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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que o Chicago Bulls não consegue deslanchar após adquirir pivô All-Star

Zach Lavine, do Chicago Bulls, passa por corta luz de Nikola Vucevic durante jogo do Memphis Grizzlies - Nelson Chenault/USA TODAY Sports
Zach Lavine, do Chicago Bulls, passa por corta luz de Nikola Vucevic durante jogo do Memphis Grizzlies Imagem: Nelson Chenault/USA TODAY Sports

Vitor Camargo

Colunista do UOL

26/04/2021 04h00

Algumas semanas atrás - poucos dias depois da trade deadline - eu estava em um call com um ex-executivo da NBA, e em meio à conversa acabamos caindo no assunto das trocas. Falamos da ida de Aaron Gordon para Denver (nós dois adoramos), de Fournier em Boston, das trocas que não aconteceram por Kyle Lowry... até que eu citei o Chicago Bulls, e sua aquisição do pivô All Star Nikola Vucevic. Do outro lado da linha, eu imediatamente escuto uma risada sem graça. "Eu não tenho ideia do que eles estão fazendo", disse ele.

Conversando um pouco mais, nós percebemos que isso não era exatamente verdade; nós conseguimos entender o que o Bulls estava pensando, e qual a lógica por trás da sua grande troca. Nós só achamos que essa lógica estava completamente errada pensando no futuro da franquia.

Quando o Chicago Bulls trocou por Vucevic, a ideia básica era simples. Seu principal jogador, Zach LaVine, tinha acabado de ser eleito um All Star, e agora a equipe adquiria um segundo All Star em Vooch para colocar ao seu lado. No momento da troca, o Bulls estava em décimo lugar no Leste - ocupando a última vaga para o torneio play-in - e apenas apenas uma derrota atrás dos três times na sua frente (Heat, Celtics e Pacers). Reforçando seu time com mais uma estrela, Chicago pretendia fazer uma arrancada rumo à sua primeira aparição em playoffs desde 2017 e voltar à relevância dentro da NBA.

Existe uma motivação histórica importante por trás dessa movimentação, é claro. Apesar de ser uma franquia histórica e jogar em um enorme mercado, o Bulls tem flertado em excesso com a irrelevância desde a aposentadoria de Michael Jordan em 1998; depois de um fracasso em manter o time competitivo em 1999, Chicago se lançou no que seria a primeira de três reconstruções do seu elenco desde então, e que ainda não renderam uma volta às Finais da NBA. A exceção no período foi com o empolgante time com Derrick Rose, Joakim Noah e comandado por Tom Thibodeau, que viu Rose ser eleito MVP em 2011 e disputou as finais do Leste contra o Miami Heat de LeBron, Wade e Bosh. Mesmo com a derrota nessa série, Chicago era um time jovem que parecia pronto para ser um candidato ao título por anos a fio... até que Derrick Rose estourou o joelho, o time se desmanchou, e a janela do Bulls se fechou com a mesma rapidez que abriu. Então dado esse componente histórico, faz sentido a vontade do Bulls de querer acelerar sua reconstrução mais recente para voltar aos playoffs e tentar de uma vez por todas se reestabelecer no cenário competitivo da NBA.

O grande problema é que, se a aquisição de Vucevic eleva o piso do Chicago Bulls, ela também limita consideravelmente o seu teto. Por mais talentosos que Vooch e LaVine sejam ofensivamente, os dois são defensores muito fracos, e é difícil enxergar o Bulls montando uma defesa ao seu redor decente o suficiente para que o time realize seus sonhos competitivos - especialmente uma vez que seu núcleo também cerca a dupla de outros péssimos defensores como Coby White e Lauri Markkanen.

Além disso, a troca também torna muito mais difícil que o Bulls continue reforçando seu elenco. Para adquirir Vooch, o Bulls precisou mandar embora um jovem talento promissor (Wendell Carter Jr, que tem jogado muito bem em Orlando), duas escolhas de Draft (inclusive o que deve ser uma escolha de loteria esse ano) e um contrato que estava para acabar no fim do ano (Otto Porter). Adquirir o salário de Vucevic no lugar do que seria um espaço salarial livre coloca o Bulls acima do teto salarial para 2021, e sem espaço para contratar agentes livres de bom nível a não ser que façam uma limpa completa no resto do elenco; o time só vai conseguir adicionar jogadores menores, mais baratos, que dificilmente elevarão o nível do time como um todo. Da mesma forma, trocar um bom prospecto como Carter Jr e escolhas valiosas de Draft (a de 2021 atualmente está projetada para ser a oitava geral do recrutamento) diminui a capacidade do time de adicionar novos jovens talentos, que possam evoluir para complementar sua dupla de All Stars. A troca engessa consideravelmente o elenco do Bulls e remove suas avenidas para se reforçar além de contar com o desenvolvimento de outros dois jogadores de muito ataque e pouca defesa em White e Markkanen.

Em outras palavras, o Bulls agora se prendeu em grande medida para os próximos anos no quão bom o time pode ser no seu formato atual; eles sacrificaram parte do seu futuro em nome do presente com essa troca. Claro que o Bulls ainda vai ter desenvolvimento para acontecer nos próximos meses, como é o caso sempre que uma peça tão grande que altera a fábrica do seu time é adicionada, e julgar o resultado da troca apenas pelo que acontecer nos próximos meses é um erro; é razoável supor que a melhor versão desse núcleo venha em 2022, e não 2021, após uma offseason completa para todo o time. Mas também é inevitável que, ao trocar sua flexibilidade salarial e ativos de Draft para adquirir um pivô de 30 anos com problemas defensivos, o Bulls puxou seu alvo muito mais para o curto prazo, e que as vitórias imediatas são parte importante da equação.

Só que mesmo essas vitórias não estão vindo, o que é ainda mais problemático. Quando executou a troca, o Bulls estava em décimo lugar no Leste, um jogo atrás do Indiana Pacers em nono e dois jogos atrás do Miami Heat em sétimo; parte da motivação para a troca era justamente fazer uma arrancada ainda em 2021 para se garantir na pós-temporada. Ao invés disso, Chicago tem uma campanha de 6 vitórias contra 11 derrotas desde a troca - e isso contando com uma sequência de 3 vitórias em 4 jogos SEM LaVine, fora por conta dos protocolos de COVID. Chicago agora ocupa a 11a colocação do Leste, empatado com o Toronto Raptors e dois jogos atrás da última vaga dos play-ins, que hoje é do Washington Wizards; a distância para o Pacers em nono agora é de quatro jogos, e de seis para o Miami Heat em sétimo. Por qualquer definição possível, o Bulls tem sido um desastre desde a troca, e a trajetória continua afundando, e a vaga nos playoffs está cada vez mais longe.

Como era de se esperar, a defesa do Bulls tem sido o grande problema nesse período; #22 geral desde adquirir Vooch (e #25 nos jogos que Vooch e LaVine jogaram juntos), depois de ter sido a #15 antes da troca. Como já foi dito, os problemas defensivos fazem parte do tecido do qual esse time é feito enquanto LaVine e Vucevic forem as peças centrais; ver o time sofrer defensivamente após a troca é esperado, embora Chicago naturalmente espere que isso melhore.

Mas mesmo o ataque não está bem, e esse é um pouco mais surpreendente. No papel, LaVine e Vucevic são perfeitos para jogar um com o outro; uma combinação mortal de pick-and-pop, dois jogadores que podem pontuar dentro ou fora do garrafão. Vucevic também é um ótimo playmaker, o que tira um pouco o excesso de responsabilidade do ainda errático na criação LaVine. E, individualmente, os dois têm números excelentes e quase idênticos ao que eram antes da troca... e, ainda assim, o Bulls tem apenas o 19o melhor ataque desde a troca, uma melhora minúscula (111,1 pontos por 100 posses vs 110,6 antes da troca).

De novo, parte disso é aclimatação; entrosamento importa, e o Bulls tende a melhorar progressivamente conforme tem mais tempo para fazer sentido das suas novas peças. Vooch e LaVine são talentosos demais ofensivamente para o Bulls ter um ataque tão abaixo da média, e o técnico Billy Donovan ainda vai encontrar as melhores formas de aproveitar suas duas estrelas. LaVine perdeu os últimos 6 jogos, o que também atrasa o desenvolvimento dessa química.

Mas para um time que se engessou no núcleo atual e limitou o próprio teto com a troca, é válido questionar o quão alto esse teto é em primeiro lugar. Muitos críticos da negociação, incluindo eu mesmo, enxergam esse time como sendo não mais do que um para brigar pelas últimas vagas do Leste e perder na primeira rodada dos playoffs; uma evolução em relação ao que o Bulls era, talvez, mas dificilmente uma posição na qual os times da NBA querem se encontrar - especialmente tendo em vista a falta de opções salariais e de Draft de Chicago para o futuro. Mas o Bulls que tem se mostrado desde a troca ainda está bem abaixo desse, e levanta algumas preocupações mesmo com a amostra pequena. Chicago pode não ter feito a troca pensando só em 2021 e sim tambem nos próximos anos, mas os resultados precisam começar a aparecer - e, se não aparecerem, o Bulls pode acabar encarando sua quarta reconstrução muito em breve.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL