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Cães contra a covid-19: como é o treino dos bichinhos para detectar o vírus

Cão da raça Pastor Australiano passa por treinamento para detectar covid-19 - Fernando Moraes/UOL
Cão da raça Pastor Australiano passa por treinamento para detectar covid-19
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Juliana Finardi

Colaboração para Nossa

18/12/2021 04h00

Um grupo de onze simpáticos cãezinhos está prestes a atualizar, com muito sucesso, todas as definições de fofura, inteligência, faro e, pasmem, ciência. Isso mesmo. É que, unidos a um grupo de 12 pesquisadores, os doguinhos estão sendo treinados para detectar, através do cheiro, a presença da covid-19 nos humanos.

A principal intenção dos estudos, liderados por cientistas da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), e pelo pesquisador médico Ricardo Tedeschi Matos, é produzir em laboratório o "cheiro" da covid-19 para utilizar nos treinamentos dos cães farejadores, que poderão ser destinados a triagem diagnóstica de infecções virais. Outra ideia é desenvolver aplicativos de inteligência artificial para detecção, monitoramento de pacientes e rastreamento de dados da doença.

"Cada doença tem um odor próprio. Portanto, para facilitar a formação de novos cães farejadores, verificou-se a necessidade de analisar os compostos orgânicos voláteis encontrados nas amostras de suor e ar exalado que caracterizam este 'perfume'", explica a coordenadora do grupo de pesquisa, Christiane Martins Schmidt.

Cão é treinado para detectar covid-19 em pessoas - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Cheiro sintético ajuda a treinar o faro dos cães
Imagem: Fernando Moraes/UOL

A pesquisadora ressalta a ideia do desenvolvimento deste "cheiro" sintético, uma vez que, de acordo com ela, trabalhar com amostras naturais requer uma logística complexa que pode limitar o treino de mais cães para a biodetecção.

Hora da aula

Em um centro de treinamento localizado em Campo Limpo Paulista, na região de Jundiaí (interior de São Paulo), os animais passam por várias etapas de aprendizagem desde outubro, quando os cães novatos começaram a ser treinados.

"Inicialmente, os cães são treinados em laboratório sendo utilizados polímeros especiais que importamos da França. Eles chegam impregnados por catabólitos de pessoas infectadas e também de pessoas com teste negativo para covid-19", explica Jorge Pereira, cinotécnico da Unidade K9 Internacional e especialista em cães de biodetecção e alerta médico.

O adestrador Jorge Soares treina cães para farejar pessoas contaminadas com covid-19 - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
O adestrador Jorge Pereira treina cães para farejar pessoas contaminadas com covid-19
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Na prática, os animais são ensinados a reconhecer, através do cheiro do suor dos humanos, a presença do novo coronavírus. A ideia é que, ao final dos estudos e com os resultados esperados, eles possam atuar em locais de grande concentração como shows, aeroportos, rodoviárias e até comunidades afastadas e locais de difícil acesso a rede hospitalar.

Levando em consideração os altos valores dos exames diagnósticos e tempo para entrega, os cães podem ser uma importante ferramenta de prevenção à covid-19 e suas variantes", diz Pereira.

Os "alunos" escolhidos

Com idades a partir de 1 ano e meio até 10 anos, entre os cãezinhos cientistas há representantes das raças Labrador, Pastor Australiano, Doberman, Yorkshire, Beagle, Springer Spaniel e SRD (sem raça definida). O que todos têm em comum são características como sociabilidade com pessoas e outros animais, além de comportamento amistoso.

A equipe responsável pelo treinamento dos cachorros para detectar covid-19 em pessoas - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Amáveis com pessoas e de faro implacável: os cães contra a covid e a equipe do trabalho
Imagem: Fernando Moraes/UOL

As características, aliás, foram fatores determinantes para a escolha dos animais da pesquisa. "O cão tem que ser muito sociável com pessoas e outros animais, acostumados a frequentar lugares públicos, ao transporte em veículos, aeronaves, assim como serem saudáveis", explica Pereira.

O desempenho dos doguinhos em identificar amostras contaminadas e diferenciar os casos de covid-19 de outras síndromes gripais é o que vai determinar o tempo de permanência deles na pesquisa.

Um dos bichinhos, o SRD Sinatra, de 10 anos, já é veterano no trabalho de farejador. Ele também fez parte do primeiro estudo de cães e covid-19 no Brasil, que aconteceu no ano passado e foi liderado pela UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), em parceria com a Escola Nacional Veterinária de Alfort, na França. O estudo prevê que os animais conseguem detectar precocemente casos ativos e reconhecem pessoas infectadas através do suor.

Cão da raça Beagle é treinado para detectar covid-19 em pessoas - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Cão da raça Beagle é treinado para detectar covid-19 em pessoas
Imagem: Fernando Moraes/UOL

É trabalhar brincando

Engana-se quem pensa que Sinatra já está cansado de tanto trabalho. De acordo com os treinadores, ele ainda demonstra muita energia e fareja com vigor de cão jovem. "Ele não faz mais trabalho de campo, mas em laboratório consegue desenvolver muito bem. Para ele e para outros cães, tudo isso não passa de uma divertida brincadeira de encontrar algo que escondemos", afirma Pereira.

Ainda segundo os pesquisadores, o tempo de vida operacional é observado de acordo com a saúde física e psicológica do farejador, que pode ser aposentado do trabalho caso apresente limitações que podem ser desde problemas de saúde ou até mesmo se for observado que o cãozinho não se sente à vontade e fica estressado durante os treinos de testes em laboratório. Todos são avaliados constantemente por veterinários especializados em cães de alta performance.

Para garantir que os bichinhos "divirtam-se" em serviço, os treinadores trabalham com uma técnica chamada de reforço positivo. Através dela, não há punições, apenas recompensas quando os animais apresentam o resultado esperado.

"O treinamento é realizado somente de forma motivacional e com muitos reforços positivos, afinal é impossível obrigar um cão a farejar. Ele recebe uma recompensa toda vez que sinaliza a amostra correta", diz Pereira, ao salientar que essa recompensa pode ser algum alimento, brinquedo ou ainda algo que ele realmente goste muito.

O bem-estar dos animais é uma das prioridades dos trabalhos de pesquisa, com cuidados com nutrição, ambiente, saúde física, capacidade de exercer seu comportamento natural e manter equilíbrio mental.

Antes de pensar no cão como ferramenta diagnóstica, pensamos em um animal senciente e que cria vínculos", afirma a pesquisadora Andréa do Nascimento Araújo Pratti.

O adestrador Jorge Soares treina cães para farejar pessoas contaminadas com covid-19 - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
O treinamento de cães faz parte de um esforço científico para combater a pandemia
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Respaldo da ciência

Os cientistas que atuam na pesquisa fazem questão de salientar que os trabalhos desenvolvidos são aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unimep, de acordo com a resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e pela CEUA (Comissão de Ética no Uso de Animais) da mesma instituição.

Além da Unimep, a Unicamp, Esalq/USP, Hospital Unimed de Piracicaba e Unidade K9 Internacional são as entidades que trabalham em parceria nos estudos. A reitoria da Unimep, Merieux Nutrisciences, Stu Cardans, Recicle Óleo Piracicaba, Rede Drogal, Pet Food Solution, Getxent e o próprio hospital atuam como apoiadores das pesquisas.