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Desejo de estar no topo do esporte explica retorno de campeões como Alonso

Fernando Alonso  - Divulgação
Fernando Alonso Imagem: Divulgação
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

08/07/2020 12h00

A notícia do retorno de um campeão mundial à Fórmula 1, como Fernando Alonso fará em 2021, pela Renault, não é novidade na categoria. Desde a volta do piloto com mais títulos na história da categoria, Michael Schumacher, até Nigel Mansell, que demorou anos para ser campeão e saiu logo após o título, as histórias guardam semelhanças entre si. Quando estão totalmente comprometidos a buscar os melhores resultados possíveis nas pistas, os pilotos sentem falta de outros desafios na vida. Fora da F1, percebem o quanto sentem falta de estar no topo do automobilismo.

O exemplo de Alonso segue nesta linha. O espanhol começou a andar de kart aos 3 anos e devotou toda sua vida ao sonho de chegar e vencer na Fórmula 1. Depois de dois títulos, dois vices e anos de decepções na Ferrari e na McLaren, tornou-se até um personagem amargo e mais conhecido pelas reclamações, embora seguisse andando em alto nível. Ainda assim, quando decidiu que não queria continuar na categoria, evitou falar em aposentadoria.

alonso dakar - FRANCK FIFE / AFP - FRANCK FIFE / AFP
Fernando Alonso durante o Dakar 2020
Imagem: FRANCK FIFE / AFP

Fora da F1, fez um pouco de tudo: Indy, Endurance e até disputou o Rally Dakar. Tirando a decepção de ficar de fora das 500 Milhas de Indianápolis ano passado, andou bem em todas as competições. E sempre se manteve no radar da F1, e por um motivo muito simples: "Quero andar no mais alto nível", dizia Alonso em maio deste ano.

É claro que o fator financeiro também conta. Embora a F1 vá impor um teto orçamentário a partir de 2021, isso não inclui os salários dos pilotos. É fato que Alonso conseguiu manter um nível salarial semelhante, acima dos 30 milhões de dólares por ano, fora da F1, mas é muito mais difícil manter este nível, ainda mais em tempos de coronavírus, fora da categoria.

Niki Lauda teve a volta mais triunfal

lauda mclaren - Getty Images - Getty Images
Niki Lauda no GP da Áustria de 1984, ano em que foi tricampeão
Imagem: Getty Images

Mas a história mostra que o retorno à F1 costuma ser ingrato aos campeões. Niki Lauda foi exceção. O austríaco já era uma lenda do esporte quando decidiu aposentar-se em 1979, aos 30 anos. Na época, disse que achava bobagem "correr em círculos" e, apaixonado pela aviação, queria dedicar-se a sua própria empresa aérea. Dois anos depois, ele passou a trabalhar como comentarista, e achou que a vida de aposentado não era pra ele. É claro que o salário oferecido pela McLaren, sem precedentes na época, de 3 milhões dólares, ajudou a convencê-lo a voltar, em 1982.

Antes disso, ele quis fazer um teste só para sentir se tinha condições de lutar com pilotos bem mais jovens. "Fiquei emocionado mas, depois da primeira curva, esqueci a emoção. E já tinha voltado a ser um piloto novamente", contou em sua biografia.

Lauda foi campeão, por meio ponto, em 1984, e se aposentou em definitivo no final do ano seguinte, em que colecionou quebras.

Outro que teve uma boa volta, mas sem lutar pelo título, foi Kimi Raikkonen. Ele acabou sendo forçado a uma aposentadoria precoce justamente para dar lugar a Alonso na Ferrari, também aos 30 anos. Sem um carro competitivo na F1, Raikkonen foi atrás de seu outro sonho: competir no Mundial de Rali. O finlandês dizia gostar do estilo mais relaxado da competição, e ainda aproveitou os anos fora da F1 para disputar várias corridas da NASCAR e fundar a própria equipe de motocross. Raikkonen parecia tão satisfeito com a vida fora da F1 que sua volta, em 2012, pela Lotus, surpreendeu. Mas ele explicou: "Minha fome de voltar se tornou esmagadora." E continua: Raikkonen venceu corridas em seu retorno para a Lotus, voltou para a Ferrari por mais cinco temporadas, e agora está na Alfa Romeo, aos 40 anos. E disse que continua ano que vem "se ainda for divertido."

A volta de Schumacher

schumacher pódio - Rafa Rivas/AFP - Rafa Rivas/AFP
Com a Mercedes, Schumacher não conseguiu repetir os resultados de sucesso que obteve com a Ferrari. Neste ano, no entanto, o alemão conseguiu seu primeiro pódio desde que voltou as pistas ao terminar o Grande Prêmio da Europa na terceira colocação.
Imagem: Rafa Rivas/AFP

Houve outros campeões que seguiram a mesma trajetória, mas sem tanto sucesso, como Nigel Mansell, campeão de 1992, que teve dificuldades até para caber no cockpit da McLaren em 1995, e Alan Jones, campeão de 1980, que amargou vários abandonos com a Haas Lola em 85 e 86. Mas a volta mais badalada da F1 só poderia ser de Michael Schumacher. O alemão não dava sinais de que estava perdendo sua velocidade quando decidiu parar, aos 37 anos, em 2006. Mas o diretor técnico da Ferrari na época, Ross Brawn, conta que ele se dizia cansado e queria se dedicar a coisas diferentes na vida.

Por alguns anos, Schumacher volta e meia aparecia fazendo algum esporte radical ou acelerando em motos, até que teve um acidente sério em 2009. Ainda assim, chegou a tentar substituir Felipe Massa após o acidente do brasileiro, mas não conseguiu justamente por conta da lesão que tinha no pescoço. Foi quando o próprio Brawn percebeu que a necessidade de estar no topo do automobilismo tinha voltado, e o chamou para o novo projeto da equipe Mercedes. A negociação para o retorno, em 2010 e aos 41 anos, foi rápida.

Schumacher teve alguns lampejos, chegou a fazer uma pole e teve um pódio, mas ficou constantemente atrás do companheiro Nico Rosberg e cometeu vários erros, especialmente em sua última temporada, em 2012. Ainda assim, seu trabalho é considerado muito importante para a Mercedes ter se tornado a potência que é hoje.

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