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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Iverson Cut, Dallas Mavericks e a contínua evolução tática na NBA

Allen Iverson em ação pelo Philadelphia 76ers contra o Dallas Mavericks em 2001 - Paul Buck/AFP
Allen Iverson em ação pelo Philadelphia 76ers contra o Dallas Mavericks em 2001 Imagem: Paul Buck/AFP

Vitor Camargo

Colunista do UOL

29/04/2021 04h00

Para quem não conhece basquete, uma posse de bola pode parecer um grande conjunto de movimentos aleatórios; jogadores correndo, trombando e se deslocando, até alguém arremessar. Mas quem está acostumado com o esporte sabe que na verdade é exatamente o oposto: a maioria das posses de bola na NBA na verdade são meticulosamente projetadas e desenhadas, uma série coreografada de ações com o objetivo de conseguir espaço para seus jogadores e gerar um bom arremesso. Muitas dessas ações ou jogadas foram surgindo e se aperfeiçoando ao longo do tempo, conforme a necessidade foi aparecendo e o jogo evoluindo.

Recentemente, em um jogo entre Lakers e Mavericks, eu achei um exemplo muito interessante de como essas jogadas que surgem em situações específicas acabam sendo copiadas e adaptadas por outros times da NBA, ganhando cada vez mais complexidade a cada interação, e achei interessante compartilhar aqui para ilustrar um pouco como funciona esse aspecto tático da NBA que pode passar desapercebido.

No começo do século, o técnico do Philadelphia 76ers, Larry Brown, desenhou uma jogada tendo como objetivo encontrar uma forma de dar a bola para sua grande estrela, Allen Iverson, com mais espaço em quadra. Nela, Iverson começava a jogada sem a bola, posicionado em uma das alas da quadra (na parte inferior da imagem). Os dois jogadores de garrafão do time, então, se posicionariam em linha mais perto do arco.

Iverson Cut - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Allen Iverson (#3, embaixo) se preparando para o Iverson Cut
Imagem: Reprodução/NBA

Iverson então cortava de um lado ao outro da quadra, e no caminho recebia corta-luz dos seus dois companheiros.

Iverson Cut 2 - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Iverson atravessa a quadra e recebe dois corta-luz
Imagem: Reprodução/NBA

Só quando Iverson chegava do outro lado da quadra é que o passe era feito. Foi a maneira que Brown encontrou para dar a bola para sua estrela com mais liberdade, já em movimento, de modo que Iverson podia tanto arremessar ao receber a bola como atacar o fundo da quadra, que ficava muito mais aberto já que os defensores de garrafão estavam mais alto na jogada.

Essa ação ficou conhecida como Iverson Cut (ou Iverson Screen) em homenagem ao armador do Sixers, e logo todos os times da liga começaram a copiar essa jogada; até hoje é comum ver times usando para levar a bola até suas estrelas e iniciar o ataque.

Mas técnicos não se limitam apenas a copiar o que deu certo 20 anos atrás; eles adicionam suas próprias variações e ajustes, pensando em se adaptar à evolução do jogo e também em manter as defesas desconfortáveis. O Iverson Cut foi criado mais de vinte anos atrás; desde então, defesas já viram essa jogada milhões de vezes e aprenderam a defender a ação de diversas maneiras. Então as variações ajudam a manter a eficiência do lance e a confundir os adversários.

O que nos traz ao jogo entre Mavericks e Lakers, e à jogada em questão - uma variação muito interessante do Dallas Mavericks sobre o Iverson Cut.

A jogada começa como um Iverson Cut normal; enquanto Luka Doncic traz a bola para o ataque, Jalen Brunson está posicionado na zona morta esquerda (na parte de baixo da imagem, fora do enquadramento), enquanto Dorian Finney-Smith (#10) e Dwight Powell (#7) estão preparando o corta-luz no topo do garrafão.

Finney-Smith e Powell preparam corta-luz para Brunson (fora da imagem, no canto inferior esquerdo) - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Finney-Smith e Powell preparam corta-luz para Brunson (fora da imagem, no canto inferior esquerdo)
Imagem: Reprodução/NBA

Brunson corta cruzando a quadra, se aproveitando do corta-luz de Finney-Smith e Powell, e quando chega do outro lado ele recebe o passe de Luka. Até aqui, tudo normal.

Brunson (#13) cruza a quadra com o Iverson Cut - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Brunson (#13) cruza a quadra com o Iverson Cut
Imagem: Reprodução/NBA

Mas, assim que Brunson recebe o passe, Finney-Smith também corta na mesma direção, se aproveitando do corta-luz feito por Powell para abrir espaço em relação ao seu marcador, Kuzma. Observe todo o espaço que Finney-Smith agora tem sobre seu defensor, e toda a liberdade que ele tem para iniciar a próxima ação enquanto a defesa do Lakers se recupera.

Finney-Smith usa o corta-luz - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Finney-Smith usa o corta-luz
Imagem: Reprodução/NBA

A partir desse ponto, Finney-Smith tem três opções diferentes para continuar a jogada. Vamos falar das três, começando pela que aconteceu de fato.

Finney-Smith, na jogada, avança para Brunson e ameaça um corta-luz, iniciando um pick-and-roll sem nenhum outro jogador desse lado da quadra. A Iverson Cut criou a situação ideal para essa jogada; as defesas na NBA preferem marcar esse tipo de PNR mantendo os jogadores presos na lateral ao invés de ceder o meio da quadra, já que no primeiro caso é mais fácil enviar ajuda defensiva. No entanto, Schroeder está correndo para se recuperar dos dois corta-luz recebidos, e não consegue entrar em posição para negar o corta-luz e manter Brunson na lateral a tempo; o armador se aproveita disso e ataca o meio da quadra.

Brunson ataca o meio da quadra - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Brunson ataca o meio da quadra
Imagem: Reprodução/NBA

Essa, no entanto, era a pior opção possível para a jogada nesse momento. Luka está parado no logo central, longe demais para ser uma ameaça na jogada mas perto o suficiente para que seu marcador (Alex Caruso) saia de perto dele e ajude a conter a infiltração de Brunson, fazendo o papel da ajuda defensiva onde nenhuma ajuda deveria existir. Sabendo que tem a ajuda de Caruso no meio, Schroeder pode marcar Brunson mais de perto, e mata a jogada. Brunson então precisa passar para Powell, que emenda um handoff com Luka, mas a essa altura a vantagem inicial criada por Dallas deixou de existir. A jogada fica estagnada, e acaba com uma tentativa falhada de ponte aérea.

Abaixo tem a jogada completa; observe o corte inicial, e como a incompatibilidade entre o pick-and-roll de Brunson e o posicionamento de Luka levam o Lakers a defender com sucesso a jogada.

Agora, o que o Dallas poderia ter feito diferente durante sua jogada a partir do Iverson Cut para aproveitar melhor a vantagem inicial criada, e gerar um arremesso melhor?

Um fator importante a se ter em mente é que, muitas vezes, as jogadas na NBA não são definidas do começo ao fim. Por vezes, o desenho da jogada é pensado para criar uma situação vantajosa para o ataque, e a partir desse ponto o ataque possui mais de uma opção para seguir dependendo da leitura dos jogadores em quadra. Muitos técnicos confiam que seus jogadores farão leituras iguais, e isso torna as jogadas desenhadas mais flexíveis e adaptativas ao que a defesa oferece.

É impossível ter certeza se era o caso ou não nessa jogada sem fazer parte do Dallas Mavericks, mas é bem possível que sim. E, sendo assim, vamos voltar um pouco na jogada, para o momento que DFS recebe o corta-luz de Powell.

Finney-Smith usa o corta-luz - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Finney-Smith usa o corta-luz
Imagem: Reprodução/NBA

Lembra que eu falei que Finney-Smith tinha três opções nesse momento? A primeira, que acabou acontecendo, era o pick-and-roll com Brunson; mas, para ele funcionar, Luka precisaria se deslocar para o lado oposto da quadra levando o marcador com si, de modo que Brunson tenha espaço na região central da quadra. Mas observe como Kuzma tenta passar por baixo do corta-luz de Powell para chegar do outro lado antes que Smith. Se DFS simplesmente recuar um passo para trás nesse momento, na direção da linha dos três, ele tem um chute totalmente livre - Kuzma agora tem dois corpos entre ele e DFS, e Harrell está sendo selado por Powell.

Se Finney-Smith recua, ele fica livre para o chute de três - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Se Finney-Smith recua, ele fica livre para o chute de três
Imagem: Reprodução/NBA

A terceira opção é que Finney-Smith saísse do seu corta-luz não para o pick-and-roll com Brunson, mas para fazer outro corta-luz fora da bola para Luka. Essa é a opção mais interessante, e talvez a mais mortal. O corta-luz de Finney-Smith tiraria o marcador de Luka (Caruso) da jogada; Kuzma está correndo na outra direção, por trás de Powell, e do outro lado da quadra, enquanto Powell tira Harrell da jogada. Não sobrou ninguém para marcar Luka, que receberia o passe de volta completamente livre na linha dos três pontos.

Finney-Smith poderia fazer o corta-luz fora da bola para Doncic - Reprodução/NBA - Reprodução/NBA
Finney-Smith poderia fazer o corta-luz fora da bola para Doncic
Imagem: Reprodução/NBA

De novo, nunca saberemos com certeza, mas não nos impede de especular.

Um jogo de basquete normalmente tem mais de 200 posses de bola, então pode parecer estranho focar no que aconteceu (ou deixou de acontecer) em uma delas. Ainda assim, pegar o recorte de uma jogada e analisar a fundo pode ser muito instrutivo para entender como funciona o jogo de basquete nos seus níveis mais granulares, como os técnicos estão pensando o jogo, e também como o aspecto tático do basquete continua em franca evolução.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL