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O rebaixamento definitivo dos Estaduais

Everton Ribeiro em ação na partida Flamengo x Portuguesa, pelo Carioca - Thiago Ribeiro/AGIF
Everton Ribeiro em ação na partida Flamengo x Portuguesa, pelo Carioca Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

27/04/2020 04h00

Em entrevista há alguns dias, falando da possibilidade de o Campeonato Brasileiro terminar somente no início do ano que vem, invadindo datas que seriam dos estaduais, o presidente da Federação do Rio, Rubens Lopes, se saiu com uma sugestão escalafobética, que sepulta a possibilidade de se levar esses torneios à sério.

"Quanto a adentrar ao calendário de 2021, não altera em nada o Carioca. Vai ter jogo no sábado do Brasileiro? Vai ter no domingo do Estadual. Os clubes têm elenco para isso, têm número de atletas para utilizar um numa partida, um numa outra. Já aconteceu na Bahia, jogaram um dia pela Copa do Nordeste, outros pelo Estadual. No início do nosso campeonato, alguns usaram equipes mistas, não sua força principal. Pode ter dois mil campeonatos em janeiro e fevereiro, mas os jogos dos campeonatos estaduais vão seguir. Não vai atrapalhar em nada", disse Rubinho.

Em suma: na sugestão do discípulo e sucessor do Caixa D'Água, os estaduais passarão a ser disputados por equipes formadas por reservas dos reservas, como fez, aliás, o Flamengo, nas rodadas iniciais da Taça Guanabara, quando mandou a campo o seu time sub-20, que disputaria a Copa São Paulo. Ou alguém acha crível que os times que disputam a Série A (e provavelmente até os da B) vão abrir mão de jogar as últimas rodadas do Brasileiro, quando se definem o título, as vagas para a Libertadores e o rebaixamento, com o que têm de melhor?

É até compreensível que estados que não possuem representantes nas Séries A e B ainda valorizem os estaduais - embora a Copa do Nordeste, por exemplo, já os supere esportivamente e em termos de divulgação. Mas a verdade é que cada vez mais não passam de pré-temporadas. Se forem disputados concomitantemente com o Brasileiro, nem isso serão mais.

Dia do goleiro

Domingo foi dia do goleiro e eu me peguei recordando dos jogadores que mais me chamaram a atenção nessa posição. Os primeiros que vi em ação, ao vivo, foram Castilho e Marcial (dois grandes arqueiros), no Fla-Flu decisivo de 1963, mas deles tenho poucas lembranças, tão jovem eu era.

Quando começo, de fato, a me entender como gente, o primeiro gigante de que me recordo debaixo dos paus tinha os dedos completamente tortos, a cara escalavrada, chamava-se Haílton e dizia que bicho de jogo contra o Flamengo ele gastava de véspera. Sim, era Manga, monstro no gol do Botafogo e, posteriormente, no Nacional do Uruguai e no Internacional. Pegava até pensamento. Só não foi bem na seleção, na Copa de 1966. Mas, qual brasileiro conseguiu brilhar naquele Mundial? Dizem até que o Dia do Goleiro foi criado em homenagem a ele.

Depois de Manga, veio Raul, o goleiro da camisa amarela, daquele time de azul que, para surpresa do Brasil inteiro, goleou impiedosamente o Santos de Pelé, no Mineirão, e confirmou o título da Taça Brasil, no Pacaembu. Raul, campeão da Libertadores pelo Cruzeiro, repetiria a dose no Flamengo de Zico, onde ganhou também um Mundial e três brasileiros. Pegava muito o "velho" (como passou a ser chamado na Gávea).

Nesse meio-tempo, surgiu Leão. Goleiro do Palmeiras e titular da seleção nas Copas de 74 e 78, teve passagem pelo Vasco, quando acabamos nos aproximando. Polêmico e inteligente, tinha opiniões fortes sobre qualquer assunto e pegava demais. Brilhou também no Grêmio e deveria ter sido o camisa 1 na Copa da Espanha, mas a antipatia que Telê e Sócrates nutriam por ele, lhe foi fatal. Até hoje penso que ao menos um daqueles três gols de Paolo Rossi Leão teria evitado. Era muito melhor que Valdir Peres.

Praticamente na mesma época, outro paredão me chamou muito a atenção: o uruguaio Rodolfo Rodrigues, estrela do Santos entre 1984 e 1988. A série de cinco defesas que fez, num mesmo lance, contra o América de Rio Preto, no campeonato paulista, está na lista de milagres de qualquer antologia de melhores goleiros do futebol. Acabou, ironicamente, marcado também por uma bobeada antológica: ao devolver ao chão, uma bola que acabar de pegar, sem perceber que, por trás, Ronaldinho (então um garoto, no Cruzeiro) ia bater-lhe a carteira e marcar. Ossos do ofício.

De lá pra cá, impossível não citar Marcos, do Palmeiras, e Rogério Ceni, do São Paulo, ambos da seleção e ícones de seus clubes. Marcos virou São Marcos e Ceni se tornou um dos maiores batedores de faltas do nosso futebol. Dois monstros sagrados. Presenças obrigatórias em qualquer relação dos melhores arqueiros do nosso futebol. Bem como um de seus mais bem-sucedidos antecessores, Cláudio Taffarel, campeão do mundo em 94 e goleiro titular do Brasil também em 90 e 98.

Chegamos, então, a Júlio César, que pegou uma barbaridade no Flamengo e na Inter de Milão, onde foi considerado o melhor do mundo. Suas passagens pela seleção, entretanto, não deixaram saudade. Falhou feio na desclassificação contra a Holanda, em 2010, e será eternamente lembrado por estar debaixo da trave brasileira na mais humilhante derrota da história da nossa seleção: a trágica goleada por 7 a 1, diante da Alemanha, no Mineirão, na Copa de 2014. Uma pena. Sua carreira foi muito maior que esses dois maus momentos.

Dida, que antecedeu Júlio César no gol da seleção também brilhou mais no Milan do que na Copa de 2006, naquela que poderia ter sido uma das equipes mais talentosas a vestir a camisa amarela, mas se perdeu na própria fama e acabou eliminada pela França, de Zidane e Henri.

Entre os atuais, destaque absoluto para Alisson, cria do Internacional e, atualmente, uma das mais brilhantes estrelas do poderoso elenco do Liverpool dirigido por Jürgen Klopp. Na Copa da Rússia, entretanto, não chegou a fazer a diferença, característica dos grandes goleiros em Mundiais. É injusto dizer que falhou, mas também não foi capaz de impedir a eliminação diante da Bélgica.

Devo ter me esquecido de algum grande nome nessa minha relação, muito mais afetiva do que tecnicamente rigorosa. Boas lembranças serão bem-vindas nos comentários.

Em tempo: não tivesse jogado a carreira e a própria vida no lixo, Bruno, do Flamengo, certamente estaria nessa lista. Tecnicamente era um monstro. Pena que fora das quatro linhas, também...

Cala a boca, Bandeira!

Como um homem que dirigiu o clube durante oito anos, inaugurou as novas instalações do centro de treinamento do Ninho do Urubu e sabe perfeitamente que durante a sua gestão containers foram transformados em alojamentos (num primeiro momento, usados até pelos profissionais), tem o desplante de dizer que se ainda fosse o presidente "muito provavelmente a tragédia não teria acontecido"?

Um dirigente que admite que nunca soube dos vários autos de infração (embora muitas das multas recebidas tenham sido pagas), nem da inexistência do alvará obrigatório para o funcionamento das instalações, não tem direito de achar nada nessa trágica história.

Pode ser até que a gambiarra no ar-condicionado, que suspeitam ser a causa do incêndio, de fato, tenha sido feita já na administração de Landim. Mas o aluguel daquelas autênticas ratoeiras, sem saídas de emergência e equipamentos anti-incêndio decentes, aconteceu na gestão de Bandeira. Fim da história.

Renato Maurício Prado