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Mauro Cezar Pereira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dono da Havan não é o único patrocinador do futebol simpático a Bolsonaro

Luciano Hang, dono das lojas Havan, ganha "carona" em moto com o presidente - Reprodução/Twitter
Luciano Hang, dono das lojas Havan, ganha "carona" em moto com o presidente Imagem: Reprodução/Twitter
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

13/05/2021 04h00

O dono da Havan não é o único empresário que apoia Jair Bolsonaro, ou pelo menos já demonstrou simpatia por ele; e patrocina times de futebol. Existem outros que estão ao lado do presidente da República e em meio a eles quem tenha até visibilidade por intermédio de grandes clubes. Ocorre que Luciano Hang é mais radical e chama a atenção - parece fazer mesmo questão disso. Mas não se engane, outros tantos têm posicionamento bem próximo ao dele.

É comum executivos que comandam empresas grandes pensarem primeiro, e sempre, em seus negócios, antes de qualquer posição ideológica. Digamos que a posição ideológica é a que convém ao seu business. E quando transformados em dirigentes de futebol, levam essa postura para o clube. É o claro caso do Flamengo atual.

Matéria da Piauí de maio do ano passado sobre o canal de TV CNN, cuja franquia brasileira é de Rubens Menin; destaca sobre sua construtora, a MRV: "Deu seu grande salto durante os governos do PT, quando passou a ser a estrela do programa habitacional Minha Casa Minha Vida (MCMV). Em onze anos, desde a criação do MCMV até fevereiro passado, a construtora recebeu 33,98 bilhões de reais, recursos da União e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS)".

Já em dezembro de 2018, o dono da MRV, patrocinadora do Atlético Mineiro e até 2020 do Flamengo; e do Banco Inter, patrocinador do São Paulo até a temporada passada, disse em entrevista citada na mesma matéria da Piauí, assinada por Fabio Victor: "Alguns gostam de criticar os filhos do Bolsonaro. Poxa, os caras apresentam comportamento 100% ético [?] Foram eleitos e têm demonstrado grande capacidade de ajudar [?] Vamos parar de criticar."

Há pouco mais de um mês, Menin participou de jantar com o presidente da República e empresários. Ele disse após o encontro: "Foi uma conversa boa, eu gostei, me deu tranquilidade". Naquela noite, Bolsonaro foi o último a falar e teria sido "ovacionado ao se comprometer com a imunização da população, para que ela ocorra da maneira mais rápida possível", como publicou o UOL em matéria da Agência Estado assinada por Fernando Scheller, Circe Bonatelli e Mateus Fagundes.

Veja (abaixo), o resultado de uma enquete feita no Twitter e que teve mais de 35 mil participações em apenas seis horas:

Claro que uma enquete em rede social não pode ser entendida como uma pesquisa científica, mas quando 44% de 35 mil participantes dizem que não se incomodariam com a Havan patrocinando seus clubes, temos uma pequena amostra do que pensa a sociedade a respeito. Fica a sensação de que a maioria não se incomoda com a proximidade entre seu proprietário e o presidente da República.

Os que peremptoriamente rejeitaram tal possibilidade não foram além de 36%. E 63,8% pelo menos admitiram aceitar o patrocínio. Seria ingenuidade achar que dirigentes como os do Flamengo recusariam tal receita, com ampla maioria aparentemente pouco se lixando para isso.

Voltemos a 2018. Leila Pereira é dona da Crefisa e da Faculdades das Américas, FAM; que estampam suas marcas no uniforme do Palmeiras, clube do qual é conselheira. Exatos 35 dias depois de Jair Bolsonaro ser eleito presidente da República, ela o recebeu no Allianz Parque. Foi em meio às festividades do título brasileiro conquistado pelo clube naquele final de ano.

"Vejam só quem está por aqui. Bolsonaro é o primeiro Presidente a acompanhar o jogo do Verdão no Allianz Parque. Foi uma honra colocar nossa faixa de Decacampeão em nosso Presidente Jair Bolsonaro", escreveu ela em sua conta no Twitter, com uma foto de ambos com as faixas de campeão.

É evidente que Leila teve uma aproximação pontual, mas que repercutiu mal em parte da torcida. No lado de fora do estádio, palmeirenses colaram cartazes nos quais o presidente eleito aparecia vestindo camisas de vários times. Leila é provável candidata à presidência do clube no futuro.

Quanto ao Flamengo e seu novo patrocinador, algo surpreendente? A gestão de Rodolfo Landim é aquela na qual o presidente do clube se aproximou do presidente da República no primeiro momento crítico da pandemia - clique aqui e leia texto no blog publicado há um ano. É a gestão que fez o deposto governador Witzel subir no carro aberto pela conquista da Libertadores - clique aqui e leia post no blog sobre o episódio, publicado em novembro de 2019.

Pensam como muitos desses empresários, que também são. Fazem o que considerarem melhor, mais conveniente, seja o dinheiro de um patrocínio ou uma aproximação política que possa levar a algo. Algo como a concessão do Maracanã ou uma medida provisória que mude os critérios de venda de direitos de transmissão dos jogos. Não importam outros valores que vêm sendo discutidos.

Zero surpresa com a posição do Flamengo de Landim que, por sinal, esteve cotado para presidir a Petrobras no governo Dilma Rousseff. Note que existem pontos em comum entre os personagens cujos sobrenomes terminam com som de "im", a capacidade de serem aceitos em pontos ideológicos extremos.

Mas os rubro-negros não são os únicos cartolas capazes de negociar com quem quer que seja. Tanto que seu novo patrocinador está há tempos nas camisas de Vasco e Athletico. E, não esqueçamos, o dono da Havan não é o empresário solitário a apoiar Bolsonaro e que patrocina times de futebol.

A indignação de muitos é pertinente, claro, mas fica a pergunta para uma reflexão: faz sentido selecionar o empresário mais pirotecnicamente bolsonarista e ignorar os que também se alinham a ele de forma mais discreta?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL