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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como Blazers e Nuggets protagonizaram o melhor jogo dos playoffs até aqui

Damian Lillard tenta arremesso durante jogo do Portland TrailBlazers contra o Denver Nuggets nos playoffs da NBA - Matthew Stockman/Getty Images/AFP
Damian Lillard tenta arremesso durante jogo do Portland TrailBlazers contra o Denver Nuggets nos playoffs da NBA Imagem: Matthew Stockman/Getty Images/AFP

Vitor Camargo

Colunista do UOL

03/06/2021 04h00

Quando nós falamos dos grandes jogos da história da NBA, normalmente pensamos em jogos que tiveram influência sobre títulos: finais, duelos entre favoritos, jogos 7... ou seja, partidas que têm efeitos consideráveis sobre o cenário macro da NBA. Isso faz sentido, mas às vezes, faz com que alguns jogos espetaculares de menor significância acabem na história.

Eu sempre digo que meu jogo favorito da NBA foi o jogo 4 entre Dallas Mavericks e Portland Trail Blazers em 2011, quando o Blazers reverteu uma diferença de 22 pontos no quarto período com uma performance histórica de um lesionado Brandon Roy. O jogo importou no grande esquema das coisas? Certamente que não; o Blazers venceu, mas Dallas fechou a série pouco depois, e eventualmente se tornou campeão da NBA. Esse jogo 4 acabou se tornando uma nota de rodapé na campanha vitoriosa de Dallas, e pouca gente fala dele hoje em dia... mas, para quem assistiu, aquela partida deixou um impacto único e marcante, e eu lembrarei daquela virada pelo resto da minha vida.

Eu digo isso porque foi exatamente desse jogo que eu lembrei durante o espetacular jogo 5 entre Blazers e Nuggets. Por se tratar de um jogo de primeira rodada, não decisivo, entre dois times que não se espera que estejam entre candidatos ao título (no caso do Nuggets, por causa das lesões), eu receio que esse acabe indo para a mesma prateleira dos grandes jogos relativamente esquecidos da história dos playoffs... o que é uma pena, porque ele teve TUDO que você pode querer: duas prorrogações, uma recuperação de mais de 20 pontos, performance histórica e quebradora de recordes de Damian Lillard, DOIS arremessos cruciais nos segundos finais, e uma quantidade absurda de emoções e reviravoltas. Foi um dos melhores jogos de playoffs dos últimos tempos.

De um ponto de vista tático, o jogo já vinha sendo interessante o suficiente. Eu escrevi alguns dias atrás sobre a estratégia defensiva que o Blazers vinha usando na série, se recusando a enviar ajuda defensiva contra Jokic e deixando o pivô atacar no um vs um para transformar o melhor pivô passador da história em "só" um pontuador. Os números não indicavam que vinha realmente impedindo o ataque do Nuggets de pontuar, mas Portland esperava que, assim, eles fossem capazes de tirar o Nuggets do seu ritmo e desgastar seus jogadores do outro lado da quadra.

No jogo 5, Denver fez um ajuste simples: sempre que o time pegava um rebote defensivo, ele corria quadra acima para iniciar ataque o mais rápido possível. Isso não quer dizer que Denver estivesse correndo e arremessando como se fosse o Kings de 2018, mas essa velocidade forçava o Blazers a montar sua defesa no caos da transição e sem tempo para se posicionar da melhor maneira, o que criava um monte de missmatches e erros defensivos. A ideia era bastante simples: se o Blazers iria defender o ataque do Nuggets no um contra um, então, teriam de fazer isso sem poder ditar os termos dos confrontos. Isso fez com que Denver tivesse situações muito mais favoráveis no ataque, e essa confusão defensiva também gerou vários erros de posicionamento e comunicação que acabaram gerando rebotes ofensivos valiosos para Denver.

A estratégia funcionou; Denver anotou 60 pontos em um quarto e meio, abriu uma vantagem de 21 pontos e forçou o Blazers a fazer o que vinha evitando todo esse tempo: enviar ajuda defensiva. Não foi uma ajuda defensiva completa e desajustada, é claro; o propósito de Portland era mais desembaralhar os matchups e ganhar tempo para repostar sua defesa, para então voltar à sua estratégia original. Mas Denver soube aproveitar essa mudança para rodar a bola e conseguir bons arremessos, parte importante da sua arrancada para abrir vantagem.

Mas algo curioso aconteceu: Denver gerou arremessos bons contra essa ajuda do Blazers, e eles simplesmente não caíram. Isso é normal, pura e simples variância, nada além disso. Mas foi a vez de o Blazers aproveitar esses rebotes e sair em velocidade para pegar a defesa do Nuggets desmontada, e assim acordar seu próprio ataque. Simples assim, o ritmo do jogo se inverteu: agora era Denver precisando atacar uma defesa montada, enquanto o Blazers aproveitava os rebotes para sair em velocidade e conseguir pontos fáceis. O Blazers conseguiu algumas boas defesas, acertou suas bolas de três, e de repente, o jogo estava novamente empatado.

E, honestamente, chegou um ponto onde pareceu que a parte tática do jogo começou a não importar mais. Não que os técnicos não tentassem ajustes ou respostas, claro; é só que, quando chegou o quarto período, ambos os times sabiam exatamente o que queriam fazer, o que o adversário queria fazer, e virou simplesmente uma questão de quem conseguia executar melhor. Os dois times trocaram golpes, se alternando na liderança, até que chegou o minuto final do jogo.

A essa altura, a questão tática do jogo passou de "Secundária" para "Os técnicos estão em coma". Faltando 12 segundos, Monte Morris acertou dois lances livres para colocar o Nuggets na frente por 3 pontos. O Blazers deixou a bola nas mãos da sua estrela, Lillard, para tentar o empate, e o Nuggets simplesmente deixou Lillard - um dos melhores arremessadores de três da história, um dos jogadores mais decisivos da sua geração - tentar o chute. Lillard subiu, chutou, e errou... mas a arbitragem marcou uma falta inexistente para lhe dar uma segunda chance. E DE NOVO o técnico Michael Malone não fez nada: não tentou dobrar para forçar o passe, não fez a falta intencional, nada. Lillard, é claro, não perdoou.

As coisas ficaram ainda mais insanas na prorrogação, e eu digo isso em todos os sentidos. Parte do motivo pelo qual o Blazers estava confortável deixando Jokic jogar em isolação era porque confiava na excelente defesa de Jusuf Nurkic, mas o bósnio foi ejetado no quarto período. Enes Kanter entrou no seu lugar, e, então, o Blazers decidiu mudar sua defesa e finalmente enviar dobras ou, pelo menos, ajudas defensivas contra Jokic. Foi um erro mortal.

Essas foram 3 das 4 primeiras posses ofensivas do Nuggets na prorrogação. Eu entendo que o Blazers não goste tanto da ideia de deixar Kanter - um defensor ruim - marcando Jokic sozinho, mas Kanter é um cara grande e pesado, que Jokic não consegue empurrar com as costas e que conseguiu defender o sérvio decentemente quando teve a chance. Enviar ajuda, no entanto, abriu todo o jogo para os passes maravilhosos de Jokic, e por alguns momentos, Denver pareceu voltar a ser aquele time da temporada regular.

E, para ser justo com Terry Stotts, ele eventualmente tentou tirar Kanter de quadra e colocar um defensor melhor, mas mais baixo, para marcar Jokic (no caso, Covington). E dai o MVP fez isso.

Quando ele tá nesses dias, você simplesmente não tem resposta; você vive com as probabilidades.

Com 8 pontos de vantagem e um minuto no relógio, o jogo parecia decidido. Mas o Blazers tinha Dame: Lillard acertou duas bolas de três pontos absurdamente difíceis para recolocar Portland no jogo, e a situação do tempo normal se repetiu. O Nuggets liderava por 3 nos segundos finais, a bola estava na mão de Dame, e inexplicavelmente o Nuggets decidiu defender a jogada da MESMA forma que tinha feito antes. Não tentou dobrar a marcação, não fez falta intencional, nada. Deixaram Dame criar seu chute... e você sabe o que aconteceu.

Lillard finalmente ficou sem gás no quarto período; Denver finalmente foi mais agressivo na defesa, e forçou Lillard a soltar a bola e seus coadjuvantes frios a decidirem no seu lugar, o que eles não conseguiram. Lillard terminou o jogo com uma performance histórica: 55 pontos, 10 assistências, e 12 bolas de três, recorde absoluto na história da NBA para um jogo de playoffs.

Mas mesmo isso não foi suficiente. Do outro lado da quadra, o foco foi novamente como o Blazers defendeu Jokic. Nas quatro posses de bola que Portland defendeu Jokic no mano-a-mano, ele errou os quatro arremessos que tentou, 0/4 (seus cinco pontos no quarto vieram de assistências). Mas, na posse que se provou decisiva, o Blazers inexplicavelmente decidiu forçar a dobra... e Jokic descolou o passe mais bonito da série para decidir o jogo para Denver.

Portland ainda teve chances, mas erros de CJ CcCollum e Covington mataram o jogo e deram a Denver a suada vitória em um jogo que, honestamente, eu fiquei cansado só de assistir - e que também foi um dos melhores jogos que já vi na vida. E agora, eu só posso torcer por uma coisa nessa série fantástica: um jogo 7.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL