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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Gentili, polêmica 'não diga gay' da Disney e desafios do streaming

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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

20/03/2022 04h00

As recentes polêmicas envolvendo Netflix, Disney, Globoplay e Spotify mostram que uma mudança radical está acontecendo. Possivelmente, as plataformas de streaming estão se tornando as novas redes sociais e terão de lidar com difíceis decisões sobre conteúdo e política.

Após anos apanhando de governos e imprensa ao redor do mundo e gerando indignação pública, as gigantes de tecnologia como Facebook, Google e Twitter melhoraram a moderação de conteúdo e aprimoraram seus controles internos e políticas. Além disso, a melhora no controle da distribuição de fake news fez as redes sociais perderem muito do seu apelo quando se trata de causar polêmicas ou gerar indignação pública.

Assim, a posição de bode expiatório e saco de pancadas parece cada vez mais destinada às grandes empresas de mídia e streaming.

Populistas à caça de polêmica

A polêmica envolvendo Danilo Gentili e Fábio Porchat, acusados de fazer apologia à pedofilia no filme Como se Tornar o Pior Aluno da Escola, de 2017, é um exemplo de como o streaming cresceu tanto que se tornou alvo das redes de desinformação.

Gentili, ex-aliado do governo Bolsonaro, agora é um opositor do presidente e tem sido alvo de diversos ataques. Boa parte das agressões acontecia nas redes sociais sem grandes consequências práticas. Então, por que a estapafúrdia acusação de pedofilia ganhou as páginas da imprensa? Basicamente, por envolver as gigantes Netflix e o Globoplay, da Globo, marcas bastante conhecidas do público.

Além disso, a discussão em torno do filme de Gentili levou ao debate sobre liberdade de expressão e à censura, dois temas caros à imprensa.

Vale notar que a constante presença na mídia e a capacidade de desviar o foco dos problemas de governabilidade são determinantes para o sucesso de qualquer político, mas principalmente no caso dos populistas. Com o Bolsonarismo não é diferente. Quanto mais páginas de jornal discutindo uma suposta apologia à pedofilia, menos páginas dedicadas à inflação e disparada dos preços da gasolina e botijão de gás.

Não diga gay e a Disney

Essa tendência de criar polêmicas para desviar a atenção está longe de se limitar ao Brasil. O ex-presidente americano Donald Trump foi um de seus precursores nas redes sociais e fez discípulos por todo o planeta. Na mesma semana em que o ministro da Justiça e outras autoridades brasileiras lançavam uma cruzada para censurar o filme de Gentili nas plataformas de streaming, nos Estados Unidos, a Disney se via enrolada com os populistas de esquerda e direita.

No início do ano, Bob Chapek, novo CEO da Disney, definiu que manteria a gigante de mídia afastada da política. A ideia era evitar controvérsias e focar nos negócios, evitando confrontos internos e com políticos. O plano foi um fiasco e causou o efeito oposto.

Após a Flórida aprovar uma lei apelidada de "Don't Say Gay" (Não Diga Gay), Chapek foi obrigado a se posicionar e explicar por que a empresa não agiu para barrar a passagem da legislação, já que muitos políticos que votaram a favor receberam doações da Disney, que emprega mais de 80 mil pessoas somente na Flórida. O executivo disse que a empresa "preferia agir nos bastidores", o que causou a ira da direita e esquerda.

A lei, que para muitos é inconstitucional, foi atacada até pelo presidente americano Joe Biden. Segundo os críticos da nova legislação, ela ataca injustamente a comunidade LGBTQIA+ - particularmente estudantes gays e trans - e finge resolver um problema que não existe ao tentar impedir a discussão de diversidade nas escolas.

Historicamente, a Disney se tornou uma empresa de esquerda e usava seu peso para influenciar as leis, particularmente na Flórida, onde é a maior empregadora do estado. Bob Iger, que foi CEO da Disney por 15 anos antes de Chapek assumir, é um democrata atuante e já admitiu querer concorrer à Casa Branca.

Iger usava o peso da Disney para, por exemplo, combater a proibição de viagens de muçulmanos aos Estados Unidos, determinada pelo presidente Trump, e barrar a legislação de aborto "batida do coração" que o estado da Geórgia propôs.

Disney tentou ficar neutra

Chapek atuou com um amadorismo pouco visto em grandes corporações e virou saco de pancada. Causou a ira de funcionários da Disney e até mesmo a Pixar, Lucas Filmes e a Marvel, empresas da Disney, se manifestaram contrárias à lei e alfinetaram a liderança do conglomerado. Há chances inclusive de Chapek não ter o contrato renovado em fevereiro de 2023.

Por outro lado, um dos apoiadores da lei, Ron DeSantis, governador da Flórida e que busca sair candidato à presidência americana nas próximas eleições, usou habilmente a confusão. DeSantis é visto com um Trump 2.0 e especialista em causar polêmicas vazias.

O governador concordou em se reunir com Chapek para em seguida denunciar a Disney como uma corporação que faz vista grossa para a China e seu regime opressor. Chapek e a Disney tentaram ficar neutros, mas acabaram engolidos por DeSantis, que usou a defesa da lei e a briga com a Disney, notória democrata, para alavancar sua imagem entre os republicanos, aumentando suas chances de ser indicado como candidato à presidência, justamente o pior cenário para a Disney.

Moral e bons costumes ou incompetência?

O ministro da Justiça do Brasil determinou que o filme de Gentili fosse retirado das plataformas, mas Netflix, Globoplay, Telecine Play, YouTube e AppleTV não cumpriram a decisão do Ministério da Justiça de censurar o filme.

O fato de o filme estar disponível em diversas as plataformas certamente facilitou a tomada de decisão das empresas, já que a negativa em grupo deu mais força à decisão, mas como seria se a obra tivesse sido produzida por uma delas ou estivesse disponível somente em uma plataforma?

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, populista e um notório opositor do movimento LGBTQIA+, já descreveu a Netflix como um canal "imoral" que "não se adequa" à sua nação. Em 2020, a Netflix cancelou um drama turco If Only após autoridades afirmarem que só autorizariam as filmagens se o personagem gay fosse tirado da trama. A série Designated Survivor também teve episódios exibidos no país censurado.

Em dezembro passado, a Netflix foi obrigada a retirar de sua plataforma na Turquia um filme espanhol chamado More the Merrier, depois que o órgão de vigilância disse que as representações de incesto e swing estavam em desacordo com os "valores da família turca".

Liberdade de expressão e responsabilidade

Recentemente, o Spotify foi duramente criticado por manter no ar o podcast de Joe Rogan, notório propagador de desinformação e com histórico de comentários racistas.

Inicialmente, a plataforma defendeu Rogan, que tem um contrato de mais de R$ 600 milhões com o Spotify. Depois, diante das crescentes críticas quando surgiu um vídeo no qual o apresentador aparece repetindo ofensas raciais dezenas de vezes, a empresa deletou diversos episódios do show de Rogan e criou às pressas uma política de moderação de conteúdo.

O fato é que quando o Spotify contrata Rogan, faz uma escolha editorial. Se a Disney não coloca em seus filmes personagens LGBTQIA+, também se posiciona politicamente. Se a Netflix deixa de produzir um filme porque há um personagem gay na trama, uma mensagem é passada ao público. Os governos e grupos de influência sabem disso e vão usar toda oportunidade que tiverem.

Netflix, Disney e Globo não são uma qualquer

Erdogan, assim como Bolsonaro e DeSantis, são ótimos em defender a moral e os bons costumes, particularmente quando seus governos enfrentam dificuldades. No Brasil, assim como na Turquia, a economia está em crise. Na Flórida, DeSantis tentou diminuir a relevância da Covid, combateu lockdowns, e basicamente criou um manual do que não fazer em uma pandemia. As UTIs lotadas no estado aumentaram consideravelmente a taxa de mortes.

O que as recentes crises enfrentadas pela Netflix, Disney, Spotify e Globo (no Brasil) mostram, é que elas não são empresas como outras. Por seu peso no imaginário popular e capacidade de influenciar audiências ao produzir e distribuir conteúdo, elas são especiais. Até mesmo a China tem atuado para aumentar sua influência no segmento audiovisual.

A Globo há anos conhece o peso e a influência que o conteúdo tem na política e nos rumos da nação, possivelmente por isso tenha sido a mais rápida e vocal em se posicionar contra a censura à Gentili. O governo Bolsonaro obviamente nunca deixou de atacar à mídia que se opõe a ele, mas o foco era na imprensa, não em conteúdo audiovisual.

O fato é que os ataques e a pressão sobre as gigantes de mídia, particularmente as digitais que estão chegando agora, só devem aumentar à medida que as redes sociais se tornam mais reguladas e "sem graça". Para os populistas, criar polêmicas é uma questão de sobrevivência. Então, Netflix, Disney, Globo e seus pares são os alvos naturais.

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