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Zagueiro colombiano foi morto por gol contra na Copa-94: verdade ou lenda?

Andrés Escobar logo após seu gol contra na Copa do Mundo de 1994 - Getty Images
Andrés Escobar logo após seu gol contra na Copa do Mundo de 1994 Imagem: Getty Images
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

21/05/2020 04h00

Em 22 de junho de 1994, Andrés Escobar anotou um gol contra que abriu o caminho para a derrota por 2 a 1 para os Estados Unidos e a eliminação da seleção colombiana ainda na fase de grupos da Copa do Mundo.

Dez dias depois do momento mais triste de sua carreira, em 2 de julho, o então zagueiro de 27 anos, que defendia o Atlético Nacional, acabou assassinado a tiros no estacionamento de uma discoteca em Medellín, cidade onde nasceu e vivia.

A conexão entre os dois fatos foi automática para a opinião pública e veio à tona antes mesmo de a polícia iniciar as investigações.

Escobar foi morto por causa do gol contra que "tirou" a Colômbia do Mundial. Foi assim que esse crime entrou para história. E é assim que ele continua sendo lembrado e passado adiante no "boca a boca" e por meio das redes sociais.

Mas será que esse foi o verdadeiro motivo do assassinato do zagueiro? Ou será que essa relação entre a falha dentro de campo e sua morte é apenas mais uma das várias lendas urbanas que tanto sucesso fazem no mundo do futebol, como o autismo de Lionel Messi e a transexualidade de Marco Verratti?

O responsável pelos tiros que matou o jogador, Humberto Muñoz Castro, foi capturado pela polícia, acabou condenado a 43 anos de prisão e ficou detido até 2005. Mesmo assim, o crime nunca foi 100% solucionado.

O que se sabe é que Escobar estava em seu carro quando começou a ser provocado por dois irmãos, Pedro David e Juan Santiago Gallón Henao, cujos nomes são ligados ao narcotráfico colombiano. Para tirar o zagueiro do sério, eles falaram do gol contra e o culparam pela eliminação.

Quando a discussão ficou mais acalorada, Muñoz Castro, que trabalhava como motorista dos irmãos e também tinha conexão com o mundo do tráfico de drogas, puxou um revólver e disparou 12 tiros contra o jogador.

No entanto, é pouco provável que o crime tenha sido decorrente apenas de um bate-boca que saiu do controle. As investigações apontaram que Escobar teve sua morte "encomendada" por apostadores que se deram mal por causa do gol contra. Só que isso nunca foi provado.

Outra versão diz que o próprio Muñoz Castro era um desses apostadores que perderam dinheiro com a falha do zagueiro e que, por isso, teria resolvido se vingar do defensor do Atlético Nacional.

Mas há ainda pelo menos mais duas razões possíveis para o crime que se tornaram bastante difundidas na Colômbia.

A primeira é que os mandantes do assassinato não tinham conexão nenhuma com o universo das apostas, mas sim que eram traficantes de drogas que estavam enfurecidos pela queda precoce da seleção no Mundial.

A segunda é que Escobar simplesmente estava no lugar errado e na hora errada. Em uma época em que Medellín era tomada pela violência do tráfico de drogas e que havia muita gente no país irritada com seu desempenho na Copa, o zagueiro cruzou com criminosos enfurecidos, que não perderam a chance de descontar a raiva que sentiam.

Mas, independentemente de qual dessas versões seja a verdadeira explicação para o crime, uma coisa parece óbvia: se o defensor não houvesse feito o gol contra ante os Estados Unidos ou se a Colômbia tivesse feito bonito no Mundial, ele provavelmente não teria sido morto.