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Brasileirão Feminino A1 - 2021

Histórico Corinthians x Palmeiras mostra alta do futebol feminino no Brasil

Tamires, do Corinthians, e Bruna Calderan, do Palmeiras, na decisão do Brasileirão feminino - Cristiane Mattos/CBF
Tamires, do Corinthians, e Bruna Calderan, do Palmeiras, na decisão do Brasileirão feminino Imagem: Cristiane Mattos/CBF

Maria Victoria Poli

do UOL, em São Paulo

27/09/2021 09h21

Classificação e Jogos

A frase é batida, mas certeira: não há nada como um Corinthians x Palmeiras. São mais de 100 anos de rivalidade, das origens simples nos campos de várzea aos confrontos decisivos nos modernos estádios. Mas faltava algo na história desse duelo: a final do Campeonato Brasileiro feminino, que colocou em campo jogadoras de seleção, atraiu interesse na TV aberta e em plataformas digitais e entrou para a história da modalidade no país.

Vinte e sete anos depois, as duas equipes voltaram a decidir um Brasileirão, mas agora no futebol feminino. Valia muito mais do que um troféu: para o Corinthians, a chance de conquistar o tricampeonato brasileiro, se isolar como o maior campeão nacional e fechar um mês de setembro perfeito, invicto contra o maior rival. O Palmeiras, além do inédito título, poderia se tornar a primeira equipe a vencer o adversário em sua casa e quebrar a hegemonia do time comandado por Arthur Elias.

Dentro de campo deu Corinthians. Foram quatro Dérbis em um mês, e o Alvinegro saiu invicto: vitórias por 1 a 0 e 3 a 1 nas finais do Brasileirão feminino, empate por 1 a 1 pela sexta rodada do Paulistão feminino e triunfo por 2 a 1 na 22ª rodada do Brasileirão masculino, encerrando jejum de sete jogos contra o rival.

Não faltaram golaços nessa sequência: da cobertura de Gabi Portilho, passando pela bomba de Róger Guedes e chegando à bicicleta de Vic Albuquerque. Outro também foi marcado fora das quatro linhas: a final do Brasileirão feminino de 2021 pode ser considerada o maior jogo da história da modalidade no país.

A temporada do futebol feminino brasileiro acumulou recordes. No primeiro jogo da final, transmitido na TV aberta pela Band, a audiência média foi de 3,6 pontos no Ibope na Grande São Paulo, com picos de 4,5 pontos. Durante o torneio, mais de 4 milhões de telespectadores foram alcançados. A emissora registrou crescimento de 80% de audiência na faixa noturna com o Brasileirão.

Jogadoras do Corinthians comemoram o título Brasileiro - ANDRÉ ANSELMO/ESTADÃO CONTEÚDO - ANDRÉ ANSELMO/ESTADÃO CONTEÚDO
Jogadoras do Corinthians comemoram a conquista do título do Campeonato Brasileiro Feminino após vitória sobre o Palmeiras
Imagem: ANDRÉ ANSELMO/ESTADÃO CONTEÚDO

Na TV paga, o Sportv foi responsável pela transmissão do evento e também teve números relevantes. O primeiro jogo da final, por exemplo, fez o canal esportivo liderar a audiência entre todos os canais da TV paga, com média de 1,2 ponto de média no Ibope. Nas plataformas digitais, as contas do Brasileiro feminino e do Desimpedidos no TikTok transmitiram o jogo e, juntos, atingiram mais de 300 mil espectadores únicos.

O futebol feminino começou o movimento de alta no Brasil durante a Copa do Mundo de 2019. A competição na França foi transmitida pela primeira vez em TV aberta na Rede Globo e teve índices que chamaram a atenção. Durante o torneio, 108 milhões de pessoas foram impactadas no país pelos jogos. A final, disputada entre Estados Unidos e Holanda, foi mais vista no Brasil do que em qualquer outro país de acordo com a Fifa. Falando de seleção brasileira, o jogo da eliminação para as anfitriãs, nas oitavas de final, alcançou 32 pontos de audiência em São Paulo e 30 no Rio de Janeiro.

Se os números de audiência já indicam o crescimento do interesse do público na modalidade, as arquibancadas da Neo Química Arena comprovam o fato. Mesmo sem torcedores, por conta da pandemia de covid-19, muita gente ocupava as cadeiras do setor Oeste. A CBF registrou 224 pedidos de credenciamento para a decisão do Brasileiro feminino, o dobro de pedidos para o primeiro jogo da final. O número também é quase o dobro dos pedidos de credenciamento para o Dérbi de sábado (25), pela 22ª rodada do Brasileirão masculino.

A conta não é tão complexa: mais interesse do público e mais cobertura da mídia - não necessariamente nessa ordem - resultam em desenvolvimento da modalidade. Com olhares mais atentos, patrocínios e premiações maiores a cada ano, clubes passam a investir mais, reforçam seus elencos, melhoram estruturas e, consequentemente, o nível técnico da competição aumenta. Não à toa, o projeto do Alviverde, iniciado em 2019 para adequar o clube à regra da CBF que determinou que times na Série A do Brasileiro precisavam manter equipes femininas - base e profissional - e que contratou 14 jogadoras no início desta temporada, se provou correto: o time comandado por Ricardo Belli de fato bateu de frente com o hegemônico Corinthians.

O Palmeiras chegou à fase de mata-mata em segundo lugar, atrás apenas do rival, mas absoluto e invicto: 37 pontos conquistados em 11 vitórias e quatro empates. Uma derrota e uma vitória nas quartas, dois triunfos nas semifinais e duas derrotas nas finais. O Corinthians, por sua vez, somou 38 pontos na primeira fase, com 12 vitórias, dois empates e uma derrota em 15 jogos. Na fase de mata-mata, seis jogos, seis vitórias, 20 gols marcados e quatro sofridos.

"Eu acho que essa é a maior final da história, e não é especificamente pela chegada desses dois clubes. Eu acho que é o processo de desenvolvimento, são nove anos de competição, então ano passado foi melhor que 2019, que foi melhor que 2018, então essa crescente é natural, está acontecendo de forma exponencial", disse Aline Pellegrino, gerente de competições da CBF, às "Dibradoras".

Prova de que o nível técnico do futebol feminino brasileiro vem aumentando a cada ano é que a final entre Palmeiras e Corinthians reuniu quase uma seleção em campo. A última convocação da técnica Pia Sundhage teve cinco atletas alvinegras (Andressinha, Erika, Tamires, Yasmim e Vic Albuquerque) e três palestrinas (Ary Borges, Katrine e Thaís). A treinadora esteve na Neo Química Arena para acompanhar a grande decisão.

Além da imprensa e da técnica sueca, familiares de algumas jogadoras também puderam prestigiar o duelo histórico no estádio. No silêncio de uma arena sem torcida, com espaços de alimentação fechados, lâmpadas apagadas e embrulhada em gigantescas bandeiras e mosaicos ocupando cadeiras acostumadas a cantos ferozes, apenas dois gritos quebraram o silêncio antes das atletas entrarem em campo. O primeiro veio do setor Sudoeste, um sonoro "Vai, Palmeiras!", prontamente respondido com um "Vai, Corinthians!" vindo do setor Noroeste. Mensagens de apoio de quem sempre correu junto com as protagonistas do espetáculo que vinha a seguir.

Mosaico e bandeirões da torcida do Corinthians na Neo Química Arena, antes da final do Brasileiro feminino, contra o Palmeiras - Ettore Chiereguini/Ettore Chiereguini/AGIF - Ettore Chiereguini/Ettore Chiereguini/AGIF
Vista geral da Neo Química Arena antes do clássico entre Corinthians e Palmeiras, pelo Brasileiro 2021
Imagem: Ettore Chiereguini/Ettore Chiereguini/AGIF

"Para a gente é muito importante ganhar um título aqui, porque a gente está em casa, com a nossa família, as pessoas que gostam da gente. Então é muito importante, eles abraçaram a gente da melhor maneira possível, e a gente quer oferecer isso a eles", disse Vic Albuquerque, autora do terceiro gol do Corinthians, uma pintura de bicicleta.

Importante pontuar, também, que até a arbitragem da final do Brasileirão feminino de 2021 é para ficar marcada nas páginas dessa história. Com Edina Alves Batista (FIFA-SP) e as auxiliares Neuza Inês Back (FIFA-SP) e Fabrini Bevilaqua Costa (FIFA-SP), a equipe contou ainda com o trabalho de outras cinco mulheres, inclusive na cabine do VAR, formando um time 100% feminino.

O clássico que faltava não colocou 50 mil pessoas em um estádio, mas mostrou que quando uma rivalidade fortalece toda uma modalidade, a história está sendo bem escrita.