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Antero Greco


Palmeiras busca resgate do "DNA clássico"

Time do Palmeiras campeão paulista de 1996 com 102 gols marcados - Eduardo Knapp-2.jun.1996/Folhapress
Time do Palmeiras campeão paulista de 1996 com 102 gols marcados Imagem: Eduardo Knapp-2.jun.1996/Folhapress
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

06/09/2019 06h00

Está na moda falar em "DNA" de clubes. É um festival de "time tal tem DNA ofensivo", "equipe não sei qual possui DNA guerreiro", outra conta com "DNA vencedor" e assim por diante. Para mostrar que acompanho o que rola na atualidade, também vou entrar nessa.
Pois bem: o Palmeiras tem "DNA clássico".

O que isso significa? No popular, quer dizer que tem vocação para jogar bonito. Ou tinha, sei lá. Faz tempo que abandonou o estilo leve, envolvente, atrevido, sutil, de toque de bola refinado combinado com marcação implacável. Na verdade, joga um feijão com arroz com algum temperinho, e olhe lá.

A imagem glamourizada do que seria a essência do futebol palestrino não vem do nada. Embora com certo exagero, ela faz sentido e tem raízes naquilo que já foi rotina pelos lados do antigo Parque Antártica. A origem moderna desse "DNA" está nos anos 60 do século passado.

Naquela época, apareceu a primeira versão da "Academia de Futebol". Amigos, era um timaço, só cobra criada, do gol à ponta-esquerda. Valdir de Moraes, Djalma Santos, Djalma Dias, Valdemar Carabina, Zequinha (depois Dudu), Ademir, Julinho, Servílio, Vavá, Tupãzinho e outros astros sabiam como tratar o "balão de couro". Dava gosto de ver.

Não por acaso, o Palmeiras encarava o fabuloso Santos de igual para igual. Não era por sorte que faturava títulos locais, nacionais e internacionais. Os técnicos Silvio Pirillo e Filpo Nuñez moldaram aquele esquadrão e fizeram escola.

A segunda versão, nos anos 70, era também a fina flor, com Leão, Luis Pereira, Dudu, Ademir, Leivinha, César e outros astros. O comandante da época era Osvaldo Brandão, que não se caracterizava propriamente por montar times "ligeiros", mas se rendeu à qualidade do elenco. O Palmeiras era base da seleção brasileira, com Santos e Botafogo.

A versão 3 da Academia veio nos anos 90, na era Parmalat, com gente do quilate de Velloso, Marcos, Cafu, Antonio Carlos, Cléber, Zinho, Evair, Edmilson, Rincón, Edmundo, Rivaldo, Mazinho, César Sampaio, Arce. Luxemburgo e Felipão dividiram os méritos. Diversos foram campeões mundiais em 2002.

Qual a melhor versão da Academia? Escolha complicada. Na minha memória, a primeira... Mas tanto faz, o importante é que aqueles times marcaram época e ficaram gravados no inconsciente coletivo que, ainda hoje, vê o Palmeiras com "DNA clássico". E este se perdeu.

Alguém pode argumentar que são outros tempos. Não há mais possibilidade de manter estrelas de primeira grandeza, porque o mercado estrangeiro as leva embora. Concordo. Porém, com os recursos de que dispõe, e dentro da realidade de hoje, o Palmeiras tem condições de montar elenco forte, com o tal "DNA clássico". O exemplo está nas contratações que fez nos últimos anos. Estão acima da média da maioria dos rivais. (Flamengo à parte.)

A praga que atingiu o Palmeiras é a mesma de outros clubes brasileiros, ou seja, a de optar por estilo pragmático, seco, duro. Entendo que, em certos momentos, essa é a saída para se salvar ou quebrar jejum - como ocorreu em 2014 (quase volta para a Série B) e em 2016 (o título brasileiro depois de 22 anos).

Só não pode virar a "cara" definitiva. E o Palmeiras enveredou por esse caminho nos anos 2000. Deu certo ainda em 2018, com outro título (merecido) brasileiro. Porém esvaziou nesta temporada. A ponto de provocar frustrações e a queda de Felipão. O torcedor alviverde sonha com o retorno do... "DNA clássico".

Compreendo, portanto, a rejeição a Mano Menezes, associado ao tipo de jogo duro, cascudo, sem requinte. Há exagero e preconceito em relação ao treinador; mas a trajetória dele ajudou a construir essa visão.

O desafio do comandante recém-chegado ao clube é o de quebrar resistência - e isso virá se o Palmeiras mostrar futebol agradável aliado a desempenho vitorioso. Qualidade não lhe falta, tampouco bons exemplos, e aí estão Santos e Flamengo para comprovar.

Mano foi bem na entrevista de apresentação, ontem (5), e se mostrou maleável e disposto a tirar essa pecha de retranqueiro. Espero que consiga. O Palmeiras precisa e pode recuperar o "DNA clássico", acadêmico.

Antero Greco