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Carta da Leonor

Fernando Moreno/AGIF
Imagem: Fernando Moreno/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

30/04/2020 04h00

Tenho mais de 150 anos, mas cara e corpinho de 20. Sim, estou sempre fazendo plásticas e ficando cada vez mais linda, leve, livre e solta. De quatro em quatro anos sou rebatizada. Já fui Tiento, Federale, Allen, Crack, Challenger, Telstar, Tango, Azteca, Etrusco, Questra, Tricolore, Fevernova, Teamgeist, Brazuca e, o nome que mais gosto, principalmente quando dito pelo Cid Moreira, com aquele vozeirão grosso e sexy, JABULANI...

Adorada pelo mundo inteiro, ora vejam só, sou tratada aos pontapés! É bem verdade que alguns privilegiados podem me abraçar e me tocar carinhosamente com a ponta dos dedos. Maldição dos invejosos, dizem, onde eles pisam não nasce grama. Todos, porém, podem me dar outros tipos de amasso: cabeçadas, peitadas e até barrigadas! Querem saber? Amo! E meus parceiros se deliciam com essas nossas travessuras! Não à toa, nossa paixão é a maior do planeta.

Originalmente, admito, me relacionava somente com homens. Clube do Bolinha total. Mas o tempo passou, as cabeças e os costumes mudaram e hoje em dia sou cortejada e possuída, com deleite, também pelas mulheres. Como resistir a elas? Meu namoro com Marta já rendeu seis coroas mundiais. O dobro do fenomenal romance com Ronaldo! Sim, sou volúvel. Troco de mãos (e pés) com rapidez e intensidade. Posso ser venenosa, traiçoeira, submissa, gueixa ou mulher de malandro. Por vezes, flutuo no ar, leve como uma folha seca. De qualquer forma, o importante é ser feliz.

De uns tempos pra cá, entretanto, ando triste e solitária. Essa tal de pandemia me afastou de meus amores, me tirou dos palcos e silenciou os urros das plateias apaixonadas. Logo eu, que nunca gostei de ficar só! Sou narcisista e exibicionista. Holofotes e câmeras de televisão me fazem bem. São meu habitat predileto.

Amo multidões me aplaudindo, enquanto sou tratada com carinho e lhes garanto: não há êxtase maior do que, tocada com arte e talento, ir dormir aninhada no véu da noiva, provocando a explosão das massas! Que orgasmo cósmico é espantar aquela coruja, bem lá onde ela mora!

Sei que há muita gente querendo que eu volte a rolar logo e até gostaria disso. Mas, espera aí, como podem pensar nisso enquanto caixões são empilhados e corpos contados, mundo afora? Os EUA já ultrapassaram o número de mortos em 14 anos de guerra no Vietnã! Como achar que a situação não é gravíssima?

No Brasil, a matança causada por esse maldito vírus ainda nem chegou perto do pico! Olhem pra Manaus! Vejam o que está se passando em São Paulo, no Rio, no Ceará e em Pernambuco! Infelizmente, essa tragédia ainda vai longe por aqui. Muito longe.

Confesso, nessa quarentena triste, mas importantíssima e necessária, sinto saudades até daqueles que, sem intimidade alguma, me tratam por vossa senhoria e me desferem caneladas - são brucutus dos campos. Mesmo assim, não faz nenhum sentido querer que eu volte a quicar serelepe por aí, quando isso significa aumentar os riscos para todos. Até para quem não me curte tanto assim.

Quem pensa dessa forma e insiste nesse absurdo, o faz com o bolso, não com o coração. São coveiros. Do futebol e da própria vida. Gente obtusa que insiste que isso não passa de uma "gripezinha, um resfriadozinho". Cretinos. Talvez acreditem que dá pra matar o "coronga" à bala...

Me poupem, por favor, e poupem as vidas alheias. Revoltada com a atitude irresponsável da CBF (que, após vídeo conferência com os presidentes de Federações, sugeriu a volta dos estaduais no próximo dia 17), me despeço, com uma súplica: acordem!

Assinado: a Bola. Mas pode me chamar também de Leonor, Redonda, Gorduchinha, Balão, Melão... E, claro, até de Jabulani, mas aí só se vocês tiverem a voz do Cid!

Alerta vermelho no Fla

Prestes a ser negociado com um fundo controlado pelo milionário e polêmico príncipe saudita Mohammed Bin Salman, o Newcastle, segundo os jornais ingleses, pode fazer uma proposta para o técnico Jorge Jesus, o que se transformaria numa tremenda dor de cabeça para o Flamengo. E não somente por conta da ameaça de perder o treinador, mas pelas consequências que isso ainda é capaz de causar.

Se for seduzido pelo clube inglês, que promete grande reformulação e pesados investimentos no futebol, Jesus poderá pedir a contratação de alguns dos principais jogadores rubro-negros. A começar por Gabigol.

Renova logo o contrato do homem, Marcos Braz!

Inaceitável deboche

Fervoroso defensor da volta do futebol, em meio à pandemia, o presidente da República respondeu a uma pergunta sobre o crescente número de mortes no país com um "E daí?", seguido de uma zombaria, ao dizer que se chama Messias, mas não faz milagre. Não é preciso ser parente de um dos mais de cinco mil mortos para ficar profundamente revoltado. E igualmente enojado.

Renato Maurício Prado