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Frase de Bandeira sobre incêndio divide diretoria, mas gera resposta do Fla

Eduardo Bandeira de Mello acompanhando treino no CT Ninho do Urubu - Thiago Ribeiro/AGIF
Eduardo Bandeira de Mello acompanhando treino no CT Ninho do Urubu Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

21/04/2020 18h46

Em entrevista a Jorge Nicola, o ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello disse que se ainda fosse presidente, com "quase certeza" não aconteceria o incêndio no Centro de Treinamentos do clube, em 8 de fevereiro de 2019. O fogo matou dez adolescentes das divisões de base.

A resposta dividiu atuais dirigentes. Alguns queriam uma resposta firme do atual mandatário, mas inicialmente Rodolfo Landim preferiu seguir os que achavam melhor não responder seu antecessor. "Achei errado. Landim nunca falou nada contra ele", disse um aliado do presidente ao blog.

Mas a ala que defendia uma resposta ao ex-presidente ganhou a dividida e o Flamengo emitiu uma nota. Nela, frisa que "durante a gestão do ex-presidente Bandeira de Mello, o CT 'Ninho do Urubu' não possuía o alvará de funcionamento expedido pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e nem o Certificado de Aprovação emitido por parte do Corpo de Bombeiros. ".

"É o Estado da arte". Veja o discurso de Bandeira de Mello ao inaugurar módulo do CT em 2018

Na entrevista, após um hora e 38 minutos, o tema incêndio no CT foi abordado. Assim, sobre o episódio do Ninho do Urubu, o entrevistador perguntou ao ex-presidente se ele, caso ainda estivesse no cargo, já teria resolvido questão, em óbvia referência à falta de um acordo para indenizações com seis famílias e meia. Eduardo Bandeira de Mello respondeu e o seguinte diálogo foi travado:

- Olha... Bom. É... Se eu ainda fosse presidente, eu tenho quase certeza de que não aconteceria o incêndio.

- É?

- É. Eu tive lá seis anos, não aconteceu nada. E o que aconteceu ali, eu, sinceramente, como eu não tava mais lá, eu não sei é... quais fora as causas, mas eu espero que o inquérito né? E a questão toda que hoje está no Ministério Público é... chegue à verdade, porque é muito desagradável você ter inocentes sendo acusados de maneira totalmente injusta. Um deles, inclusive, sou eu. Mas é, nada que se compare... todo o sofrimento que eu e outras pessoas, que minha família teve com relação a isso, nada se compara ao sofrimento das famílias, dos pais desses meninos de perderem uma criança naquela é... situação que foi. Então, é... Na história do Flamengo não tem nada mais triste, mais vergonhoso, mais trágico do que isso. É... eu tenho certeza que esse assunto com as familias já deveria ser resolvido. Não tenho a menor dúvida disso. O Flamengo teve uma oportunidade de resolver isso logo no início, com a Defensoria e com o Ministério Público. Eu não tava mais lá, não posso fazer nada, só posso torcer e me solidarizar com as famílias.

- Bandeira, o Jorge Jesus é o melhor técnico da história do Flamengo, ou não?

Em seguida foi perguntada qual a nota do atual vice de futebol, Marcos Braz, e o que ex-presidente desejaria se achasse uma lâmpada mágica com um gênio que lhe atenderia pedidos. Bandeira respondeu que seu pedido seria a resolução da questão com as famílias dos meninos mortos. Mas o entrevistador não fez perguntas pertinentes e relevantes ao entrevistado após as polêmicas respostas. Alguns questionamentos que poderiam ter sido feitos:

O senhor inaugurou o último módulo do CT, voltado ao elenco profissional, em 30 de novembro de 2018, nove dias antes da eleição presidencial. Os meninos da base passariam, como aconteceu mais tarde, a ocupar o módulo que era do time principal até então. Mas aqueles garotos seguiram nos contêineres. Não seria melhor aguardar a conclusão dessas etapas para inaugurar?

Ricardo Lomba, da situação, enfrentaria Rodolfo Landim e o CT poderia motivar eleitores a votar em seu candidato. A inauguração foi antecipada por causa da eleição?

Veja o vídeo com o final do discurso do então candidato apoiado por Bandeira de Mello e o clima eleitoral: "Olê, olê, olê, olá. Lomba! Lomba!"

O senhor frequentava o CT quase diariamente, entrou alguma vez naquele alojamento formado por contêineres?

O senhor sabia da inexistência de alvará?

Em alguma reunião o senhor chegou a questionar demais dirigentes e funcionários envolvidos na obra se a documentação estava correta, em dia?

O seu vice-presidente de patrimônio, Alexandre Wrobel, sabia das multas aplicadas pela falta de documentação? Alguém o informou a respeito?

O Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) confirmou após o incêndio que o Flamengo não inseriu no projeto submetido à fiscalização o alojamento que pegou fogo. O senhor sabia disso? Por que a obra foi inaugurada mesmo assim?

Foram três visitas ao Ninho do Urubu em 2018, e em todas o pedido de Certificado de Aprovação (CA) acabou indeferido, segundo os Bombeiros, que listaram sete pendências: 1) layout do bloco 17; 2) posicionamento e instalação de gerador; 3) ausência de instalação de caixa d'água próxima ao eixo das bombas da casa de máquinas; 4) ausência de hidrante urbano; 5) modificação do projeto da cozinha do bloco 5; 6) modificação do projeto da cozinha do bloco 6; 7) modificação do projeto da cozinha do bloco 7. Por que inauguraram o CT mesmo assim?

Landim tomou posse de fato apenas em 1º de janeiro de 2019, 39 dias antes do incêndio ocorrido em uma estrutura que o senhor inaugurou. Como o senhor pode ter tanta certeza de que a tragédia não aconteceria se ainda fosse o presidente? O senhor teria resolvido tudo que ficou pendente por meses e meses em tão poucas semanas? O que nos faria a crer nisso após tanto tempo tocando uma obra com inúmeras irregularidades?

Em 11 de junho de 2019, a Polícia Civil do Rio de Janeiro indiciou Eduardo Bandeira de Mello e outras sete pessoas por homicídio com dolo eventual pelas mortes de 10 meninos. São eles Danilo da Silva Duarte, engenheiro da NHJ, empresa responsável pelos contêineres; Edson Colman da Silva, técnico em refrigeração; Fábio Hilário da Silva, engenheiro da NHJ; Luis Felipe Pondé, engenheiro do Flamengo; Marcelo Sá, engenheiro do clube; Marcus Vinícius Medeiros, monitor do Flamengo; Weslley Gimenes, engenheiro da NHJ.

Em maio o inquérito chegou ao 2019 GAEDEST (Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor) do MPRJ, que pediu novas diligências à Polícia Civil. Atendida a solicitação, para lá retornou há menos de dois meses. Assim, estava prevista para 20 de março a apresentação das denúncias do Ministério Público do Rio de Janeiro contra pessoas como responsáveis pelo incêndio, todavia, a paralisação de atividades diversas forçada pela pandemia de coronavírus causou adiamento, sem data prevista.

O blog mandou mensagem ao ex-presidente, com intuito de lhe enviar as perguntas acima. Contudo, ele não retornou até a publicação desse post.

Mauro Cezar Pereira