticos.

Uma pena.

Você pode discordar de mim no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL