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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A volta por cima de DeMar Derozan no San Antonio Spurs

DeMar DeRozan, jogador do San Antonio Spurs - Brad Penner-USA TODAY Sports
DeMar DeRozan, jogador do San Antonio Spurs Imagem: Brad Penner-USA TODAY Sports

Vitor Camargo

Colunista do UOL

04/05/2021 04h00

Hoje em dia, quando falamos do basquete da NBA, algumas características vêm à mente: velocidade, contra-ataques, passes rápidos e bolas de três pontos —muitas bolas de três pontos.

Nesse contexto, não é difícil entender porque DeMar DeRozan se tornou um dos jogadores mais interessantes da NBA. O ala do San Antonio Spurs parece um jogador tirado diretamente dos anos 90. Foi quatro vezes All Star com jogo baseado no seu letal arremesso de meia distância, que vai completamente na contramão do resto da liga. O mapa de arremessos de DeRozan é dos mais singulares e até estranhos da NBA:

Mapa de arremessos de DeMar Derozan em 2020-21 - Reprodução Própria/NBA Stats - Reprodução Própria/NBA Stats
Mapa de arremessos de DeMar Derozan em 2020-21
Imagem: Reprodução Própria/NBA Stats

Em 2020-21, DeRozan está entre os dez jogadores que mais arremessam da meia distância na liga; 44% de todos os seus arremessos vêm dessa região da quadra, e mais 27% vêm dentro do garrafão mas fora da zona restrita (apenas 9% de três pontos). Em um momento em que ttoda a NBA está buscando os arremessos mais eficientes possíveis, perto do aro ou atrás da linha dos três pontos, incríveis 71% dos chutes de DeRozan são dados entre esses dois extremos.

E não é apenas volume. DeRozan dominou o jogo de meia distância como poucos, usando pés extremamente ágeis e excepcional controle do corpo para se mover em espaços apertados, mudar de ritmo e dançar ao redor dos seus marcadores para chegar até onde ele quer em quadra. Ele conhece todos os macetes que você pode imaginar —giros, fintas e ângulos diferentes que mantêm o adversário desequilibrado até conseguir o espaço para o arremesso, ou então cavar uma falta. Pouquíssimos jogadores na NBA possuem um repertório tão amplo como o dele.

Esse estilo "antiquado" do ala do Spurs é parte do que faz dele um jogador tão polarizador. Aguns admiram a originalidade e consistência do seu jogo, um farol luminoso em meio a uma NBA onde todo mundo cada vez mais busca jogar igual. Outros criticam as limitações do seu jogo, a dificuldade de manter o alto nível nos playoffs e o efeito negativo, para seus companheiros, causado por um jogador que congestiona a quadra e segura tanto a bola

As duas visões, é claro, não são excludentes. No entanto, ao longo dos anos a imagem de DeRozan entre os fãs pareceu muito mais gravitar na direção da segunda, focando nas suas falhas, no que não consegue fazer. Muito disso tem a ver com seus dias em Toronto, onde ele e Lowry fizeram do Raptors um time competitivo, mas que acumulou decepções em pós-temporada. Não ajudou que o Raptors trocou DeRozan por Kawhi Leonard e imediatamente foi campeão da NBA, fortalecendo a associação entre DeRozan e derrotas.

Enquanto isso, o ala foi enviado para San Antonio, onde ele e LaMarcus Aldridge deveriam se tornar a dupla de estrelas para manter San Antonio competitivo. A primeira temporada da dupla no Texas foi sólida, mas com uma surpresa: o Spurs estava ganhando apesar das suas estrelas, e não por causa delas. Com Aldridge e DeRozan em quadra, San Antonio tinha saldo medíocre de +0,5 pontos por 100 posses de bola, que disparava para +5,1 quando iam para o banco. Um ano depois, em 2020, o que era um problema passou a ser uma catástrofe: o Spurs era abismal com suas estrelas em quadra (-2,7 por 100 posses), subindo para +4,7 quando iam para o banco.

Não era por acaso. Com ambos em quadra, San Antonio tinha dois jogadores que seguravam demais a bola e congestionavam a quadra. Tudo ficava lento —o que só mudava quando iam para o banco. San Antonio venceu 32 jogos e perdeu 39 em 2020, e com as fracas atuações e o contrato de ambos se aproximando do fim, parecia que a aposta do Spurs seria um fracasso.

Então, 2021 deveria ser o último ano de DeRozan em San Antonio antes do inevitável divórcio. Mas para surpresa geral, as coisas começaram a mudar. DeRozan não estava mais atrasando o time; pelo contrário, apresentou algumas das melhores atuações da sua carreira. A dupla DeRozan-Aldridge continuou um fracasso, mas estava claro que Aldridge era o problema, a ponto de ser dispensado.

DeRozan, por outro lado, ganhou as chaves do ataque. Desde então, tem sido a força motriz. San Antonio anota 118,8 por 100 posses quando ele joga, o que seria o melhor ataque da NBA, e 104,2 quando senta, equivalente ao pior. Não tem sido suficiente para fazer de San Antonio BOM, é claro, mas o time tem sido competitivo e atualmente ocupa a décima colocação do Oeste, firme na briga pelos play-ins apesar de um calendário brutal.

Em termos gerais, a maior mudança de DeRozan em 2021 —crucial para esse sucesso— veio como passador. DeRozan sempre foi um passador sólido, mas ele atingiu um novo nível essa temporada. São 7,4 assistências por jogo, de longe a melhor marca da carreira, e seus passes têm gerado 18,8 pontos por jogo, uma das 10 melhores marcas da NBA. Ele agora usa a atenção que comanda como pontuador para abrir espaços e acionar seus companheiros em boas situações.

O Spurs tem vários jogadores talentosos, mas nenhum deles é particularmente eficiente criando o próprio arremesso ou armando. Por isso é tão importante que DeRozan tenha assumido esse papel, permitindo que seus companheiros possam fazer o que fazem de melhor, elevando seu jogo no processo - o que sempre foi uma das grandes críticas ao estilo do camisa 10.

Mas o mais importante é que DeRozan está fazendo isso sem afetar o que fez dele uma estrela em primeiro lugar: sua capacidade de pontuação. DeRozan tem sido espetacular achando seus companheiros e iniciando o ataque do Spurs, mas, quando precisa, ele põe a bola embaixo do braço e cava os pontos que o Spurs precisa para sobreviver com esse jogo de meia distância. Ele lidera o Spurs em pontuação (22 por jogo), e sua eficiência é espetacular: DeRozan é o quinto jogador com melhor aproveitamento na meia distância da NBA, e lidera TODA A LIGA em eficiência em jogadas de isolação, anotando 1,20 ponto por posse - logo na frente de Kevin Durant e Stephen Curry. Quando San Antonio precisa de uma cesta decisiva, você sabe exatamente quem vai receber a bola.

De certa forma, o Spurs já tinha uma identidade semelhante à da sua estrela: nenhum time arremessa mais de meia distância (pelo terceiro ano seguido) e menos de três pontos, e é o terceiro que menos passa a bola na NBA. Esse é parte do motivo do Spurs ter um ataque abaixo da média da NBA, mas a verdade é que o time joga assim porque precisa: o time conta com defensores bons e versáteis, jovens atléticos com potencial que eventualmente podem render mais que o esperado, mas o elenco hoje ainda tem muita falta das habilidades ofensivas de criação, passe e arremesso que os times da NBA cada vez mais buscam. O Spurs não tem o talento no seu elenco para jogar dessa maneira, então eles fizeram o oposto: abraçar aquilo que eles sabem fazer, e tentando da melhor forma possível.

É nesse contexto que DeRozan se tornou tão importante no Spurs. E de novo, não é para dizer que tenha elevado o time a uma grande potência - o time ainda é o décimo do Oeste e possivelmente nem chegará aos playoffs. Mas o Spurs agora parece fazer sentido, como não acontecia antes, envolvendo mais seus jovens talentos no processo.

Isso inclusive levanta questões sobre o futuro de DeRozan. Seu contrato está para acabar, e um ano atrás parecia certo que ele não iria renovar em San Antonio. O camisa 10 vai fazer 32 anos e dificilmente será parte do próximo time vitorioso de San Antonio. Mas o elenco continua sem outro jogador criativo assim. Uma renovação passa a fazer sentido para ambos os lados. DeRozan não vai ser o futuro do Spurs, mas, se puder continuar fazendo o papel que fez em 2021 - permitindo que os jovens talentos se encaixem ao seu redor e se desenvolvam no seu próprio ritmo -, é um jogador que pode valer a pena manter por mais algum tempo.

E, sim, pode ser que daqui a algumas semanas uma derrota nos play-ins ou mesmo nos playoffs traga à tona novamente alguns velhos fantasmas para DeRozan. Ele não é e nunca vai ser uma grande estrela, capaz de levar esse time longe, sozinho. Faz parte. Mas não deixe isso impedir que você reconheça e aprecie uma das melhores histórias de redenção da NBA.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL