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Rafael Reis

REPORTAGEM

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Por que o PSG mudou filosofia e agora aposta em um 'técnico retranqueiro'?

Christophe Galtier treinou a melhor defesa em 3 das 4 últimas temporadas na França - Marcio Machado/Getty Images
Christophe Galtier treinou a melhor defesa em 3 das 4 últimas temporadas na França Imagem: Marcio Machado/Getty Images
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

23/06/2022 04h00

Pelos planos do presidente do Paris Saint-Germain, Nasser Al-Khelaifi, o estrelado trio de ataque formado por Kylian Mbappé, Lionel Messi e Neymar será treinado na próxima temporada por um técnico com fama de "retranqueiro".

Apesar de ainda não ter anunciado a demissão do argentino Mauricio Pochettino, que dirige a equipe desde janeiro do ano passado e ainda tem mais 12 meses de contrato, o PSG está por detalhes de acertar a contratação do seu substituto, Christophe Galtier, atualmente no Nice.

Ex-zagueiro francês de 55 anos, ele passou a maior parte da sua trajetória no banco de reservas comandando o Saint-Étienne (2009 a 2017). Mas viu sua carreira decolar depois que se mudou para o Lille, cinco temporadas atrás.

Lá, desenvolveu um trabalho de aposta em jovens jogadores que gerou frutos como o goleiro Mike Maignan (Milan) e o artilheiro canadense Jonathan David. Taticamente, montou um time fisicamente forte, com linhas defensivas bem rígidas e contragolpes velozes como principal saída ofensiva.

A estratégia deu tão certo que o Lille conseguiu interromper a hegemonia do PSG e ser campeão francês na temporada 2020/21 graças principalmente à melhor defesa da competição (23 gols sofridos em 38 gols).

Na temporada seguinte, Galtier se transferiu para o Nice e, mesmo em seu primeiro ano de trabalho e ainda com jogadores que não conheciam tão bem sua filosofia de jogo, conseguiu novamente ter o time menos vazado da Ligue 1 (36 tentos), mas desta vez empatado com os parisienses.

Aliás, das últimas quatro temporadas da França, três tiveram equipes comandadas pelo treinador que o PSG quer como donas da melhor defesa. Ao longo desse período, seus times sofreram 119 gols, contra 123 da agremiação mais poderosa do país.

O desejo de contratar Galtier, e não um treinador badalado internacionalmente e acostumado a praticar um futebol mais ofensivo, tem a ver com uma mudança de filosofia do grupo que administra o clube.

Para o fundo de investimentos ligado ao governo do Qatar que é acionista majoritário do PSG, a política de conquistar torcedores com a contratação dos astros mais habilidosos do planeta já deu os frutos que podia dar. Agora, o importante é vencer, não importa qual o tipo de futebol praticado.

Segundo palavras de Khelaifi, o foco do clube agora é no jogo coletivo e não mais nos talentos individuais.

Apesar de ter recuperado o título francês, o PSG teve uma temporada considerada como catastrófica pelos seus donos. A equipe passou longe do sonho da inédita conquista da Liga dos Campeões da Europa (foi eliminada pelo Real Madrid nas oitavas de final) e não viu o badalado trio formado por Messi, Mbappé e Neymar emplacar.

Para muitos analistas, a razão do insucesso parisiense estava justamente na "necessidade" da escalação de três estrelas que são sabidamente pouco confortáveis em ajudar na marcação. O resultado disso foi a construção de uma equipe desequilibrada, com um bloco que só defendia para compensar as deficiências de um trio de frente que praticamente só atacava.

Por conta das críticas, Khelaifi tem colocado em curso uma verdadeira revolução no PSG. O primeiro passo foi a troca de Leonardo pelo português Luís Campos no comando do departamento de futebol. Na sequência, veio a ainda não oficializada mudança na comissão técnica.

O presidente também já tratou de ir a público dizer que não há mais espaço em Paris para jogadores que não estejam comprometidos com o futuro do time. A fala tem sido interpretada como uma espécie de mensagem direcionada a Neymar, que, por conta de problemas físicos e disciplinares, não tem conseguido disputar mais do que 50% dos compromissos da equipe nos últimos anos.