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Rafael Reis


Política em campo: 5 times de futebol que são de esquerda

Torcida do St. Pauli, da Alemanha, em dia de protesto em favor do movimento LGBTQ+ - Divulgação
Torcida do St. Pauli, da Alemanha, em dia de protesto em favor do movimento LGBTQ+ Imagem: Divulgação
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

26/05/2020 04h00

Já houve quem dissesse que futebol e política não se misturam. Basta dar uma olhada na história do esporte mais popular do planeta para perceber que quem pensa assim está profundamente enganado.

Ao longo dos últimos 150 anos, ditadores usaram clubes populares para promover seus regimes, presidentes financiaram a construção de estádios e torcedores encontraram no futebol a forma de se expressar contra governantes.

Há clubes que são conhecidos internacionalmente por terem abraçado alguma bandeira político-ideológica. Um exemplo famoso vem de Barcelona. É impossível dissociar o movimento pela independência da Catalunha do clube que tem Lionel Messi como craque.

O "Blog do Rafael Reis" apresenta nesta semana times que não têm problema nenhum em se posicionar. Hoje, vamos mostrar cinco equipes de futebol que são de esquerda. E amanhã será a vez de apresentar cinco clubes que estão à direita no espectro político.

ST. PAULI (ALE)

Longe da primeira divisão da Alemanha desde 2011, o clube do distrito da Luz Vermelha de Hamburgo, onde realmente rola a vida noturna e também a prostituição na cidade, tem raízes anarquistas. Nas arquibancadas do Millerntor-Stadion o que mais se vê são faixas com mensagens anticapitalistas ou com a suástica nazista destruída, além de bandeiras com o arco-íris do movimento LGBTQ+. O clube passou oito anos sendo presidido por um homossexual (Corny Littman) e, desde a década de 1980, recusa-se a vender ingressos para (ou aceitar como sócios) pessoas que tenham alguma conexão com o nazifascismo.

LIVORNO (ITA)

Torcida do Livorno presta homenagem a Stalin - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Em um país com vários clubes identificados com o movimento de extrema-direita, o Livorno vai na contramão do futebol italiano. A equipe, que vive um frequente ioiô entre a primeira e a segunda divisão do Calcio, é da cidade onde o Partido Comunista Italiano foi fundado, lá na década de 1920, e mantém bem regadas suas raízes de esquerda. Até hoje, os torcedores do Livorno comemoram anualmente a data de aniversário de Joseph Stalin. O rosto do ex-ditador soviético também costuma aparecer em camisetas e faixas dos torcedores do clube, muitas vezes acompanhados da imagem do ex-guerrilheiro argentino Che Guevara. Um dos cantos mais entoados pela torcida do Livorno é o "Bandiera Rossa", canção utilizada pelo movimento operário italiano como símbolo de resistência ao governo fascista de Benito Mussolini, na primeira metade do século passado.

OLYMPIQUE DE MARSELHA (FRA)

Campeão europeu em 1993 e vencedor de nove edições do Campeonato Francês, o OM conta com a torcida com ideias de esquerda mais conhecida e temida do Velho Continente. Os integrantes do Commando Ultras 84 (CU'84), principal facção organizada do clube, definem-se como um grupo de extrema-esquerda, que é "anticapitalista, antirracista e antifascista", e que não se furta de entrar em confronto físico com torcedores organizadores de times com posição política divergente. Seu principal alvo são os ultras do Paris Saint-Germain, mais ligados à direita. Mas eles também já se meteram em brigas pesadas com torcedores do Real Madrid e da Lazio, por exemplo.

AEK ATENAS (GRE)

Campeão grego em 2018, o clube ateniense se considera "coirmão" de Livorno e Olympique de Marselha. Seu grupo de ultras mais conhecido formou uma aliança com os torcedores das equipes italiana e francesa que tem como objetivo "combater o racismo e o fascismo dos estádios na Europa". Boa parte da torcida do AEK é formada por descendentes de gregos ortodoxos que viviam na Turquia e foram retirados à força de onde viviam para retornar ao país, o que explicaria sua conexão com as ideias de esquerda. Em 2013, um jogador do clube, o Giorgos Katidis, comemorou um gol fazendo a saudação nazista. A reprovação ao ato foi tão forte que o meia-atacante foi automaticamente suspenso pela diretoria e nunca mais voltou a atuar pelo clube.

BORUSSIA DORTMUND (ALE)

Torcida do Borussia Dortmund - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O clube, originário de uma região cuja economia tradicionalmente dependia da extração de carvão e onde os sindicatos de trabalhadores alimentados por ideias de esquerda sempre foram fortes, teve um papel importante na luta contra o nazismo. Durante o Terceiro Reich, um presidente do Dortmund chegou a ser deposto por se recusar a ingressar no Partido Nazista. Além disso, funcionários do time aurinegro foram mortos por usar as instalações do clube para produzir material anti-Hitler. Nas décadas de 1980 e 1990, a equipe chegou a ter torcidas organizadas ligadas a ideias de extrema-direita, mas elas foram rapidamente sufocadas pela diretoria. Desde 2011, o Dortmund organiza excursões de torcedores a antigos campos de concentração para que eles conheçam os horrores do nazismo. Além disso, o clube participa ativamente de campanhas pela igualdade racial e por mais justiça social no mundo do futebol.

Rafael Reis