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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como show de Luka Doncic ofuscou dilema tático dos Mavs contra os Clippers

Luka Doncic e Tim Hardaway Jr., durante a partida entre Dallas Mavericks e Los Angeles Clippers - Juan Ocampo/NBAE via Getty Images
Luka Doncic e Tim Hardaway Jr., durante a partida entre Dallas Mavericks e Los Angeles Clippers Imagem: Juan Ocampo/NBAE via Getty Images

Vitor Camargo

Colunista do UOL

04/06/2021 04h00

Uma semana atrás, escrevi sobre como o Los Angeles Clippers parecia perto do desastre. O time tinha acabado de perder dois jogos em casa para o Dallas Mavericks, não tinha mostrado ajuste ou capacidade de adaptação e parecia acuado. Embora eu tivesse destacado que a série ainda não tinha acabado, tudo parecia caminhar para mais uma eliminação precoce dos Clippers.

Mas a série seguiu para Dallas, e os Clippers voltaram à vida. Os ajustes de Lue para começar o Jogo 3 foram insuficientes e não adereçaram os principais problemas da equipe; Luka continuou atacando Zubac no pick-and-roll, e Dallas logo abriu uma vantagem de 19 pontos. Só que quando Luka foi para o banco e Lue começou a experimentar formações na tentativa de achar alguma resposta, ele acabou finalmente esbarrando na solução que era a única opção restante para os Clippers: tirar Zubac de quadra e jogar sem pivô, com um quinteto de Jackson, Paul George, Batum, Morris e Kawhi Leonard.

Eu sei que "jogar mais baixo" já virou clichê no basquete moderno sempre que um time precisa melhorar, mas é um clichê por bons motivos: colocar mais jogadores de perímetro em geral reforça criação, passe e capacidade de arremessar da equipe, espaçando mais a quadra e dando mais opções e alternativas na criação. Além disso, em um jogo cada vez mais orientado para o perímetro, você deixa em quadra mais defensores ágeis capazes de trocar a marcação ao invés de pivôs menos móveis que gostam de ficar perto da cesta.

Esses dois pontos foram fundamentais para a reação dos Clippers. Defensivamente, LA não tinha mais um alvo na forma de Zubac para Doncic atacar a cada posse; agora todos os cinco jogadores podiam trocar a marcação e ficar no esloveno sem oferecer um enorme missmatch. Assim, permitiam que o time defendesse as ações adversárias enviando menos ajuda e com uma recuperação mais ágil. Doncic ainda consegue pontuar no mano-a-mano mesmo contra os melhores defensores, mas o ajuste aumentou o nível de dificuldade e desafiou o resto dos jogadores de Dallas a criar o próprio arremesso - o que não conseguiram.

Do outro lado da quadra, isso também permitiu ao Clippers resgatar sua identidade ofensiva. O time teve um dos melhores ataques da NBA durante a temporada em parte porque teve o melhor aproveitamento nos chutes de três da história da liga (41,1%), mas essas bolas longas ainda não tinham aparecido na série. A nova escalação as trouxe de volta: agora o ataque conseguia espaçar a quadra melhor e colocar muito mais pressão sobre uma defesa mediana de Dallas, que tinha mais espaço para percorrer na hora de enviar ajuda.

Isso permitiu aos Clippers serem muito mais eficientes caçando e atacando missmatches. Sem uma ajuda bem posicionada devido ao espaçamento, Dallas foi obrigado a enviar dobras muito mais agressivas - o que permitiu que o rival resgatasse sua movimentação de bola e bombardearem de longa distância. Nos Jogos 3 e 4, o time chutou acima de 40% de trás do perímetro para igualar a série.

Esse ajuste dos Clippers tinha um fator a mais para explicar seu sucesso. Jogar tão baixo assim carrega um risco: o time fica vulnerável no garrafão contra pivôs maiores que podem explorar a diferença de altura para conseguir pontos fáceis, dominar os rebotes e forçar a defesa a colapsar no garrafão, abrindo bolas de três pontos. Mas acontece que o time de Dallas é espetacularmente mal equipado para punir esse tipo de formação: embora a equipe jogue com dois pivôs nominais em Porzingis e Kleber, os dois são jogadores voltados para o perímetro que não são capazes de explorar a vantagem de altura - especialmente Porzingis, um jogador completamente alérgico ao garrafão que é um terrível reboteiro. Apesar da vantagem de altura, o estilo e limitações dos atletas de Dallas não permitia ao time explorar esse aspecto do jogo, de modo que os Clippers podiam jogar mais baixo e colher todos os benefícios dessa estratégia sem se exporem ao lado negativo.

Com esse ajuste, os Clippers dos Jogos 3 e 4 pareceram imparáveis. A defesa estava energética e agressiva, trocando a marcação, enviando dobras e fazendo as rotações certas, e chovia bolas longas do outro lado. Era o time candidato ao título que todos esperavam desde o começo, e Dallas não teve a menor chance.

O ajuste de Rick Carlisle veio no Jogo 5. Incapaz de aproveitar a vantagem de altura que o time tinha, o técnico decidiu aumentar a aposta e fazer do seu time ainda mais alto, colocando como titular Boban Marjanovic, de 2m24 de altura. Isso significava que agora a equipe titular de Dallas tinha DOIS pivôs acima de 2m20 de altura em Boban e Porzingis, um armador de dois metros (Luka), e seu jogador mais baixo (Tim Hardaway) tinha 1m96. Segundo Chris Herring, da Sports Illustrated, esse foi o quinteto mais alto da NBA em um jogo de pós-temporada desde 2003.

A aposta funcionou? Bem, é difícil dizer. Dallas ganhou a partida depois de ser surrado no Jogo 4, então algo melhorou, mas eu pessoalmente não gostei do ajuste - e não acho que foi o fator da vitória.

Ofensivamente, colocar Boban tinha um sentido claro. Ao contrário de Kleber e Porzingis, trata-se de um pivô que PODE castigar a diferença de altura no garrafão bom reboteiro e ótimo finalizando perto do aro, ele conseguia atacar o garrafão e finalizar sem ser contestado. Os Mavs buscaram bastante Boban no começo do jogo e obrigaram o rival a usar de muitas ajudas defensivas perto do aro para evitar cestas fáceis, o que abriu espaço para o resto do ataque de Dallas.

Observe no último lance do vídeo como é Boban puxando dois defensores que abre a enterrada fácil.

Assim, Dallas buscava forçar o rival a recolocar Zubac no jogo para marcar Boban e, assim, anular a vantagem criada com o seu small ball. Ms se ofensivamente Boban causava problemas para os Clippers, na defesa ele era um gigantesco alvo: lento demais para marcar no perímetro, ficou basicamente estacionado no garrafão e fez seus colegas compensarem com uma defesa agressiva. Mas, com a formação baixa dos Clippers espaçando cinco chutadores, foi a coisa mais fácil do mundo para o time de LA rodar a bola e achar arremessos livres basicamente toda vez que queria - especialmente quando Porzingis também estava em quadra.

Dallas foi -9 nos minutos que Boban ficou em quadra, e os Clippers anotaram 132 pontos por 100 posses de bola.

Curiosamente, foi com outro pivô no lugar de Boban que os Mavericks conseguiram dominar o jogo. Dwight Powell tinha jogado só 18 minutos na série até então, mas foi sua entrada que mudou o jogo. Powell não é técnico como Boban pontuando no garrafão nem dominante nos rebotes, o que provavelmente explica porque Carlisle decidiu começar com Boban, mas é muito mais perigoso atacando a cesta verticamente após o pick-and-roll. Ele é um excelente finalizador recebendo em movimento e explosivo pegando bolas acima do aro. Por ser tão perigoso nisso, acaba puxando a ajuda defesiva do Clippers para não permitir uma infinidade de cestas fáceis, o que abre o resto do ataque de maneira semelhante ao que acontecia com Boban.

Mas diferença é que Powell conseguia ter esse efeito no ataque sem comprometer tanto na defesa. Ele não é um bom defensor, mas é muito mais atlético e móvel que Boban, e isso permite a ele sair do garrafão e ser agressivo junto do resto da defesa de Dallas. Os Clippers ainda conseguiram muitos chutes de três com Powell em quadra, mas com ele Dallas conseguia atacar e contestar muito melhor esses arremessos do que quando defendia 4-contra-5 no perímetro. Isso já foi suficiente para equilibrar melhor o duelo tático e preparar o palco para o grande protagonista da noite e da série: Luka Doncic.

Porque por mais que eu fale muito de tática aqui, quem decide em quadra são os jogadores; a tática apenas serve para colocar os jogadores nas situações ideias. A entrada de Powell ajudou Dallas a minimizar a desvantagem tática do small ball, mas o que venceu o jogo foi Luka simplesmente sendo um gênio: foram 44 pontos, 14 rebotes, seis bolas de três e +15 em quadra. Ele aproveitou o espaço adicional para colocar (de novo) a partida no bolso e carregar o Mavs nas costas até a vitória e quebrou recordes no processo: anotou ou assistiu em 83,8% das cestas dos Mavs na partida, o maior percentual de um jogo na história da NBA. Os ajustes permitiram a Luka brilhar, sem dúvida, mas não teria adiantado nada se o esloveno não correspondesse com uma das grandes performances da história dos playoffs.

Para a sorte deles, e nossa, ele correspondeu.

E que venha o Jogo 6!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL