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Rafael Reis

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em processo de naturalização, Dória sonha com México na semifinal da Copa

Dória em ação pelo Santos Laguna; seu desejo é jogar pelo México - Divulgação
Dória em ação pelo Santos Laguna; seu desejo é jogar pelo México Imagem: Divulgação
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

21/11/2021 04h00

Revelado pelo Botafogo e com passagem pelo São Paulo, o zagueiro Dória está de olho na seleção. Mas, não na brasileira.

Defendendo a camisa do Santos Laguna desde 2018 e eleito o melhor defensor central do último Campeonato Mexicano, o jogador já entrou com a documentação necessária para adquirir uma nova cidadania e defender o país onde tem vivido os melhores dias de sua carreira.

O objetivo de Dória não é só jogar pela seleção mexicana, mas também disputar uma Copa do Mundo e fazer história ao levar a equipe azteca pela primeira vez a uma semifinal do torneio de futebol mais importante do planeta.

Só que esse plano não é para agora. Como ainda não completou cinco anos de residência no país, período determinado pela Fifa para aceitar processos de naturalização, o zagueiro só poderá defender o México depois da Copa do Qatar-2022.

A ideia, portanto, é esperar um pouco mais e disputar o Mundial-2026, que será disputado justamente em solo mexicano (em uma tríplice candidatura, com Estados Unidos e Canadá. Na ocasião, o defensor terá 31 anos.

"Recebo muito carinho e amor da torcida, não só do meu time, mas do México inteiro. É algo que nunca recebi em outro lugar(...). A única forma que tenho para agradecer e retribuir é jogando futebol e ajudando o México a superar o quinto jogo do Mundial", disse Dória, em entrevista exclusiva ao "Blog do Rafael Reis".

No bate-papo por telefone, o zagueiro falou ainda sobre o futuro da sua carreira, comparou a organização do futebol mexicano à estrutura da modalidade no Brasil e declarou que, mesmo à distância, continua acompanhando os passos do Botafogo.

Confira a íntegra da entrevista:

Blog do Rafael Reis - O Santos Laguna já é o clube onde você mais jogou (como profissional) em toda a carreira. Por que você resolveu fincar raízes nesse time e também no futebol mexicano?
O projeto que eles fizeram para minha carreira quando foram me buscar em Marselha [no Olympique] foi o mais importante para mim. Eles me fizeram um projeto de longo prazo. Recentemente, renovaram meu contrato até 2025. O apoio e a crença no meu jogo e no meu potencial foram o que mais contou. Eles apostaram em mim com todas as fichas. E, graças a Deus, essa parceria está indo bem para ambas as partes. Por isso, acho que vou ficar mais tempo por aqui ainda. Estou muito feliz.

Os torcedores brasileiros se surpreenderam com o Tigres no último Mundial de Clubes e acabaram percebendo que o futebol mexicano hoje tem um nível muito alto. Afinal, qual campeonato é mais forte: o Brasileiro ou o Mexicano?
São dois campeonatos jogados de forma diferente. O Brasileiro é em pontos corridos. Aqui, temos uma fase de pontos e se classificam oito. Neste ano, por causa da pandemia, estão classificando 12. É um torneio em que qualquer um dos 18 times pode sair campeão. Às vezes, você termina em primeiro no campeonato regular e é desclassificado no primeiro jogo do mata-mata porque é um outro tipo de futebol. Esse é o diferencial. A gente sabe que o Brasileiro é o campeonato mais disputado do mundo porque é uma maratona durante o ano todo. Então, quem tem o elenco mais forte, com melhores condições, acaba ganhando. São dois torneios muito fortes. Aqui no México, temos muitos jogadores de seleções sul-americanas. E isso vai fortalecendo o campeonato.

Quais são as lições que o futebol brasileiro precisa aprender com o mexicano?
O aprendizado mais importante é a organização. A maioria dos clubes, ou quase todos, é gerenciado por donos, que sabem que se algo der errado vão ter que colocar dinheiro do próprio bolso. São empresas. Então, a organização aqui é como se fosse na Europa. Não temos presidentes que são torcedores e não têm essa visão de negócio. Os salários aqui são pagos no dia certinho... às vezes, até antes. Os clubes têm ótimas estruturas e sempre cumprem o que foi combinado. Nisso, o futebol mexicano está um pouco na frente. Isso faz o jogador ficar mais feliz no ambiente de trabalho e não ter outras preocupações que não jogar futebol.

Recentemente, você começou a falar sobre a possibilidade de defender a seleção mexicana (o que só pode acontecer depois da Copa do Qatar). É esse o seu objetivo? Por quê?
Eu falei isso porque é meu sonho. A maneira como me receberam no México me fez sentir muito em casa. Recebo muito carinho e amor da torcida, não só do meu time, mas do México inteiro. É algo que nunca recebi em outro lugar. Você se sentir realmente importante em algum lugar... é algo me deixa sem palavras. A única forma que tenho para agradecer e retribuir é jogando futebol e ajudando o México a superar o quinto jogo do Mundial [chegar à semifinais]. Já demos entrada nos documentos e estamos esperando a conclusão da naturalização. Acho que indo bem dentro de campo, vou brigar por posição. Esse é o meu objetivo.

Você ainda pensa na possibilidade de um futuro retorno ao futebol brasileiro? Ou seu desejo agora é mesmo jogador no México até o fim da carreira?
A gente nunca pode fechar as portas para nada porque não sabemos como será o dia de amanhã. Da mesma forma que eu não esperava ser tão feliz no México e ter vontade de jogar aqui até o fim da carreira, com uns 35 ou 36 anos, não sei o que vai acontecer mais para frente. Hoje, eu posso falar que meu desejo é continuar aqui pelo máximo de tempo possível. Tenho objetivos no clube e no país. Quero ser o jogador mais partidas pelo Santos Laguna. Quero deixar minha marca no clube e me tornar um "Guerreiro de Honra", como eles chamam quem fez história. Meu desejo é ser uma pessoa histórica aqui na cidade.

Você foi revelado pelo Botafogo e tem uma história bem rica no clube. Ainda hoje continua acompanhando o time na Série B? Quais são as suas perspectivas como torcedor?
É um clube que tenho que agradecer por tudo. Foi quem me colocou no cenário nacional e internacional do futebol, que apostou em mim com 17 anos. Então, tenho uma gratidão e um amor enorme por ele. Estou sempre acompanhando os resultados pelas redes sociais e vi que vão voltar para a Série A, de onde nunca deviam ter saído. Mas essas coisas acontecem, fazem o clube amadurecer, dão mais experiência. Tenho amigos lá dentro, massagistas, roupeiros. Então, desejo o melhor para eles.