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Nino critica protocolo da CBF contra a covid-19; entidade esclarece pontos

Caio Blois

Do UOL, no Rio de Janeiro

08/02/2021 04h00

Além do bom momento dentro de campo, Nino também se destaca no futebol pelo que faz fora dele: o zagueiro do Fluminense costuma se posicionar sobre assuntos da atualidade e é contundente nas críticas.

Em setembro, quando o Campeonato Brasileiro vivia um surto de casos de coronavírus, o jovem de 23 anos chegou firme como nas divididas com atacantes para chamar a atenção para a insegurança sanitária dos jogadores na competição com relação ao coronavírus. À época, ele não havia se contaminado pela covid-19, o que aconteceria depois. Nesta entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o defensor manteve sua opinião e: a segurança é zero no Brasileirão.

"Nós lutamos contra um vírus que não enxergamos. Não existe protocolo seguro, não há como se defender. Eu vi uma liga fazer um protocolo seguro, que foi a NBA, nas finais, com a bolha. Não me sinto seguro em momento nenhum. Tem grandes brechas no protocolo da CBF. Eu me sentia mais seguro no protocolo do Carioca. Não é uma opinião só minha, mas da maioria", opinou.

Em contato com a reportagem, a entidade máxima do futebol brasileiro esclareceu alguns pontos, explicando questões referentes ao protocolo por meio de um comunicado. Nele, a Comissão Médica Especial, criada pela CBF para garantir a eficácia e a segurança dos procedimentos, listou motivos para assegurar a confiabilidade do protocolo feito para as competições nacionais.

"A vigilância ativa por meio de testagem ampla com testes RT-PCR impediu que jogadores, mesmo assintomáticos, participassem das partidas. Os dados evidenciam a eficácia das medidas de prevenção contra a Covid-19 propostas no guia [Guia Médico de Sugestões Protetivas para o Retorno às Atividades do Futebol Brasileiro]. Precisamos manter a atenção com as medidas de proteção no cotidiano para seguir enfrentando o cenário de pandemia", afirmou o coordenador da Comissão Médica Especial e presidente da Comissão Nacional de Médicos do Futebol (CNMF), Jorge Pagura.

A Comissão destaca que foram realizados mais de 47.450 testes PCR em 1.161 partidas do Campeonato Brasileiro, além das Séries B, C e D, do Brasileirão de Aspirantes, Sub-20 e Sub-17 de 2020, durante a pandemia, e a taxa de positividade encontrada foi de 1,7%. Este foi o maior levantamento de dados referentes à pandemia de covid-19, envolvendo o futebol, no mundo: 1.742 horas de jogo, contando ainda com mais de 60 mil inquéritos epidemiológicos checados, individualmente, pela Comissão Especial.

Nino marcou três gols pelo Fluminense no Brasileiro, mas também se destaca fora de campo - Lucas Mercon/Fluminense FC - Lucas Mercon/Fluminense FC
Nino marcou três gols pelo Fluminense no Brasileiro, mas também se destaca fora de campo
Imagem: Lucas Mercon/Fluminense FC

Apesar do retorno açodado do Campeonato Carioca — inclusive com o Fluminense e seus jogadores se posicionando publicamente de maneira contrária —, Nino admite que o protocolo "Jogo Seguro", da Ferj (Federação de Futebol do Rio de Janeiro) de fato, era melhor do que da entidade máxima do futebol nacional.

"Antes do jogo, a gente tinha um teste rápido que apontava quem estava com covid. Eu me contaminei no jogo contra o Palmeiras [em novembro, pelo Brasileiro]. Um dia depois do jogo, quatro jogadores do Palmeiras testaram positivo, então eles já estavam infectados. Entendo que tenha uma explicação científica, mas não faz muito sentido. Um teste rápido no dia do jogo seria mais eficaz", afirmou.

Apesar da opinião do defensor, os testes PCR possuem uma confiabilidade superior aos exames rápidos, e por isso são utilizados pela CBF. A entidade defendeu, em quatro pontos, as conclusões do estudo feito, que auferem "importantes contribuições" para a ciência desportiva.

Nestes pontos, defende que "é seguro testar atletas e comissão técnica, antes dos jogos, através do melhor exame laboratorial, atualmente, disponível (PCR) e liberar para as partidas os jogadores assintomáticos com teste negativo, mesmo que eles tenham tido contato com um adversário que, após o jogo anterior, tenha apresentado exame positivo".

Além disso, a CBF asservera ser fundamental "afastar atletas sintomáticos com suspeita e com o covid confirmado (PCR positivo) e jogadores assintomáticos com RT-PCR positivo por 10 dias, mantendo-os em isolamento respiratório", o que evita, por exemplo, que os jogadores passem adiante o vírus para familiares e amigos. Desta maneira, a entidade acredita contribuir "para o enfrentamento da pandemia em conjunto com a sociedade brasileira, retirando do clube e do convívio social e familiar indivíduos que poderiam estar transmitindo o coronavírus".

Nino sonha com Olimpíadas e torcida na Libertadores

Enquanto torce pela vacinação em massa no país, o zagueiro concorda em dar prioridade para profissionais da saúde, idosos e pessoas com comorbidades. Já com os avós vacinados, Nino torce para que em breve todos estejam imunizados.

"Tem muitas pessoas mais expostas e com risco muito maior que nós [atletas]. Minhas duas avós foram vacinadas, e fico muito feliz. Se pudesse optar, abriria mão para que eles pudessem tomar na minha frente, meus pais também. Tem pessoas que não podem parar de trabalhar, professores, médicos que estão se arriscando, pessoas com maior idade, todos eles com certeza tem que ser os primeiros a se vacinar. A gente vai tomando cuidado e torcendo para que em breve estejamos todos imunizados", disse.

Dentro do cenário de pandemia, um dos maiores sonhos do jovem segue incerto. Após terminar o pré-olímpico como titular da seleção de André Jardine, o zagueiro nutre o sonho de disputar as Olimpíadas de Tóquio, que aconteceriam em 2020 e foram adiadas para o segundo semestre de 2021, mas ainda dependem de vacinação em massa pelo mundo.

Além do desejo esportivo, Nino vê os Jogos Olímpicos como a possibilidade de marcar uma vitória da ciência e da saúde sobre a pandemia, além do "reencontro do homem com sua liberdade", em suas palavras.

"Participar das Olimpíadas é um sonho que todo mundo tem. O primeiro passo foi a classificação, e eu como pude fazer parte alimento mais ainda esse desejo. É um momento diferente, de prudência, as vidas tem que estar em primeiro lugar. As Olimpíadas só devem ser disputadas em caso de muita gente estar vacinada, e se assim for, vai ser uma grande vitória da vida, uma grande vitória da ciência, da saúde, da superação desse momento difícil que a humanidade passou e está vencendo. Um reencontro do homem com a liberdade com a vacina, que é um momento muito esperado. Com certeza vai ser muito especial", destacou.

Nino foi titular da seleção brasileira no pré-olímpico e sonha disputar as Olimpíadas  - Lucas Figueiredo/CBF - Lucas Figueiredo/CBF
Nino foi titular da seleção brasileira no pré-olímpico e sonha disputar as Olimpíadas
Imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Outro dos sonhos de Nino é disputar a Libertadores pelo Fluminense. Mas também por conta da pandemia, a felicidade pode não ser completa, já que os torcedores não poderão acompanhar o retorno do Tricolor à competição continental após oito anos.

"Triste voltar em um momento desse, com uma classificação e não contar com o torcedor. A torcida sempre esteve do nosso lado. Em 2019, minha primeira temporada, o momento era difícil, mas eles não nos abandonaram e acreditaram até o fim, apoiando mesmo na zona de rebaixamento. Seria muito justo que eles estivessem conosco nesse momento. Infelizmente não dá, mas eles sempre estarão conosco em energia, à distância, nas redes sociais, ainda que não seja fisicamente no estádio, e vamos jogar por eles com certeza".

E se a classificação praticamente certa se confirmar, o zagueiro pode fazer mudanças no "Flusquinha", símbolo da campanha do Tricolor na temporada.

"Não tinha pensado nisso ainda. Já vi muita gente falando que ia tatuar o fusca se a gente se classificar [risos]. É uma coisa a se pensar para comemorar esse momento especial. Em breve a gente anuncia aí se isso acontece", brincou.

Com 56 pontos, o Fluminense de Nino é o 5º colocado do Campeonato Brasileiro e pode entrar no G4 se vencer o Atlético-MG, na quarta (10), às 21h30, no Maracanã. Já praticamente classificado para a Libertadores, o Tricolor que uma vaga na fase de grupos da competição, evitando o mata-mata na segunda fase, onde os brasileiros enfrentarão o Ayacucho (PER) ou o Deportivo Lara (VEN).

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