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Guilherme Ravache

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como a Rússia usa a mídia e a psicologia para enganar você

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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

13/03/2022 04h00Atualizada em 14/03/2022 16h11

Resumo da notícia

  • A guerra de desinformação causada pela invasão da Ucrânia pela Rússia pode parecer distante para o cidadão comum brasileiro, mas não é
  • Com diversas similaridades com a Rússia, o Brasil também pode ser influenciado pela máquina russa de propaganda, principalmente nas eleições
  • O Kremlin há décadas desenvolve algumas das mais avançadas técnicas de manipulação da opinião pública; e os bolsonaristas podem ter ido conhecê-las
  • Uma unidade secreta da Rússia atacou países com campanhas de desinformação como a Suécia, que este ano criou a Agência Sueca de Defesa Psicológica
  • A Rússsia teria atuado para espalhar fake news sobre vacinas e desacreditar os esforços de combate ao vírus de governos contrários a Putin
  • As sanções à Rússia impostas pelos Estados Unidos e seus aliados vão criar o maior experimento já feito na internet ao aproximar russos de chineses

São cada vez mais comuns as histórias de pais e mães russos que não acreditam nos relatos dos próprios filhos, que vivem na Ucrânia, sobre os horrores da invasão da Rússia ao país vizinho e a carnificina que está acontecendo.

A maioria dos russos vive em um universo paralelo de informação e não vê a mesma guerra que observamos no Ocidente. Para eles, a invasão da Rússia à Ucrânia é uma operação militar fácil e limitada para libertar o grato povo ucraniano dos nazistas, e com poucas baixas entre os militares ou o povo ucraniano.

Mais de dois terços dos russos apoiam a guerra e acreditam que seu país está em uma missão de paz. Uma equipe de pesquisadores independentes concluiu que 73% dos que apoiam a ação militar da Rússia na Ucrânia confiam "altamente" ou "totalmente" nas fontes oficiais. Quanto mais velha a população, maior o apoio ao governo.

A maioria das pessoas na Rússia, especialmente as mais velhas e que usam menos a internet, não tem acesso à mídia independente há anos. Assim, eles confiam nas coisas que a propaganda do governo "plantou" em suas mentes.

A principal emoção compartilhada pelos usuários russos das redes sociais, tanto aqueles a favor quanto contra a guerra, é a "simpatia pelos ucranianos", 30,4%. Apenas 2,4% dos pesquisados tem alguma crítica ou hostilidade em relação aos ucranianos. A maioria daqueles que vivem na Rússia não considera os ucranianos seus inimigos e acredita que o que o exército russo está fazendo é ajudar seu povo irmão.

Dividir para conquistar

Vladimir Putin levou a Rússia ao totalitarismo. Fechou o que restava da mídia independente e criminalizou qualquer discurso diferente daquele divulgado pela mídia oficial sobre a guerra. Semana passada, o parlamento russo aprovou uma lei que torna a distribuição de "fake news" sobre a guerra - ou seja, publicar qualquer coisa diferente do que o Kremlin diz - punível com até 15 anos de prisão. Isso inclui chamar a guerra de guerra. A mídia russa é obrigada a usar o termo "operação militar especial" para se referir ao que acontece na Ucrânia.

Medidas tão duras talvez explicassem o que acontece na Rússia, mas os protestos e prisões de manifestantes no país mostram que a máquina de desinformação está longe de funcionar em todas as pessoas.

A capacidade de enganar uma pessoa e fazê-la acreditar em fake news está diretamente ligada à quantidade de fontes de informação que ela consome e à confiabilidade dessa fonte. Por exemplo, no caso da Ucrânia, às vezes os russos que têm parentes vivendo no país invadido podem mudar de opinião ao ouvirem relatos dos familiares.

Variedade e qualidade das fontes

"Tudo depende de onde uma pessoa obtém suas informações e como as consome", diz Vladimir Volkov, sociólogo russo do Levada Center, à jornalista Julia Ioffe. "Se as pessoas estão acostumadas a assistir televisão ou se começaram a usar a internet recentemente, mas ainda continuam assistindo TV, então sua compreensão do mundo é que existe um Ocidente hostil que está obcecado em humilhar e enfraquecer a Rússia".

Essa limitação de fontes cria a estrutura com a qual os russos veem o mundo e esse conflito em particular. "Essas pessoas geralmente não têm nenhum desejo de buscar outras fontes de informação porque veem essas fontes como tomando partido no conflito, então por que você confiaria nelas?", conclui Volkov.

Como afirmou semana passada a jornalista russa Irina Borogan no Comitê para a Proteção dos Jornalistas no Canadá, "a propaganda sempre funcionará com as pessoas que querem ouvi-la e não se importam em verificar o que estão ouvindo" e "há muitas dessas pessoas" na Rússia.

Um ponto às vezes difícil de compreender sobre a manipulação de informação é a resistência das pessoas em admitir estarem erradas mesmo diante das evidências. "A pessoa que consome fake news sabe que existe um ponto de vista diferente e uma fonte de informação diferente, mas é uma fonte de informação inimiga e ela não quer acreditar nisso porque então toda a sua visão de mundo e tudo o que ela acreditava ser verdade desmoronariam", diz Volkov.

Outro fator é como a mentira se alastra de maneira difícil de conter. Um exemplo é a potencial influência da Rússia no Brasil.

Fake news russa no Brasil?

"Não se tem documentação ou certeza se a Rússia interferiu na eleição do presidente Bolsonaro em 2018. A avaliação é de que até aquele momento o interesse no Brasil era baixo", diz David Nemer, professor da Universidade da Virgínia e pesquisador de Harvard.

"Mas Steve Bannon (ex-estrategista-chefe da Casa Branca no governo Trump) que atua como porta-voz de Putin nos Estados Unidos, e diz que as fronteiras da Ucrânia são uma invenção, é muito seguido e ouvido pelos bolsonaristas, essa influência chega de maneira indireta", afirma Nemer.

Mas Putin também pode apoiar Bolsonaro nas próximas eleições. "Carlos Bolsonaro, que gerencia as redes sociais do presidente; e Tercio Arnaud, conhecido como chefe do gabinete do ódio, estiveram com Bolsonaro na recente visita à Rússia. Sabendo do histórico de interferência russo em eleições alheias e o papel de Carlos e Tercio na campanha de reeleição, fica claro que podem ter negociado alguma forma de cooperação".

Nemer lembra que desde a saída do Facebook, Twitter e Google da Rússia, as mensagens de apoio a Trump diminuíram consideravelmente. Então, se as sanções diminuírem ou acabarem, é possível haver uma interferência direta da Rússia no Brasil nas próximas eleições.

O Espião que Sabia Demais

Se você assistiu à ótima adaptação cinematográfica do romance de 1974 de John Le Carre, O Espião que Sabia Demais, deve lembrar que toda a trama gira em torno de um agente infiltrado no alto escalão da inteligência inglesa. O obstáculo para encontrar o espião é o próprio serviço de inteligência, que tenta se livrar do agente que busca o inimigo infiltrado. Basicamente, as lideranças do serviço secreto não queriam admitir que foram enganadas.

Em 1995, após o colapso da União Soviética, uma investigação interna da CIA revelou como, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a agência de inteligência americana havia incorporado a desinformação russa em seus próprios relatórios. Por mais de uma década, a KGB havia despachado pelo menos meia dúzia de agentes duplos que forneciam desinformações inventadas em Moscou para os agentes da agência de inteligência americana.

Entre 1986 e 1994, alguns desses dados foram rotineiramente passados em relatórios com uma faixa azul distinta para destacar sua importância. Quando os investigadores da CIA traçaram o caminho da desinformação e descobriram que os "altos oficiais da CIA eram responsáveis pelas mentiras", os agentes americanos seguiram com elas.

A CIA não foi a única. Outras agências como o FBI agiram da mesma forma. A verdade sobre a escala da operação de desinformação russa só veio à tona com o fim da Guerra Fria e a massiva fuga de espiões para os Estados Unidos, que revelaram a extensão do esquema.

Psicologia da desinformação

Como o consumo de fake news e até o comportamento das maiores agências de segurança mostram, o elemento psicológico é peça chave na distribuição de desinformação. E a Rússia sabe disso.

A agência de inteligência militar russa conhecida como GRU é a responsável pelas operações globais de desinformação do Kremlin. Entre suas muitas atividades, segundo agências americanas e britânicas de inteligência, esteve hackear e-mails do Comitê Nacional Democrata em 2016 e o envenenamento de dissidentes russos no Reino Unido.

A Unidade 54777, que responde à GRU, é peça central na guerra psicológica e de desinformação. Suas origens remontam aos anos 1970, quando os militares soviéticos estabeleceram instalações especiais de treinamento de propaganda em universidades russas com os objetivos de treinar oficiais em guerra psicológica e criar uma reserva de jornalistas soviéticos em caso de mobilização para guerras.

Nos anos 1970, as equipes de propaganda soviéticas estavam mais preocupadas em estudar seus próprios soldados para evitar revoltas internas do que propriamente desenvolver métodos para subverter a moral de inimigos estrangeiros. Era um órgão que desempenhava um papel amplamente defensivo, não ofensivo.

Mas isso mudou com o fim da União Soviética em 1991, quando o GRU e a Unidade 54777 tiveram de achar um novo propósito.

A volta do Império Russo

Segundo uma série de documentos secretos da Unidade 54777 vazados no Aquarium Leaks (Vazamentos do Aquário), com o fim da Guerra Fria as agências encontraram seu novo papel atendendo à ambição de Putin de recolocar a Rússia em posição de destaque mundial. O GRU é apontado como responsável por recrutar espiões; roubar segredos industriais, militares e atômicos; organizar tentativas de golpes e assassinatos; manter portais de desinformação disfarçados de agências de "notícias"; e como revelado por investigações nos Estados Unidos, realizar ambiciosas operações cibernéticas.

Para todas essas atividades, a Unidade 54777 fornece negações plausíveis ou molda a narrativa dessas intervenções. Qualquer meio pode ser usado para apoiar essas ações, TVs, rádios, jornais, igrejas, clubes, associações e até agências de turismo. Com o crescimento das redes sociais, a Unidade 54777 passou a atuar em conjunto com outras unidades do GRU especializadas em ataques cibernéticos para potencializar as ações.

A Unidade 54777 tem várias organizações de fachada que são financiadas por subsídios do governo russo, como institutos e supostos órgãos de pesquisa. Eles também usam veículos de mídia tradicional espalhados pelo mundo, como a rede de televisão RT e influenciam organizações de notícia independentes. Até mesmo filmes seriam influenciados pela unidade.

No início do ano, a Suécia criou a Agência Sueca de Defesa Psicológica, dedicada a combater a desinformação, principalmente de governos estrangeiros como Rússia, China e Irã. Com 45 funcionários, ela reúne acadêmicos, militares e meios de comunicação. Ela oferece apoio a municípios, empresas e organizações com o objetivo de identificar, analisar e responder a 'influências inadequadas' e outras informações enganosas.

"Pode ser uma desinformação destinada a enfraquecer a resiliência do país e à vontade da população de se defender ou influenciar indevidamente as percepções, comportamentos e tomadas de decisão das pessoas", explica a agência em seu site. "A defesa psicológica também deve fortalecer a capacidade da população de detectar e resistir a campanhas de influência e desinformação".

A Rússia e a China foram acusadas de orquestrar uma ampla campanha de desinformação para desacreditar a vacina contra a Covid-19 na Suécia.

O maior experimento da internet

A propaganda, a desinformação e o desejo dos governos de interferir em outras nações não são novidades. Mas a internet criou novas oportunidades e com dimensão nunca imaginada. Em um mundo cada vez mais polarizado, a desinformação se tornou uma poderosa arma de ataque. Agora, o conflito na Ucrânia traz novas questões.

Enquanto o Ocidente e as lideranças da Ucrânia incentivam as sanções internacionais na tentativa de pressionar Putin a uma negociação de paz, o maior experimento da história da internet está em curso na Rússia, afetando seus 145 milhões de habitantes.

A saída do Facebook, Twitter, Google e outras empresas da Rússia pode minar os ativistas pró-democracia que buscam organizar protestos contra a guerra. Além disso, os russos cada vez mais terão à disposição somente plataformas e tecnologias chinesas, que são altamente policiadas e censuradas pelo governo.

Levantamentos realizados nos últimos dias revelam que a mídia oficial chinesa intensificou o número de postagens sobre a invasão da Ucrânia com informações alinhadas com as fontes oficiais do Kremlin. Uma crescente aliança entre os dois países pode ser devastadora para a democracia. Restringir serviços online representa um dilema. Isso divide ainda mais a internet e ameaça piorar a censura e a desinformação.

Segundo Nemer, "existem três linhas de defesa contra a desinformação. A primeira é um governo forte com agências de segurança atuantes para impedir interferência estrangeira nas eleições. E isso, não teremos no Brasil por não ser do interesse de Bolsonaro. Depois precisamos ter as próprias plataformas atuando para conter a publicação e disseminação de fake news", afirma Nemer. Mas para o professor, "a maneira mais eficiente é quando as próprias pessoas buscam fontes diversificadas e confiáveis, principalmente na mídia tradicional, onde as notícias são verificadas por terceiros".

Entender como os russos atuam e como funciona a mais avançada máquina de desinformação do mundo pode ajudar você a não cair em fake news e evitar que no futuro aconteça no Brasil o que aconteceu na Rússia.

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