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Futebol do Fla ainda não voltou a campo

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Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

13/07/2020 09h02

O Flamengo se antecipou a todos, na volta aos treinos e aos jogos. O futebol rubro-negro, porém - aquele que encantava até os torcedores adversários, pela volúpia ofensiva e pelo talento de sobra do goleiro ao ponta-esquerda; aquele futebol de sonhos, campeão brasileiro, da Libertadores, da Supercopa do Brasil e da Recopa Sul-Americana - esse ainda não retornou da prolongada paralisação causada pela pandemia.

É verdade que, ainda assim, o Flamengo está a apenas um empate de conquistar o Carioquinha - o mais inexpressivo dos torneios que disputa este ano. Mas nem no primeiro Fla-Flu (empate em 1 a 1), nem no segundo (vitória por 2 a 1), foi capaz de jogar a bola redonda que lhe caracterizava desde que Jorge Jesus assumiu, há um ano. O que houve? Há risco real de a carruagem virar abóbora, principalmente se o treinador arrumar as malas e se mandar para o Benfica? Tal incerteza estaria contaminando o ambiente a ponto de interferir no rendimento da equipe?

Antes dos dois clássicos, havia uma unanimidade: o Flamengo era muito superior tecnicamente ao Fluminense e, portanto, deveria ganhar o título, com ou sem necessidade de finais. Em uma única partida, admitia-se, poderia até acontecer uma zebra. Em três, fatalmente, venceria o melhor. Há ainda boas chances de que isso vá ocorrer. Mas a verdade é que a torcida rubro-negra está, com razão, com a pulga atrás da orelha.

Independentemente da novela "Jesus fica ou Jesus sai", fato é que, ainda com o Mister à frente do grupo, o futebol dos principais jogadores rubro-negros murchou nesse retorno aos campos. Everton Ribeiro e Gerson, por exemplo, não têm sido nem sombra do que foram até a paralisação. A ponto de o técnico decidir barrá-los no segundo Fla-Flu.

O mesmo pode-se dizer de Gabriel, que passou a aparecer mais como garçom do que como o artilheiro mortal que todos conhecem. Até Bruno Henrique, no primeiro Fla-Flu, perdeu gols que em outros tempos faria sorrindo. E Arrascaeta, nos dois clássicos, reviveu seus tempos de vaga-lume, com poucos e efêmeros brilhos em campo.

Aquela marcação forte na saída de bola do adversário; aquela linha de zaga avançada, praticamente inexpugnável; aquele toque de bola envolvente, com tabelinhas e triangulações mortais; aquele apoio eficiente dos laterais; tudo isso esmaeceu, praticamente sumiu do jogo do Flamengo.

Sim, o adversário, no caso o Fluminense, tem seus méritos. Na primeira partida, encastelou-se em seu próprio campo e resistiu até o fim, negando espaços ao adversário e duplicando, por vezes até triplicando, a marcação no homem da bola. Na segunda, foi além. Percebendo que o bicho papão não era tão feio como pintavam, se arriscou a jogar de igual para igual e esteve bem perto da vitória - quando sofreu o segundo gol, criava boas chances para desempatar, obrigando Diego Alves a grandes defesas. Pelo que produziu no segundo Fla-Flu, o Tricolor merecia o empate. E sua vitória estaria longe de ser um absurdo.

Essa é a grande notícia para a turma das Laranjeiras. Apesar das conhecidas deficiências técnicas e financeiras do clube no qual trabalha, Odair Hellmann vai conseguindo montar um time bem organizado em termos táticos, muito esforçado e extremamente disciplinado. A ponto de já não ser mais uma surpresa se conseguir vencer a terceira partida e acabar conquistando um título que parecia improvável.

Do lado rubro-negro, quem se destacou mesmo foi Pedro, autor de dois gols - um em cada jogo. Esteve tão bem, enfrentado o time que o revelou, que a ausência de Gabigol na terceira partida (por conta de uma expulsão absolutamente infantil) nem parece tão grave, desde que Bruno Henrique possa voltar a jogar.

O mais esculhambado estadual dos últimos tempos termina na próxima quarta-feira com um último dado insólito: pela primeira vez neste campeonato o torcedor do clube mais querido do Brasil poderá ver o seu time na TV aberta (no caso, o SBT). Ganhe quem ganhar, este "carioqueta" é um capítulo triste e que merece ser esquecido na história do nosso futebol.

Executivos medrosos

Tão decididos na hora de se aliar ao presidente Bolsonaro, para fazer o futebol voltar o mais rapidamente possível e arquitetar uma Medida Provisória que alegam ser a lei áurea do futebol, os dirigentes do Flamengo parecem cordeirinhos medrosos na hora de questionar Jorge Jesus sobre o futuro. Qual a dificuldade de chamar o treinador, que assinou contrato há um mês, e perguntar-lhe francamente o que há de concreto nesse interesse do Benfica e quais são os seus planos?

É ridículo esse temor reverencial, que inverte os valores e tornam o clube refém de uma situação esdrúxula como aquela em que o colombiano Reinaldo Rueda cozinhou a diretoria anterior por quase um mês antes de deixá-la na mão, no início da temporada de 2018. Só falta repetirem o filme agora, permitindo que Jesus viaje para Portugal após o Estadual, sem saber se ele volta ou não.

Renato Maurício Prado