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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem hegemonia no futebol e cortando custos, Globo joga duro e se adapta

Colunista do UOL

25/03/2023 04h00

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Não é segredo que a queda do faturamento das TVs e o crescimento dos custos de licenciamento dos direitos esportivos se tornou insustentável. Também não é segredo que o YouTube e as plataformas digitais destroçaram o modelo tradicional de mídia que por décadas tornou TVs, rádios e jornais potências.

Em boa medida, o crescimento dos custos esportivos nos últimos anos só foi possível graças à enxurrada de dinheiro "barato" no mercado, com taxas de juros baixas no mundo inteiro e dinheiro sobrando das plataformas de streaming. As plataformas "compravam" participação de mercado pagando fortunas para terem os grandes campeonatos e atrair mais audiência e assinantes mesmo com pesados prejuízos.

Mas os tempos de dinheiro fácil ficaram no passado. A crise do streaming, com a desaceleração do crescimento de assinantes, e o aumento da taxa de juros pelo mundo, levou até o Vale do Silício a uma crise, causando demissões nas big techs e até à quebra do banco SVB.

São tempos de vacas magras. Todos os grandes grupos de mídia já anunciaram medidas de cortes de custos. Da Disney à Warner Bros. Discovery, passando pela Paramount e gigantes de tecnologia como Amazon, Google e Netflix que realizaram dezenas de milhares de demissões nos últimos meses.

Um novo dia, um novo tempo

Na Globo não é diferente. O momento é de apertar o cinto. Mas seja pela crise econômica no Brasil que começou bem antes que lá fora, ou por terem enxergado mais longe, os cortes na Globo começaram há pelo menos cinco anos.

Em 2018, a Globo lançou seu projeto UmaSóGlobo "com o objetivo de estar à frente das mudanças, num contexto de transformações aceleradas nos negócios de mídia". Na prática, empresas do grupo foram unificadas, vagas extintas e diversas propriedades foram vendidas, como a gravadora Som Livre, as torres da emissora e até o prédio da empresa em São Paulo. O resultado foi uma empresa bem mais enxuta e eficiente no uso de capital.

Os cortes de custos foram agressivos, assim como as negociações de novos contratos. O futebol, uma das maiores despesas da Globo, não passou ileso. A empresa não renovou campeonatos, cortou medalhões da área de esportes e abriu mão da exclusividade, economizando centenas de milhares de reais.

Do ponto de vista do negócio, foi uma decisão acertada e o movimento dos concorrentes na mesma direção nos últimos meses, inclusive internacionais, reforça este ponto. Porém, esta estrutura mais leve também abriu a porta para novos desafios.

Sem exclusividade, é preciso ser estratégico

Galvão Bueno, Arnaldo Cézar Coelho (que iria participar mas depois cancelou), Casagrande e Tino Marcos, sinônimos de futebol na Globo transmitindo um jogo da seleção no YouTube, são um exemplo dos riscos dessa nova estratégia.

O quarteto, que ainda contará com a presença de influenciadores como Felipe Neto, repetirá o sucesso da Globo? Certamente haverá muitas matérias e buzz a respeito da novidade, mas há poucas chances que em longo prazo consigam replicar o sucesso comercial da emissora carioca, e principalmente, pagar os valores que a Globo pagava à Fifa no passado.

Para Felipe Neto, Galvão Bueno e companhia, ao levar o futebol para o streaming eles não têm nada a perder e muito a ganhar. Mas para os donos de direitos esportivos e empresas de mídia, são tempos complicados com a disparada da concorrência.

Futebol de graça pode ser tiro no pé

A Fifa e demais donos de direitos esportivos que colocam o conteúdo a preço de banana no streaming, provavelmente deram um tremendo tiro no pé. Uma vez que você baixa o preço ou oferece de graça, fica difícil convencer o usuário a pagar, como os jornais e revistas descobriram na internet ao disponibilizar o conteúdo de graça por anos.

Além disso, o mercado não está difícil somente para a Globo e demais grupos tradicionais de mídia. O YouTube semanas atrás trocou de CEO após anunciar que pela primeira vez na história seu faturamento encolheu.

A plataforma de vídeos do Google, que nos Estados Unidos também oferece uma versão paga similar à TV a cabo recheada de esportes, chamada YouTube TV, anunciou um aumento de 12% na mensalidade, indo de US$64.99 para US$72.99.

A Amazon já demitiu 18 mil funcionários e não dá sinais de parar. Nesta semana, anunciou mais 9 mil cortes. A Netflix já disse que não terá esportes ao vivo enquanto os preços não caírem.

Mesmo a poderosa Apple tirou o pé do acelerador. A dona do iPhone está adiando os bônus para algumas divisões corporativas e expandindo um esforço de corte de custos, juntando-se aos colegas do Vale do Silício na tentativa de simplificar as operações durante tempos incertos.

Gigantes de streaming como Amazon e Apple fecharam nos últimos anos contratos bilionários de longo prazo com as principais ligas esportivas americanas. A NBA parece ser a última joia da coroa disponível para novo acordo, mas diferentemente do passado, as favoritas na negociação (Disney e Warner Bros. Discovery), agora dizem que não farão loucuras para ter os jogos de basquete.

O simples fato da Disney e Warner serem favoritas na concorrência pela NBA já é um sinal de que o streaming perdeu fôlego.

Cada um se defende como pode

É dentro deste novo contexto, no qual a Globo não tem a hegemonia no futebol e abriu mão da exclusividade de muitos jogos e profissionais como Galvão Bueno, que os executivos da emissora carioca precisam navegar.

Obviamente, este novo cenário exige mudanças (muitas delas impopulares). Sem exclusividade dos campeonatos, a Globo precisa ser mais eficiente e otimizar suas propriedades. Nesta semana, por exemplo, soubemos que dois talentos vínculos a Globo foram barrados em atividades de concorrentes.

Galvão Bueno disse no podcast do Flow que ficou chateado com o fato de Arnaldo Cézar Coelho não ter sido liberado para atuar na transmissão do jogo da seleção brasileira no sábado, no YouTube. "Não era para ele trabalhar comigo. Era um momento de juntar uma dupla de 30 anos. O combinado era só fazer o jogo. Fiquei chateado, mas vamos em frente", disse Galvão. Arnaldo ainda teria o contrato de uma afiliada da Globo, o que exigia que empresa liberasse sua participação, o que não aconteceu. Galvão disse ainda que a emissora não gostou de saber que ele narraria um jogo da seleção no YouTube.

Na mesma semana, o colunista Gabriel Vaquer, do Notícias da TV, publicou que a Globo teria vetado a participação da apresentadora Carol Barcellos, repórter de esportes, em uma campanha do banco Santander associada à Champions League. A competição será transmitida no SBT, TNT e HBO Max e não seria veiculada na Globo.

Até onde apurei, a Globo nem chegou a ser consultada sobre a participação de Carol na campanha do Santander. De todo modo, de maneira alguma iria permitir. A emissora tem sido rígida no sentido de barrar a entrada de seus talentos contratados nos concorrentes pelo simples fato de não existir qualquer razão para dar munição aos adversários. Se alguém no Santander ou em alguma agência sentiu mal-estar, provavelmente não acompanha o mercado de perto.

A frustração de Galvão é compreensível. Mas do ponto de vista do negócio, não faz sentido a Globo levantar a bola do YouTube, emissoras concorrentes e nem mesmo de Galvão fora da emissora, já que na plataforma de vídeos do Google o apresentador será um novo concorrente da Globo.

Quanto menor a audiência do jogo da seleção no YouTube, melhor para a Globo. Fica mais fácil para a emissora provar para a Fifa que, mesmo pagando menos, a emissora carioca segue sendo a melhor alternativa no mercado. De quebra, ainda mostra para os talentos da casa que a vida fora da TV aberta pode ser difícil.

Ao abrir mão da exclusividade de profissionais e de campeonatos, a Globo aumentou sua eficiência e lucratividade. Por outro lado, deixou a porta aberta para novos concorrentes. Se alguém conseguirá aproveitar a oportunidade nos esportes é uma grande interrogação (na dramaturgia os concorrentes não conseguiram). Faustão é outro exemplo, logo que vazou a notícia que ele iria para a Band o apresentador foi tirado do ar na Globo antes mesmo de seu contrato terminar e sem se despedir do público.

São tempos difíceis até para a Globo. Não espere que ela facilite a vida dos concorrentes, principalmente daqueles que um dia foram ícones da vênus platinada.

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