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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gosta de cerveja? Beba vinho. Ama vinho? Experimente cervejas

Vinho e cerveja: amigas e rivais do nosso mundo das bebidas - Getty Images
Vinho e cerveja: amigas e rivais do nosso mundo das bebidas Imagem: Getty Images
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Juliana Simon

Juliana Simon é editora-assitente de Nossa, a plataforma de lifestyle do UOL, sommelière de cervejas, mestre em estilos e especialista em harmonização pelo Instituto da Cerveja Brasil.

Colunista e editora-assistente de Nossa

24/10/2021 09h25

Você, cervejeiro, iria se surpreender com a quantidade de sommeliers de cerveja que começaram nesse mundo por conta de outra bebida. Eu mesma já falei aqui da minha inspiração, mas não contei toda a trajetória pregressa ao malte. E é por ela que acredito que adoradores de uma e outra bebida podem derrubar o muro que muitas vezes resiste entre os dois fã-clubes.

Uns três anos antes da cerveja surgir de jeito na minha vida, cheguei a estudar vinhos, num curso bacana, completo, mas que não me encantou tanto que seguisse por esse rumo. Aos 20 e poucos anos, saí de lá achando que podia falar alguma coisa de vinhos com alguma propriedade (não podia e não posso).

Nesse meio tempo, tomei vinhos por gosto alheio ou porque era o que tinha mesmo e a relação esfriou.

Minha primeira degustação como jornalista da área, por exemplo, foi traumática: senhores cuspindo em baldes, me tratando como "menina" e cantando as poucas mulheres que estavam por lá. Muy sexy (só que não).

Vinho e cerveja parecem pertencer a universos diferentes - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vinho e cerveja parecem pertencer a universos diferentes
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Em outra degustação (desta vez de gim!), um colega botou um imenso muro nos meus dois mundos: cerveja era para descontrair, cerveja artesanal era modinha e vinho era para seduzir e pensar. Isso é o que une o mais popular — o cervejeiro brabo e resistente que só toma as American Lager — com o mais arrogante — o enólfilo que encontra sabores "que só ele acha" nas taças. Curioso.

Na pandemia, uma (nova) oportunidade

Eis que nos quase anos de isolamento total, o vinho deu mais uma chance para o nosso amor.

Se a cerveja é a bebida social por excelência (até para antissociais, como eu), o vinho pode ser degustado em silêncio, sozinha ou em diminutos grupos.

Fui a algumas degustações e atrás de inspiração enófila. Tarefa complicada num universo machista até o osso — a ponto de um jornalista pedir que duas donas de uma vinícola em ascensão deixassem suas imagens ao invés da ficha dos vinhos que apresentavam por ser "mais agradável". Há muito tempo não vejo isso — pelo menos explicitamente — no meio cervejeiro e me assusta o quanto ainda é visto como normal entre enófilos.

Bebidas podem coexistir em nossos copos e taças - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Bebidas podem coexistir em nossos copos e taças
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Mas assim como no mundo cervejeiro, entre as taças de vinho também tem muitas mulheres para nunca mais largar — e nunca, mas nunca, interromper quando estão falando de vinhos: Isabelle Moreira Lima (já idolatrada por aqui), Gabriela Montaleone (que entende muito e sempre dá ótimas orientações nas redes sem afetação) e Jessica Marinzeck, que eu entrevistei tempos atrás aqui mesmo pelo blog e também é uma mestra da mistura entre vinho, conhecimento e simpatia). Anotem, sigam, aprendam.

Enófilo cervejeiro, cervejeiro enófilo

Para acabar com a birra de alguns cervejeiros mais xiitas e enófilos mais resistentes, saibam que não é de hoje que vinho e cerveja são "bebem" (ohoho) um do outro.

Se por um lado surge Garrett Oliver para falar que cerveja harmoniza mais que vinho com uma variedade enorme de comidas, por outro muitas vinícolas se rejuvenescem e alcançam novos públicos ao colocarem um pé na produção de cervejas, como foi revelado, por exemplo, pela Vinícola Campestre a jornalistas na semana passada, e como já foi realizado pela Evino no ano passado, com a Ilegal, uma cerveja que combinava 50% de cerveja lager e 50% de vinho Sauvignon.

Isso sem falar da lata, essa embalagem que vive há tempos no meio cervejeiro e que agora facilita consumo também para quem adora vinho.

Vamos dar as mãos

Em termos de copo (ou taça, como queiram), tem cerveja que lembra vinho pela acidez (Red de Flanders), outra que usa técnica de champanhe (como já falei aqui), tem IPA com toques espumantes e, mais recentemente, explodiram cervejas com explícitos toques e inspiração no vinho.

O último lançamento, por exemplo, é uma híbrida cerveja e vinho chamada Sept, da Cervejaria Dádiva, uma Belgian Strong Golden Ale envelhecida em barrica de carvalho francês apresentada em duas versões: uma com 20% de seu volume em vinho Claret Cabernet Sauvignon e outra com 40%.

Cervejas Sept, da Dádiva  - Fernanda Almeida - Fernanda Almeida
Cervejas Sept, da Dádiva
Imagem: Fernanda Almeida

Para convencer você, cervejeiro convicto, a provar o mundo dos vinhos Victor Marinho, mestre-cervejeiro e sócio da Dádiva, conta que essa mistura conquista em cheio quem busca bebidas complexas, com envelhecimento, acidez e muitas nuances de sabor.

Já para você, enófilo convicto, Victor crava que a cerveja híbrida pode ser um divisor de águas no quesito sensorial, principalmente para os menos iniciados nas cervejas selvagens de fermentações espontâneas e nos vinhos naturais.

Isso porque um perfil que pode ser bastante proeminente é o de brettanomyces, levedura selvagem que traz traços que normalmente são considerados defeitos em vinhos tradicionais, mas que são uma paixão entre os cervejeiros mais experientes"

Sentiram um desafio aí?

Lembrando em retrospecto, uma coisa salva nos tempos dos meus 20 e poucos anos: no fim, bebida é tudo igual. Pelo menos em algumas intenções. Cerveja e vinho são para fazer feliz e, por isso, merecem coexistir em nossas rotinas biriteiras.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL