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Rafael Reis

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Todos os times grandes da Europa são clubes-empresas: verdade ou lenda?

Quem comanda o PSG, de Messi, é o governo do Qatar, representado por Nasser Al-Khelaifi - REUTERS/Sarah Meyssonnier
Quem comanda o PSG, de Messi, é o governo do Qatar, representado por Nasser Al-Khelaifi Imagem: REUTERS/Sarah Meyssonnier
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

22/12/2021 04h00

Ao criar uma SAF (Sociedade Autônoma de Futebol), transformar seu departamento de futebol em clube-empresa e negociá-lo com o ex-atacante Ronaldo, o Cruzeiro vai passar a adotar o modelo de gestão que tanto sucesso faz na Europa.

Afinal, todo mundo sabe que lá no Velho Continente as equipes de primeiro escalão são companhias que buscam primeiramente o lucro e que contam com proprietários (normalmente ricaços) capazes de fazer injeções de dinheiro para realizar contratações e pagar outras contas do dia a dia.

Mas será que é assim mesmo que o futebol do Velho Continente funciona? Ou essa história de que todo clube europeu funciona como empresa não passa de mais uma das incontáveis lendas urbanas que tanto fazem sucesso no dia a dia do futebol, como o autismo de Lionel Messi e a transexualidade de Marco Verratti?

É inegável que a maior parte dos times que disputam a primeira divisão dos cinco principais campeonatos nacionais da Europa (Inglês, Espanhol, Italiano, Alemão e Francês) funcionam exatamente nesse esquema que costumamos chamar de clube-empresa no Brasil.

O Paris Saint-Germain pertence a um fundo de investimentos ligados ao governo do Qatar. O Manchester City tem como proprietário um integrante da família que administra Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. E o Bayern de Munique possui múltiplos acionistas, como Adidas, Audi e Allianz.

Todos esses clubes podem receber aportes financeiros periódicos dos seus donos para alavancar o potencial de investimento e, consequentemente, o desempenho dentro de campo. No entanto, esse dinheiro extra não é tão volumoso assim e precisa atender às regras dos diferentes mecanismos nacionais e continentais de Fair Play Financeiro.

Mas aí vem a pergunta: quem são os donos de Real Madrid, Barcelona, Athletic Bilbao e Osasuna? Se você respondeu ninguém, está de parabéns.

Os quatro clubes da primeira divisão espanhola são associações esportivas sem fins lucrativos. Eles contam com numerosos quadros de sócios que pagam mensalidades e elegem os dirigentes (presidente e membros de comitês) que vão tomar as decisões mais importantes durante um determinado período de tempo (mandato).

Esse é exatamente o mesmo modelo adotado pela maior parte dos times brasileiros. Dos 20 participantes da última edição da Série A, 18 funcionam dessa forma (apenas Cuiabá e Red Bull Bragantino são empresas).

Fora do eixo das cinco maiores ligas europeias, os grandes times de Portugal adotam um sistema diferente de clube-empresa, que nutre algumas semelhanças com a SAF recém-autorizada no Brasil.

Benfica, Porto e Sporting continuam sendo associações esportivas com milhares de sócio. No entanto, quem administra suas equipes de futebol são companhias autônomas que cada um deles criou, as SAD (Sociedade Anônima Desportiva).

A diferença para aquilo que o Cruzeiro está fazendo é que essas empresas continuam tendo o próprio clube como acionista majoritário. Nesse cenário, a forma de capitalização adotada é a venda de participações minoritárias (ações) na Bolsa de Valores.

A compra do Cruzeiro por Ronaldo foi anunciada no último sábado. Para se tornar o primeiro proprietário da história do time mineiro, o ex-atacante que vestiu a camisa celeste entre 1993 e 1994 vai desembolsar R$ 400 milhões ao longo dos próximos cinco anos.

O aporte inicial, para a próxima temporada, será de R$ 80 milhões. Mas só uma pequena parte desse valor será investida na contratação de novos jogadores. A prioridade será reestabelecer a saúde financeira do clube e pagar as dívidas de R$ 20 milhões com o Defensor-URU e o Mazatlán-MEX que o levaram a ser punido pela Fifa e proibido de registrar novos atletas.

O Cruzeiro está na segunda divisão do Brasileiro desde 2020. Neste ano, chegou a flertar com o descenso para a Série C, mas terminou o torneio na 14ª posição, com cinco pontos de vantagem para o Remo, primeiro rebaixado.

O primeiro compromisso oficial da equipe celeste na "era Ronaldo" está previsto para o dia 26 de janeiro, data de abertura do Mineiro. A equipe dirigida por Vanderlei Luxemburgo estreia no Estadual contra a URT, em casa.