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Rafael Reis


Como filho de campeão mundial virou símbolo de luta antirracismo no futebol

Marcus Thuram protestou contra a morte do cidadão negro americano George Floyd, vítima da truculência da polícia de Mineápolis                              - AFP
Marcus Thuram protestou contra a morte do cidadão negro americano George Floyd, vítima da truculência da polícia de Mineápolis Imagem: AFP
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

02/06/2020 04h00

Classificação e Jogos

Marcus Thuram nasceu na Itália, passou parte da infância na Espanha, defendeu todas as seleções de base da França e joga atualmente por um clube da Alemanha.

Apesar de não ter nenhuma conexão com os Estados Unidos, o atacante de 22 anos tornou-se no fim de semana o principal rosto no futebol do movimento antirracista que eclodiu na América desde o assassinato de George Floyd, na semana passada.

O jogador do Borussia Mönchengladbach marcou duas vezes na goleada por 4 a 1 sobre o Union Berlim, domingo, pela 29ª rodada da Bundesliga. Depois do primeiro gol, ajoelhou-se no gramado para deixar claro que concorda com os pesados protestos que brotaram nos Estados Unidos depois que um homem negro morreu asfixiado por um policial branco em Minneapolis.

O gesto, inspirado nos protestos pela igualdade racial feitos pelo jogador de futebol americano e ativista de direitos civis Colin Kaepernick, rodou o mundo inteiro e, provavelmente, deixou o pai do atacante cheio de orgulho.

Marcus é filho de Lilian Thuram, ex-zagueiro e lateral direito que foi um dos destaques da França na conquista da Copa do Mundo de 1998. O defensor também brilhou no Monaco, no Parma, na Juventus e no Barcelona.

Além da carreira de sucesso nos gramados, o pai do atacante do Gladbach é também um dos maiores ativistas antirracismo que o futebol já viu. O ex-jogador possui uma fundação dedicada à educação em prol da igualdade racial e é embaixador da Unesco, a agência da ONU que cuida de educação, ciência e cultura.

Na época em que a França era governada por Nicolas Sarkozy, Lilian chegou a recusar um convite para assumir o ministério da Diversidade por considerar que o então presidente tinha um "discurso racista".

Outro alvo das críticas do ex-defensor campeão mundial em 1998 é Pelé. Dois anos atrás, durante entrevista à Sportv, ele criticou o "Rei do Futebol" por não ter se engajado no movimento negro e o acusou de ter um comportamento egoísta.

"Fico feliz e orgulhoso por você ter herdado a personalidade e o senso cívico do seu pai", escreveu, em suas redes sociais, o ex-atacante argentino Hernán Crespo, que atuou ao lado de Lilian no Parma, logo após ver o gesto de Marcus.

O camisa 10 do Gladbach e autor de 14 gols nesta temporada já foi alvo de ataques racistas quando estudava em um dos colégios mais caros e renomados da Europa. Na época, ouviu de um colega que "matemática era mais difícil para negros".

Marcus não se abateu com o comentário e assumiu para si a luta contra a discriminação que já fazia parte da história do seu pai. E, para a sorte do mundo do futebol, os Thuram não são os únicos envolvidos nesta batalha.

O fim de semana futebolístico foi cheio de manifestações em prol da campanha iniciada após a morte de George Floyd.

Na sexta-feira, o meia Weston McKennie, do Schalke 04, atuou no Campeonato Alemão usando uma faixa pedindo justiça no caso. Também na Bundesliga, o inglês Jadon Sancho, do Borussia Dortmund, festejou um gol mostrando uma mensagem aderindo ao movimento.

O astro francês Kylian Mbappé, do Paris Saint-Germain, postou em sua conta no Twitter uma mensagem com a hashtag "#JusticeForGeorge". E o elenco inteiro no Liverpool posou ontem para uma foto na mesma posição de Marcus e Kaepernick, com os joelhos no chão em protesto contra a violência aos negros.

Rafael Reis