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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Sem apoio do governo, Surdolimpíadas deixam dívidas no RS

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

21/05/2022 04h00

As Surdolimpíadas, encerradas no último domingo (15) depois de duas semanas de competições em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, não têm como pagar fornecedores.

O evento não recebeu apoio financeiro do governo federal, apesar de ter sido usado politicamente por ele. A cerimônia de abertura, no dia 1º de abril, atrasou mais de duas horas à espera da primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, convidada a discursar como "madrinha" do evento, causou uma saia justa com os organizadores ao entregar o microfone ao ministro da Cidadania Ronaldo Bento.

"A transformação por meio do esporte é uma das missões mais nobres do Ministério da Cidadania. Somos o braço social e esportivo do Governo Federal. A nossa tarefa é a de não deixar ninguém para trás, de fazer do Brasil um país inclusivo, justo e soberano", disse Ronaldo Bento em seu discurso.

Mas, ao menos em termos de apoio financeiro, as Surdolimpíadas ficaram para trás. E, junto dela, dezenas de fornecedores do interior do Rio Grande do Sul.

Jogo político na escolha da sede

As Surdolimpíadas (Deaflympics em inglês) são um evento poliesportivo criado em 1924, só não sendo mais antigo que os Jogos Olímpicos. O Brasil nunca teve relevância esportiva no torneio, mas apresentou, em 2020, uma candidatura para trazer a competição pela primeira vez à América Latina, em uma edição que deveria acontecer em 2021 e acabou adiada pela pandemia.

A escolha da sede foi repleta de embates políticos dentro da comunidade surda. A primeira opção era o Rio de Janeiro, para usar o legado olímpico, mas a incerteza política sobre o futuro do então governador Wilson Witzel (PSC) deixava a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS) sem garantias. A escolha apresentada para a federação internacional (ICSD) foi, então, o Distrito Federal, onde o governador Ibaneis Rocha (MDB) ofereceu verbas das Secretarias de Esporte e de Turismo.

Pouco antes do início da pandemia, porém, a CBDS passou por eleição, com vitória da oposição, do grupo de Gustavo Perazzolo, então responsável por escolher a sede das Surdolimpiadas na ICSD. Diana Kyosen, nova presidente da entidade brasileira, enviou carta à ICSD apresentando Caxias do Sul, cidade natal de Perazzolo, como sede do evento no Brasil.

No ano passado, a Secretaria Especial do Esporte, do governo federal, entrou na disputa. Demonstrou interesse em apoiar o evento dos surdos, bandeira da primeira-dama, com uma condição: que as Surdolimpíadas fossem no Rio, no Parque Olímpico, que por sua vez é bandeira do secretário Marcelo Magalhães.

Convencida de que esta seria a melhor opção, Diana levou ao congresso da ICSD, na Suíça, a decisão do Brasil de retirar o evento de Caixas e levá-lo ao Rio. Mas aí houve outra reviravolta. Com a renúncia do taiwanês Kang Chen, presidente da ICSD, por problemas de saúde, Gustavo Perazzolo foi escolhido para ser presidente provisório da entidade. Na véspera da assembleia que o empossou, ele e Diana se acertaram, e a confederação brasileira voltou atrás do pedido de mudança de sede para o Rio. As Surdolimpíadas seriam mesmo na cidade dele, mesmo sem qualquer garantia de financiamento por parte de governos no Brasil.

Ainda que as entidades internacional e brasileira estivessem alinhadas, o evento ficou sob responsabilidade de um comitê organizador local. Foi essa empresa privada, que tem como CEO Richard Ewald, que firmou contratos com fornecedores, que agora reclamam que não receberam o valor combinado.

Apelo à primeira-dama

Com pouco apoio estatal, as Surdolimpíadas passaram a depender quase exclusivamente das taxas pagas pelas delegações. O evento foi pensado para 6 mil atletas, mas apenas 2.400 disputaram as competições em Caxias do Sul. Dona do que seria a maior delegação, a Rússia foi suspensa junto com Belarus por causa da guerra na Ucrânia. Países importantes como Reino Unido, Austrália e China, por causa da pandemia, também não competiram.

A situação financeira, que já era difícil, ficou insustentável. Um hotel de Caxias do Sul chegou a abrir boletim de ocorrência contra Ewald, alegando que, dos R$ 470 mil combinados, só R$ 200 mil foram pagos. O hotel, que recebeu a Coreia do Sul, ameaçava reter as bagagens dos viajantes se o valor não fosse quitado. A reportagem apurou que diversos hotéis não receberam, assim como empresas de áreas como alimentação e de transmissão do evento.

Uma empresa de turismo de Canela (RS), que fez toda a operação de transporte da competição, enviou carta à primeira-dama Michelle Bolsonaro reclamando que tem a receber R$ 3,5 milhões. "A decisão foi irmos até o final com a operação do evento e contar com sua ajuda no Governo Federal para conseguir verba para o evento pagar todos os fornecedores que estão trabalhando incansavelmente para esse importante evento", escreveu a proprietária da empresa.

A chance de o governo federal ajudar, porém, é pequena. O gesto de Michelle Bolsonaro entregar o microfone para um ministro discursar na cerimônia de abertura pegou muito mal e estremeceu as já ruins relações entre o governo federal, que queria as Surdolimpíadas no Rio, e os organizadores.

O que os envolvidos dizem

O comitê organizador alega que está fazendo as contas para saber quanto deve e como vai pagar. A empresa promete uma entrevista coletiva para daqui a duas semanas, quando Ewald e Perazzolo vão "prestar os devidos esclarecimentos à comunidade sobre tudo o que foi realizado e contratado para que o evento acontecesse na cidade, inclusive, sobre a dificuldade em captar recursos e honrar compromissos financeiros com alguns fornecedores".

"A data de 3 de junho para apresentação dos resultados se faz necessária para que o setor contábil do Comitê Organizador possa concluir minuciosamente o levantamento financeiro de toda operação. Até esta data, para não passarmos informações equivocadas e desatualizadas, não nos posicionaremos sobre o assunto, visto que estamos finalizando o balanço de toda operação", disse o comitê, em nota.

O ministério da Cidadania não respondeu aos questionamentos enviados pela coluna. E a CBDS disse que não tem nada a ver com o evento, que era de responsabilidade da ICSD e do comitê organizador local.

Depois da publicação deste texto, a CBDS enviou novo posicionamento, ressaltando que "não teve e não tem nenhuma relação ou participação na organização do referido evento" e defendendo o governo: "Há cerca de um ano, o Governo Federal emitiu um comunicado informando que não teria recursos para investir no evento, sendo certo que o comitê organizador tinha ciência dessa informação."

"Sobre a participação da CBDS no congresso realizado na Suíça, ressaltamos que somente questões relacionadas à participação da delegação brasileira no torneio foram ali tratadas", continuou a CBDS.