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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Apreciando a grandeza de Stephen Curry

Stephen Curry sorri durante jogo do Golden State Warriors contra o Denver Nuggets - Ezra Shaw/Getty Images/AFP
Stephen Curry sorri durante jogo do Golden State Warriors contra o Denver Nuggets Imagem: Ezra Shaw/Getty Images/AFP

Vitor Camargo

Colunista do UOL

19/04/2021 04h00

Foi uma jogada isolada, no terceiro quarto da vitória do Golden State Warriors sobre o Denver Nuggets que aconteceu no Chase Center, na segunda-feira (12/04) à noite. Denver estava encostando no placar, 84 a 78, após uma bela cesta do provável MVP Nikola Jokic. Curry levou a bola para o ataque e recebeu um corta-luz de Damion Lee, mas seu marcador, Facu Campazzo, continuou colado em Steph, e atrapalhou o começo da jogada. Curry levantou a cabeça, viu Campazzo na sua frente e imediatamente endireitou seu drible, recuperando o equilíbrio, como ele faz quando vai atacar no mano a mano.

Nesse instante, eu apostaria que qualquer pessoa assistindo ao jogo imediatamente começou a prestar mais atenção. Steph estava pegando fogo, e tinha na sua frente o irritante marcador Campazzo, que durante todo o jogo estava marcando de perto, trombando e caindo, até mesmo cavando uma falta de ataque de Steph alguns minutos antes. Steph queria provar um ponto, e quando ele começou a driblar na frente de Facu, nós sabíamos exatamente o que ia acontecer a seguir porque já vimos isso acontecer centenas de vezes: Steph estava pronto para fazer chover fogo. Curry driblou uma vez, duas, passou a bola por baixo das pernas para criar espaço, deu um passo para trás e arremessou de três por cima de Facu. A bola mal tinha entrado na trajetória descendente quando Curry virou de costas e começou a voltar para o campo de defesa com os braços esticados para baixo, como ele faz às vezes em comemoração. Ele já sabia que ia entrar. A gente também. Swish.

O arremesso deu a Stephen Curry 43 pontos no jogo; ele terminaria a noite com 53, seu terceiro jogo de 50 ou mais pontos na temporada 2021-22, maior marca em toda a NBA. Mas mesmo antes de Curry entrar no modo supernova e singularmente destruir o embalado Denver Nuggets, o palco já estava preparado para uma noite histórica para o camisa 30. Steph entrou no jogo precisando de 18 pontos para ultrapassar o lendário Wilt Chamberlain como maior pontuador da história do Warriors, e todo mundo esperava que o armador - que tem média de 30 pontos por jogo na temporada - iria quebrar esse recorde contra o Nuggets. Mas ninguém esperava que o recorde viesse logo no primeiro quarto, como aconteceu; Curry fez 19 pontos sozinhos só no primeiro período, com 5 bolas de três pontos. E, simples assim, nós sabíamos que estávamos prestes a ver algo especial.

Outros grandes pontuadores também ocasionalmente tem jogos excepcionais, é claro, noites nas quais parecem imparáveis e que acabam entrando para sua história; mas eu não lembro de ver outro jogador que nessas ocasiões gera tanta excitação como Stephen Curry. Você consegue sentir a agitação crescendo conforme Curry vai esquentando. Quando entrei no Twitter, minha timeline inteira só falava sobre isso. Grupos de WhatsApp que não são sobre basquete começaram a bombar com notificações sobre o jogo. Um amigo antigo meu, que não sabe quase nada de basquete, me mandou mensagem perguntando qual era o recorde de pontos de um jogador em uma única partida - eu não precisava perguntar para saber que ele estava falando sobre Curry. As performances mágicas de Stephen Curry simplesmente tem um poder de atração único, incomparável.

Parte disso talvez venha do fato do próprio Curry ser um jogador completamente único, um que transformou o que enxergávamos como possível dentro do basquete. Isso não quer dizer que Curry seja melhor do que um LeBron ou Kevin Durant (para citar como exemplo dois outros grandes pontuadores), mas as coisas que Curry consegue fazer quando está com a mão quente são coisas que nenhum outro jogador faz ou fez na história do basquete. Suas bolas de três começam a vir de vários ângulos e distâncias, no contrapé, seguindo dribles loucos, por cima de dois ou três adversários, arremessos que fariam qualquer outro jogador ir parar no fundo do banco de reservas por sequer tentar... só que, quando Steph está pegando fogo, não só eles são aceitáveis como você tem certeza de que eles vão cair. Talvez seja por esses arremessos impossíveis que as atuações de Curry cativam tanto a imaginação; não é para ver os pontos que nós queremos ver um grande jogo de Curry, mas sim para ver esses chutes não só sendo acertados, mas parecendo até mesmo fáceis, banais.

Curry obviamente tem no currículo honras e reconhecimentos individuais que já o colocam entre os maiores de todos os tempos: dois MVPs (um unânime), três títulos, inúmeros recordes, e o título de maior arremessador que o basquete já viu. No entanto, paradoxalmente, o que faz de Curry tão gigante é justamente o seu impacto coletivo. Curry consegue destruir defesas sem nem encostar na bola, apenas com a sua movimentação em quadra e a gravidade que ele gera; adversários vão a extremos para impedir sequer a possibilidade de Curry receber a bola para um chute de três, e isso abre a quadra para o resto do time. Os números dizem que Curry tem média de 6.6 assistências por jogo na carreira, mas esse número iria facilmente dobrar se contasse todas as cestas fáceis que são consequência direta de Curry simplesmente existindo na quadra de basquete. Mesmo que Curry pudesse arremessar mais, e pontuar mais, e jogar de forma mais individual, ele sempre soube achar o equilíbrio entre seus próprios números e o empoderamento dos seus companheiros, e o que por vezes pode parecer uma forma passiva de jogar na verdade é basquete na sua forma mais pura e eficiente, aliado a um entendimento de que o que importa no fim do dia é a vitória do time, não os números do jogador.

Mas tem noites nas quais Steph simplesmente decide que vai dar show e resolver ele mesmo, e essas são as minhas favoritas. Contra o Nuggets foi uma dessas, e é difícil acreditar que não foi graças ao recorde que estava prestes a quebrar. Jogos assim você não tira os olhos da tela, com medo de perder algo que pode nunca mais ver na vida. E conforme o time do Warriors foi se desmontando após os títulos, Curry parece precisar mais do que nunca dessas performances épicas para que o time tenha uma chance de ser competitivo.

No final do jogo, o Warriors venceu o Nuggets por 116 a 107. Golden State conseguiu uma vitória importante, e se manteve firme na briga por uma vaga nos play-ins, dois jogos na frente do embalado New Orleans Pelicans. Mas honestamente? Olhando como um todo, isso é irrelevante. A temporada 2021-22 do Warriors foi para o ralo uma noite antes do Draft, quando Klay Thompson rompeu seu tendão de Aquiles. Sem ele, o time do Warriors simplesmente não tem talento suficiente para ser competitivo. No momento, Golden State está na décima colocação no Oeste, lutando para se manter na última vaga dos play-ins; mesmo que consiga classificar para os playoffs propriamente ditos, é difícil imaginar esse time sequer passando da primeira rodada.

Só que essa performance magnífica de 53 pontos não se trata da temporada 2021-22, e sim de algo muito maior: o legado de Stephen Curry, um dos maiores jogadores de basquete da história do planeta. Steph já tem 33 anos, e lesões em Klay Thompson e no próprio Curry impediram que o Warriors fosse um time competitivo nos últimos dois anos; mesmo que Curry continue espetacular, é inegável que estamos caminhando para o fim da sua gloriosa carreira. E é por isso que jogos como esse importam; eles nos mostram que esse brilho continua vivo, e que nós que apreciá-lo enquanto podemos. Algumas coisas só são valorizadas tarde demais, quando não existem mais; não deixe o gênio de Stephen Curry ser uma dessas.

Daqui a trinta ou quarenta anos, quando olharmos para trás, esses jogos vão ser parte do legado de Curry tanto quanto os títulos e os MVPs; aquelas noites aleatórias nas quais um jogo sem muita importância como esse Warriors e Nuggets de repente se transformava no jogo mais importante do mundo, o mais polarizador, aquele que fãs de basquete e até não-fãs de basquete corriam para ligavam a TV tentando poder capturar um pouquinho da magia daquele jogador que mudou para sempre a história do esporte.

Nós nunca vimos um jogador como Steph Curry antes, e provavelmente nunca veremos outro igual. É importante apreciar essas noites enquanto podemos, pois não sabemos por quanto mais tempo elas ainda vão acontecer - e, cada vez que uma acontecer, só nos resta sorrir e agradecer por termos conseguido presenciar mais um pouco dessa magia nas nossas vidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL